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1346 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

rio Orange até 18° 2' 7'' de latitude S., e espraiou-se para o sertão até Andara, absorvendo Angra Pequena e reduzindo á praia a possessão britannica de Wahlfish-bay. Este gravíssimo e inopinado acontecimento, que ao próprio governo de Inglaterra deu cuidados, preoccupou naturalmente o governo portuguez, apesar de seguro da lealdade e amizade do gabinete de Berlim, e sobresaltou, porventura exageradamente, as auctoridades e o commercio de Angola, bem como os nossos africanistas dedicados, alguns dos quaes se assustaram pelo futuro do porto de Mossamedes. A vigorosa acção colonisadora da Allemanha encontrava no seu caminho a província de Angola sem fronteiras reconhecidas por ella, e sem titulos nenhuns, dos que têem valor perante a sua jurisprudência colonial, á posse dos terrenos d'alem Cunene e do sul do curso inferior deste rio. De mais, esses territórios estavam sendo, mais do que nunca, tidos como banaes, salpicando-os ou sulcando-os a cada instante ondas e correntes de emigração do sul, tanto de indígenas como de colonos, ao mesmo tempo que sobre elles incidiam a curiosidade da sciencia e a cobiça do commercio e da industria mineira. Viajantes de todas as nações, entrados pela costa, ou saídos do Cabo, ou adiantados do Transvaal, esquadrinhavam assentos para novas colónias, e exploravam, ou tentavam explorar com pouca fortuna, as suas vias fluviaes, como fizeram Galton, Green, Andersson, Pelgrave, Hartley, Smuts, Hahn, Mayo e outros. Missões protestantes, inglezas e allemãs, diligenciavam submetter á sua influencia moral, e por ella á influencia política dos governos de que eram porventura instrumentos, os sobas do Ovampo e da Cuanhama. Planeava-se a fixação de colonias allemãs em zonas tão entranhadas no nosso domínio ou tão avizinhadas d'elle como Luceque. Por outra parte, os boers, e assim os de Humpata como os da região do Orange, punham as vistas nos Amboellas, no Bié e no Bailundo, appetecendo os seus campos, de bons pastos, para receberem os sobejos da população do Transvaal ou os dissidentes do seus governantes. Chefes namaquas projectavam, e chegavam a tentar, ao que parece, transferir-se com os seus povos para norte da terra de Dámara, o que porventura determinaria uma refluição dos ovampos para mais próximo ou mais dentro dos limites portuguezes; e bandos numerosos de hottentotes e bushmen, aguerridos na escola dos caçadores de elephantes e dados a viverem de roubos de gados e saques de libatas, affoitavam-se a subir por entre o Cunene e o Cubango, tendo já por mais de uma vez apparecido nas cercanias da Huilla. Accentuava-se, pois, um movimento de progresso dos povos da Africa Austral na direcção do norte e de encontro ao districto de Mossamedes, e era de prever que lhe daria novo impulso a occupação allemã, que necessariamente havia de produzir deslocações e embates, e de repellir os elementos da população que não podesse absorver.
