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32 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

dos.) Não é ao antigo ministro da fazenda que o paiz pôde ouvir pronunciar esta phrase, acompanhando-a da affirmação de que o contribuinte não pagará o que póde e deve pagar. (Apoiados.)

Isto dito, sr. presidente, e tomando exactamente o discurso de s. exa. na sua ultima parte, vou referir-me á questão dos credores.

O discurso do sr. Dias Ferreira teve por fim realçar a sua administração, como tendo realisado o convenio com o banco de Portugal e preparado o accordo com os credores estrangeiros.

Não serei eu, nunca, nem alguem d'este ministerio que pretenda tirar ao sr. José Dias Ferreira a gloria do que lhe pertence. Até no meu proprio relatorio de fazenda fui o primeiro a affirmar que parte das economias feitas pelo governo provinha de providencias adoptadas pelo sr. Dias Ferreira e polo ministerio a que s. exa. presidiu. (Apoiados.)

Quem faz assim justiça, tem direito a protestar contra o que s. exa. disse e a completar o que s. exa. deixou de dizer.

Sr. presidente, posso affirmar á camara e ao paiz que a situação perante os credores estrangeiros e as potencias, no momento de tomarmos o encargo de resolver o problema, era perigosa e grave.

O sr. Dias Ferreira, pelos seus actos, pelas suas palavras e pelos seus escriptos - e a camara um dia verá esses documentos publicados- tinha collocado mal a questão e irritado os credores. (Apoiados.)

Referiu-se o illustre deputado a notas violentas, - eu, no caso de s. exa., talvez não tivesse lido aqui, por emquanto, documento algum,- e disse que não se tinha levantado reacção alguma contra o seu decreto de 26 de fevereiro. Era natural que assim succedesse.

Desde que esse decreto era provisorio, naturalmente esperava-se o resultado d'essa medida para depois protestar violentamente; foi o que se fez, porque a nota allemã, a que s. exa. não se referiu, o que não foi respondida, assim como a nota franceza, a que respondeu no dia 20, quando, segundo me parece, já tinha deixado de ser ministro, são violentas e ao mesmo tempo consequencias logicas da attitude, que as potencias tinham tomado perante o governo portuguez, presidido pelo sr. Dias Ferreira.

Sr. presidente, vir tratar d'esta questão no parlamento portuguez, e n'este momento, ainda não é de senso e de tino de estadista. (Apoiados.)

Quando uma questão d'estas está, embora resolvida, ainda ardente nas suas paixões e interesses, não póde tambem, nem deve, um ministro responder d'este logar a um homem da auctoridade do illustre deputado, quando vem levantar discussões pela fórma que s. exa. as levantou, só pela, vaidade de se mostrar perante o paiz como salvador! (Muitos apoiados.)

Pois bem; concedo n'este momento todas as glorias de salvador ao sr. Dias Ferreira, só para não causar o menor damno a uma questão que está, sim, resolvida, mas que ainda tem fogo debaixo das cinzas.

O sr. José Dias Ferreira póde e deve liquidar no parlamento as suas responsabilidades, quando estiverem publicados os documentos; e, se estes o não foram já, creiam os illustres deputados que rasões poderosas existem para assim se fazer.

Todavia, o governo desempenhar-se-ha d'esta obrigação em praso curto, e então será opportuno fazer a historia das negociações, dando-se a cada um a parte que lhe compete n'este trabalho, que é nacional, e em que eu e o governo não regatearemos a parte boa que couber a s. exa.

No governo das nações, os actos dos governantes constituem, uma serie de esforços, para se chegar a certo e determinado resultado. Quaesquer que fossem os erros do sr. Dias Ferreira, quaesquer que fossem as suas faltas, é evidente que nos seus processos, nas suas tentativas, alguma cousa houve de util, e nunca ninguem lhe contestou, nem diminuiu o seu valor. Disse-o mais de uma vez; affirmo-o ainda hoje.

N'estas circumstancias, mal cabida é qualquer vaidade, vindo s. exa. levantar no parlamento portuguez, intempestivamente, uma questão que é ainda delicada. (Apoiados.)

Mas, voltemos ao assumpto. Uma só phrase não posso deixar de levantar n'este momento.

Diz o sr. Dias Ferreira, note bem à camara, que não assignou o convenio, porque sabia que lhe era impossivel cumprir as suas penosas condições!

Sabia-o, quando chegou o convenio a Lisboa; não o sabia quarenta e oito horas antes, quando auctorisava o seu delegado a assignal-o! (Apoiados.)

A sciencia, que o fez condemnar aquelle acto, nasceu-lhe, por uma revelação divina, nas vinte e quatro horas em que o convenio passou de Paris para Portugal! Isto não é sciencia, nem é serio.

Das duas uma, ou s. exa. sabia de antemão o que devia fazer, e n'esse caso justamente lhe foi increpado, como uma deslealdade, o que praticou; ou s. exa. ignorava-o, e quem ignorava as condições do paiz, não estava á altura d'esta pasta, nem podia negociar convenios com quem quer que fosse. (Apoiados.)
Não quero tornar esta questão pessoal, no sentido parlamentar, já se vê; desgosta-me, apenas, o systema de querer alguem levantar-se n'um pedestal de gloriola, faltando á verdade que deve ao paiz e menospresando os sacrificios, os trabalhos e as dores, com que outros contribuiram para a obra, que elle julga ter feito na totalidade. (Apoiado.)

Este systema moderno de se fazer grande homem, pondo no seu pedestal, reputação, trabalho e virtudes dos outros, condemno-o em todos, e em s. exa. muito mais.
Voltaremos á questão em si, e voltaremos com os documentos publicados, completos. Então veremos se o sr. Dias Ferreira teve habilidade ou inhabilidade, valentia ou fanfarronada, (Apoiados.) quando negociava com os credores e com os governos estrangeiros; então veremos, e então se saberá, e serão admiradas as espantosas respostas do ministro a uma das primeiras nações da Europa; respostas puramente de advogado, que julga que perante as grandes potencias europeias, se tratam as questões com as mesmas argueias, com que se fazem aggravos para a relação ou para o suppremo tribunal! (Riso. - Apoiados.)

Diz o sr. Dias Ferreira que eu sou da escola da novissima orçamentalogia, e que da velha e classica é o meu amigo e illustre relator da commissão do orçamento o sr. Carrilho! Mas a que escola pertence o sr. ministro da fazenda da situação transacta, que, em pleno parlamento declara, que falsificou, é a phrase, o seu deficit para enganar os estrangeiros e arrancar impostos ao paiz ? (Apoiados.)
Em que escola se classifica este financeiro e orçamentologo? (Riso.)

A nota que eu tirei d'esta parte do discurso de s. exa. está textual. S. exa. disse, que tinha calculado a cifra do deficit em 1:000 contos de réis em vez de 1:000, porque queria com esse augmento do deficit ter uma rasão para dizer aos estrangeiros, que não podia pagar muito e para pedir ao paiz mais impostos! Esta declaração é extraordinaria ! (Apoiados.)

Depois o illustre deputado continúa fazendo uma critica leve e engraçada, conformo é uso de s. exa., ácerca das verbas por mim calculadas. Assim, diz, que me entretive com paciencia benedictina a discutir verbas de pequena importancia. Ora isto, é exacto; mas não sei que os orçamentos se façam por outra fórma. Quando podia trabalhar, á noite, preferi occuppar-me em calcular; as verbas insignifiantes, em vez de ir passar as noites em casas particulares a jogar o whist ou o voltarete. (Apoiados.) Quando