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8 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

lação da neutralidade portugueza der origem a represalias contra nós, a que táboa de salvação poderemos recorrer? Ser-nos-ha possivel defendermos com o nosso exercito e com a nossa armada?

Já v. exa. vê os perigos a que nos póde expor o isolamento em que vivemos na Europa.

A situação geographica da peninsula assegura-lhe uma posição preponderante no estreito de Gibraltar. Se Portugal e a Hespanha, hoje tão approximados no seu viver economico por um tratado de commercio, puderem ligar-se por laços de uma sincera alliança politica, com Tarifa e Ceuta bem fortificadas, e com flotilhas de barcos torpedeiros nos portos do Algarve e do sul da Hespanha, tudo protegido pelos bellos vasos de guerra de que dispõe a armada hespanhola, apesar de todas as fortificações de Gibraltar, as duas nações peninsulares passarão a ter as chaves do estreito, podendo dividir ou deixar concentrar as forças navaes das potencias que têem os seus portos de guerra no Atlantico e no Mediterraneo, podendo exercer assim uma importancia decisiva nas questões da bacia mediterranea, da India e do extremo Oriente.

A fraqueza actual da Hespanha no estreito vem do facto do afastamento de Portugal, cujos portos, postos á disposição dos seus inimigos, neutralisam-lhe completamente as vantagens da sua posição geographica.

O espantalho da união iberica tem-nos afastado systematicamente da Hespanha. Mas é preciso que reflitamos que não vivemos na Europa no periodo das conquistas; com o desenvolvimento das instituições democraticas, as nações não têem interesse de espécie alguma em augmentar os territorios com elementos heterogeneos, que só podem concorrer para crear embaraços na politica interna: haja vista ao que está succedendo no reichstag allemão com os deputados da Alsacia e Lorena.

Ora, a Hespanha tem muitas difficuldades na politica interna para ter a leviandade de acrescentar mais esta da annexação de Portugal, tão cioso da sua autonomia; sabe-o a Hespanha por experiencia; sessenta annos de jugo não foram capazes de adormecer na alma portugueza o amor pela independencia. A unica rasão que podia levar a Hespanha a attentar contra a soberania portugueza seria a questão estrategica; mas, se a Hespanha conseguir remover este inconveniente por outra fórma, penso que não terá senão motivos para se felicitar comnosco pelas vantagens de uma alliança amigavel, sem os attrictos de uma absorpção violenta. (Apoiados.)

Existe ainda a outra grande via maritima para o extremo oriente, que é o Cabo da Boa Esperança. Tambem por esse lado as duas potencias peninsulares podem desempenhar um papel importantissimo. O caminho do Cabo é sómente aproveitavel para as potencias que poderem contar no transito com portos de deposito de carvão. Como v. exa. bem sabe, os vasos de guerra não podem levar grandes provisões de carvão, por isso não podem aventurar-se a viagens longas sem terem a possibilidade de tomar carvão durante a viagem. Sob este ponto de vista, Portugal e a Hespanha dispõem dos portos das Canarias, de S. Vicente de Cabo Verde, de Mossamedes no Atlantico, e de Lourenço Marques na Africa oriental.
Lourenço Marques tem ainda a immensa vantagem de ser um ponto estrategico importante na passagem do canal de Moçambique, que é o caminho mais curto ou, pelo menos, de mais facil navegação, por causa das correntes, para a costa occidental da Lidia. O livro de Charles Diike intitulado Gratter Britain é interessantissimo para quem quizer conhecer a importancia estrategica de Lourenço Marques em caso de um conflicto na India.

Vê-se, pois, que, se podermos chegar a uma alliança intima com a Hespanha, as duas potencias peninsulares, hoje fracas pela desunião, podem vir a occupar um logar importantissimo no convivio europeu. Em primeiro logar, o seu papel será de uma importancia decisiva nas questões de Marrocos, onde a peninsula tem interesses tradiccionaes a fazer respeitar; em segundo logar, ellas se imporão ao respeito da Europa, porque, dada a actual distribuição das forças das grandes potencias, póde depender da peninsula fazer pender para o lado por que ella se manifestar a balança do equilibrio europeu.

Portugal e a Hespanha alliados, não terão de certo interesse de especie alguma em intervir nos conflictos da Europa central, mas, desde que vivemos na Europa, é indispensavel que tenhamos um logar definido no convivio europeu, sob pena de sermos absorvidos ou pelo menos esmagados pelas grandes potencias n'uma occasião opportuna, porque não é preciso ser perspicaz, sr. presidente, para se calcular que, no caso de um novo congresso como o de Vienna em 1815, entrarão fatalmente em jogo grande numero das nossas colonias! Se abrissemos um pouco os olhos, se saíssemos um pouco d'essa politica de coração leve em que vivemos, talvez vissemos em cheque os Açores, a Madeira, a India e Lourenço Marques, se não for toda a provincia de Moçambique!

O tratado de commercio com a Hespanha é já um grande passo dado no sentido de uma approximação politica. Bem hajam os estadistas que encetaram e tão bem souberam concluir essas negociações.

Sr. presidente, v. exa. e a camara sabem, porque o têem sentido de perto, que angustiosa está sendo ha dois annos a nossa existencia politica, nenhum homem publico em Portugal póde ir descansar tranquillamente confiado de que não será desinquietado para lhe annunciarem a chegada de algum ultimatum ou de alguma nota desagradavel das potencias estrangeiras; eu não as censuro por isso, bem sei que os estados têem de ser governados afastando-se toda a sorte de difficuldades politicas, e entre duas ordens de difficuldades é natural que os governos tenham de optar pela menor; ora, podendo os interessados, como a South Africa na questão ingleza ou os nossos credores estrangeiros, crearem mais difficuldades aos seus respectivos governos na politica interna do que Portugal na politica externa, é evidente que esses governos terão de ceder ás exigencias dos seus poderosos nacionaes contra os direitos de uma nação fraca! E para prevenir situações d'estas que é indispensavel termos um logar definido na politica europêa.

Dado o caso de uma approximação com a Hespanha, os serviços da defeza nacional penso que se limitarão a pouco mais do que ás fortificações dos portos e ao estabelecimento de estações de flotilhas de barcos torpedeiros nos portos do Algarve, o que de certo custará muito menos do que as enormes sommas que despendemos n'esses serviços, sem nos garantirem resultados praticos.

N'este momento angustioso da nossa existencia, parece-me que é indispensavel termos coragem de acabar com despezas improductivas com que a nação não póde!

Tem-se fallado em receios de manifestações militares em caso de reducções no exercito e na armada! Eu não sei como possa haver alguem capaz de duvidar dos sentimentos de patriotismo e de abnegação de que tem dado sempre provas o exercito portuguez, para se lançar contra elle a suspeição aviltante de que seja capaz de voltar contra a patria esgotada de meios a propria espada que ella lhe confiou para a sua defeza! Eu não receio que isto possa succeder em Portugal; nenhuma espada portugueza sairá da sua bainha para exigir da patria esfaimada as ultima migalhas de que ella carece para as suas necessidades mais urgentes e para evitar a deshonra!

Sr. presidente, em rasão do officio tenho de seguir o movimento politico europeu, e como funccionario portuguez não posso perder de vista os interesses de Portugal na politica internacional.

O tratado de commercio, que ainda ha pouco foi assignado com a Hespanha, afigura-se-me um documento diplomatico de tamanha importancia politica, que
talvez não