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1010 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

É na popa que está a direcção do navio; a popa fica, portanto, representada por v. exa., sr. presidente, secretariado pelos cavalheiros que tem a seu lado, que eu muito estimo e preso. Temos já a popa e a proa. Resta agora ver aonde fica o bombordo e o estibordo. O estibordo é o lado direito, é o lado da conservação de todos os principiou de estabilidade e tranquilidade do poder. É como se disessemos, o sr. presidente do conselho, o sr. Hintze Ribeiro, o governo. O bombordo é o lado esquerdo. Somos nós: é este lado, a opposição, aquella parte que á falta de melhor, pelo que nos pertence, principalmente, tem vindo trazer a esta camara a sacrosanta cruzada de uma discussão parlamentar! Assim, quando as discussões politicas caminham bem, ponha v. exa. os olhos na proa (apontando para os srs. Teixeira de Sousa e Santos Visgas), n'aquelles cavalheiros, e dirija a sua attenção para o lado de estibordo. Quando a atmosphera politica está socegada, quando a falta de habilidade dos contrarios não entorpece a sua natural conservação no poder, o barco guina para estibordo: o sr. Hintze Ribeiro segura-se, aguenta-se. Quando, porventura, os adversarios dirigem o barco com um bocadinho mais de clairvoyance, quando sopra o tufão da revolta, o barco guina para bombordo: os fundos do sr. Hintze Ribeiro descem. (Riso.)

Tendo explicado ao nobre ministro da marinha, á camara e a todos os que me escutam, em linguagem simples, e creio que nada offensiva, o que é o cavallinho de pau, a que se referiu o sr. ministro da marinha, passo ás perguntas que desejo dirigir-lhe.

Chegaram-nos noticias de que a situação em que se encontra o districto da Lunda, que foi creado na algum tempo, de cuja occupação se tratava, e igualmente o estado das armas portuguezas em Moçambique era muitissimo alarmante.

Quanto á Lunda dizia-se que os naturaes se haviam sublevado, que se requisitava constantemente augmento de força militar e material de guerra; dizia-se tambem que os saques da provincia sobre a metropole eram menzaes, permanentes e progressivos, e contava-se de tal maneira a situação da nossa Africa occidental, que muitos homens experimentados nos negocios publicos chegaram a aventar a idéa de que nós deviamos abandonar a empreza a que haviamos mettido hombros. Não tenho duvida alem dizer á camara que sou contrario a essa idéa.

Entendo que não podemos abandonar a consolidação do dominio portuguez n'este territorio por causa da Lunda (Apoiados.) e entendo ao mesmo tempo que é este um assumpto, ácerca do qual o governo não pode ter, não direi já hesitações, mas nem sequer contemplações com quem quer que seja.

O sr. Ministro da Marinha (Jacinto Candido): - Apoiado.

O Orador: - Pergunto ao sr. ministro da marinha o que consta oficialmente a s. exa. quanto a este assumpto. Desejo que s. exa. diga á camara, se porventura tem conhecimento d'isso, qual é o estado d´aquelles povos relativamente ao dominio portuguez e ás nossas tentativas de consolidação n'aquelle districto.

Em segundo logar, que s. exa. nos diga quaes são as requisições até agora servidas, quer de pessoal, quer de material de guerra, e quaes as requisições que estão para ser attendidas no ministerio da marinha.

E peço ainda a s. exa., se porventura o póde fazer, que nos elucide sobre o montante total das despezas extraordinarias que o estabelecimento do districto da Lunda tem custado até hoje ao paiz, e qual o calculo de s. exa. sobre as despesas a fazer até ao fim do anno economico.

Depois d'isto, peço a s. exa. que tambem nos elucide sobre o estado das nossas cousas em Moçambique, em cujo território, como hontem disse, e largamente explicou o sr. Marianno de Carvalho, parece que a conhecida tribu dos namarraes continúa a fazer as costumadas proezas.

Não digo a s. exa. que supponho possivel a immediata extincção d´essas difficuldades; parece-me, em todo o caso, que com o expediente do actual governador de Moçambique, activo, energico e desembaraçado, o sr. ministro da marinha poderá, lançando mão de um systema de defeza militar, a que se presta naturalmente a natureza especial d'aquelle territorio, dominar completamente aquella tribu desinquieta.

Pedindo a s. exa. explicações sobre o assumpto, não só relativamente á Africa occidental, como á oriental, peço a v. exa. que me reserve a palavra para responder ao sr. ministro, se assim o julgar necessario.

O sr. Presidente do Conselho de Ministros (Hintze Ribeiro): - O illustre deputado o sr. Arrojo interpellou-me directamente ácerca de umas palavras, que todos ouviram ao illustre deputado o sr. Ferreira de Almeida. A minha resposta a s. exa. é muito simples.

Como todos sabem, o sr. Ferreira de Almeida saiu do governo por divergencias n'um assumpto de administração. As palavras que o sr. Ferreira de Almeida proferiu entendem-se no sentido de que, se essas divergencias não se tivessem dado, s. exa. teria tido muita satisfação em vir á camara dar conta dos seus actos. Se não veiu foi porque, tendo-se suscitado essas divergencias, ellas o impediram de continuar na gerencia da pasta da marinha.

O sr. Ministro da Marinha (Jacinto Candido): - As perguntas que o illustre deputado me dirigiu representam efectivamente o interesse de s. exa. por um dos mais importantes assumptos que actualmente impendem na pasta da marinha.

A este respeito devo declarar á camara, e aproveito este ensejo para o fazer, que desejo muito tempo a expedição da Lunda, qualquer que fosse a fórma como as cousas eram conduzidas, me preoccupava consideravelmente. Não era só a fórma como as cousas eram conduzidas, mas mesmo em relação ás pessoas que conduziam as cousas.

Por causa d'esta minha apprehensão, e porque não era satisfactorio o estudo e informações que tinha no meu ministerio para poder fórmar juizo seguro sobre o que se tinha feito e projectava fazer, eu, que depositava, como deposito ainda, a mais completa e absoluta confiança no caracter, na honestidade, na firmeza de proposito, na intelligencia sã e no bom censo esclarecido do illustre governador geral de Angola, o sr. Alvaro Ferreira, dei ordens terminantes a este digno funccionario para assumir elle só, sob sua inteira e exclusiva responsabilidade, directa e pessoal, para commigo e para com o governo, a direcção de todas as providencias a tomar.

Essas ordens foram transmitidas telegraphicamente ha mez e meio ou dois mezes, e hoje posso ter a satisfação de ler á camara as instrucções que o sr. alvaro Ferreira, governador geral de Angola, organisou e communicou ao commandante da expedição e governador do districto da Lunda, em harmonia com as instrucções que tinha recebido do governo.
(Leu.)

Como s. exa. e a camara vê, estas instrucções, que são de 7 de março, foram enviadas pelo governador geral de Angola, Alvaro Ferreira, ao governador do districto da Lunda, e representam, até certo ponto, a satisfação ás preocupações justas que alarmaram a opinião publica em relação ao estado desordenado da expedição - e não accentuarei bem o qualificativo que possa merecer esse estado de cousas, porque não quero ser precipitado nos meus juizos, que entendo não dever fazer sem ter elementos seguros em que os possa basear.

O que posso em todo o caso garantir ao illustre deputado é que, em relação á situação da Lunda, de ha um