Perante estes perigos e ameaças, o que naturalmente faria uma nação poderosa era, a toda a pressa, definir, onde estivesse indeterminada, a fronteira que lhe convinha e julgava poder adoptar, segural-a com actos de posse e guarnecel-a de meios de defeza. Sem ser poderoso e comquanto não receiasse violências nem perfidias, o governo portuguez alguma cousa emprehendeu n'este sentido. Cumprindo-lhe principalmente acautelar o plan'alto de entre Cunene e Cubango, que serve os concelhos sertanejos do districto de Mossamedes, o ministro dos negocios da marinha e ultramar deu instrucções, logo em 1885, para que uma expedição, organisada em Mossamedes e na Humpata, fosse ao Cubango arvorar a bandeira portugueza e estreitar relações com os sobas que encontrasse no seu trajecto; e se esta expedição, effectuada nos princípios de 1886, não logrou todos os resultados que della se esperavam, ao menos submetteu e castigou alguns potentados do alto Cunene e estabeleceu um posto de occupação em Cassinga, nas
margens do Chitanda, ponto que domina os caminhos do sul para o norte. Foi acertada esta determinação; ella própria, porém, faz notar a falta de outra semelhante, que facilitasse o proposito, depois revelado pelo governo nas negociações diplomáticas com a Allemanha, de fazer reconhecer o parallelo do Cabo Frio como limite portuguez. Se desejávamos, se julgavamos poder, e se de feito podíamos, manter similhante limite, apesar de separado da vanguarda da nossa occupação por vastos territórios em parte impenetrados, era no Cabo Frio, era na lagoa Etosha, era na terra ou no rio Ovampo, que nos cumpria ir praticar actos de soberania e lavrar títulos de posse que pudéssemos adduzir perante o gabinete de Berlim, tanto mais quanto, occupadas essas posições, protegidos ficavam os valles do Cunene e do Cubango e o interessante planalto que os separa. Mas se tão colossal empreza não foi tentada, nem proposta, nem alvitrada, é que a consideraram irrealisavel, tanto com os recursos da provincia de Angola como com os auxílios que de prompto lhe poderia facultar a metrópole, as próprias pessoas que aspiravam a levar o nosso domínio, não sómente ao Cabo Frio, senão até ao Karri-Karri e á fronteira dos Matabelles. Essas pessoas, nobre e patrioticamente ambiciosas, tiveram, pois, um ensejo de reconhecer de um modo pratico quanta disparidade havia entre as suas ambições e os meios materiaes de que o paiz dispõe para as satisfazer. Não nos sendo possível traçar no terreno, estabelecer de facto, as fronteiras de sul e sueste de Angola, como ajudou a proval-o a expedição de 1880, o governo não tinha motivos nem podia allegar pretextos para se recusar a entrar num accordo ácerca dellas com o governo allemão, quando assim lho propoz, em dezembro de 1885, o sr. barão de Schmidthals. A falta de accordo se nos deixava livre a acção para irmos fortalecendo os direitos ou validando as pretensões, tambem deixava desafrontada a acção da Allemanha, bem mais rápida e vigorosa. Evidentemente o accordo haveria de nos custar concessões, aliás pareceria antes imposição; mas a nossa intransigência seria temeridade, e temeridade sem a desculpa de uma profunda convicção do próprio direito. Mais nos valia moderarmos as aspirações do que arriscai-as todas. Dominando já em África em tão vastas regiões que quando considerámos nellas esmorece a nossa fraqueza, seria loucura recusarmo-nos a perder, ou a não adquirir, algumas léguas ou graus de sertão, do mais desfavorecido pela natureza e mais desconhecido pela civilisação, para a troco dessa duvidosa perda segurarmos ao districto de Mossamedes as communicações, os mercados, a zona natural de expansão e de defeza, de que precisa para realisar os felizes destinos que lhe estão promettidos. Ser-nos-ía mais vantajoso, talvez, termos preparado as negociações com as occupações, e reconhecimento dos direitos com os factos; mas o governo não podia mandar esperar a Allemanha á porta da secretaria dos estrangeiros e mandar parar os seus agentes em África. E se os negociadores não podiam considerar-se em termos de igualdade relativamente aos meios de que cada um dispunha para fazer valer junto do outro os seus interesses, a desegualdade ser-nos-ía mais sensível no terreno da concorrência, desobrigada de mútuos respeitos em África, do que no campo diplomático.

Mas, apesar d'essa desegualdade, a negociação foi felicíssima, no entender da vossa commissão. Os limites de Angola, que ella definiu, se na carta ficaram muito aquém das nossas aspirações, no interior alargaram-se para muito alem dos pontos que lhes marcavam habitualmente opiniões auctorisadas, e que não passavam do curso superior do Cubango. A carta do marquez de Sá da Bandeira não abrange, para leste, senão as povoações marginaes d'esse rio. Ainda em 1886, quando já tratávamos de nos acautelar contra as occupações estrangeiras, o governador geral de Angola, nas instrucções que deu á expedi-