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SESSÃO DE 21 DE JUNHO DE 1887 1351

mente sustentada por mais de um orador, e as rasões então adduzidas levam-me a pensar ainda hoje, que as nações pequenas não podem ter senão restrictas colonias, para se não enfraquecerem em esforços e sacrificios que esgotam a metropole se ficam sem compensação.
Ha dois annos discutiu-se a organisação do Congo portuguez. Na conferencia de Berlim haviam sido reconhecidos, por parte das potencias, os direitos de propriedade de Portugal, a uma zona collocada na margem direita do Zaire. Para effectivar essa posse, uma das principaes medidas que o governo portuguez entendeu dever trazer á camara foi a regulamentação do nosso dominio n'essa porção de margem direita do Zaire.
N'essa occasião tomei a palavra sobre o assumpto e expuz franca e largamente, despido inteiramente de considerações de ordem politica, manifestando-me contra as idéas do ministerio que então se sentava n'essas cadeiras, e que eu apoiava. Sustentei então que aquella região, collocada na margem direita do Zaire, não podendo ser uma rendosa feitoria, nem uma fazenda proveitosa, não podendo ser ao mesmo tempo um centro de adaptação das populações europêas ao clima africano não comprehendia como nós fossemos comprometter esforços, dinheiro e vidas, só para termos bons cabindas ao serviço da nossa armada.
Eram estas as minhas idéas de então, e espero que o futuro as confirmará.
Ha poucos dias ainda que prestou juramento nas mãos do sr. ministro da marinha, o novo governador do Congo; aguardaremos os seus trabalhos e os seus relatórios para verse até que ponto era propheta nas minhas supposições.
Sustentar colonias unica e exclusivamente como padrões gloriosos do passado e como testemunhos permanentes na historia e no tempo do que se fez de grandioso e quanto se é impotente hoje para fazer o que é util, poderá ser poetico mas é pouco proficuo.
E as nações que, fóra d'esta corrente de utilitarismo moderno, do utilitarismo colonial, se deffinham abraçadas aos seus padrões gloriosos, morrem suffocadas e estranguladas pelas exigencias da civilisação da Europa que tão avessa é a gloriolas.
E não se imagine que estou phantasiando.
O movimento geral da Europa está chamando vivamente a attenção de todos aquelles que se dão ao estudo da sociologia, e tentam explicar esta emigração universal da raça ariana á descoberta de novas terras.
Raro paiz escapa a esta voracidade de novas conquistas, de novas apropriações de territorios.
A Inglaterra, como que estrangulada na sua cinta aquosa, como se trasbordasse n'um excesso de população, dilata-se por todas as regiões do inundo, tendo já apropriados 300.000:000 de habitantes de todas as raças..
A Russia nos raros intervallos que lhe deixa a systematica realisação do dourado sonho do seu extraordinario fundador, dilata-se para a Asia, e, para o sul, ameaça o imperio britannico da India e para este, transpostas as barreiras do Amur, alastra pelos campos da Manchuria.
A França gloriosa e militar, de espirito tão apparentemente avesso aos modernos problemas coloniaes, sustenta guerras, nem sempre gloriosas, mas sempre despendiosissimas, nos confins do Oriente, estabelece o seu dominio em Madagascar e em Obok e trata com Portugal a delimitação dos seus territorios na costa occidental da Africa.
E até a Italia, o paiz das bellas artes, em cima do qual parece pairar ainda o espirito idealista do Dante, se aventura nos areaes do Mar Vermelho, em cata d'aquelles formosos valles onde murmuram os rios fecundantes da Abyssinia.
E a Allemanha que ha poucos aunos ainda pela voz do seu chanceller entendia que a melhor colonia de Inglaterra não valia um osso do mais miseravel dos seus pomeranios, por processos seus, expeditos e pouco cortezes, arrisca-se a uma guerra com a Hespanha pela posse de um pequeno trato de terreno na Oceania, o vem tratar com Portugal a delimitação da nossa fronteira sul de Angola pela qual entestâmos já com as suas colonias na Africa meridional.
E como se vê uma emigração universal da Europa que não póde justificar-se, só pelos caprichos dos seus homens de estado, desejosos de perpetuar o nome com as glorias da conquista.
Ha causas de outra ordem, filhas da ambição e do industrialismo invasor que caracterisa as modernas civilisações tão differentes no caracter das civilisações primitivas, que formadas onde o clima era suave e generoso e pagava com usura todos os esforços, por isso mesmo ficaram n'um periodo imaginativo, e como que estagnaram, porque nenhuma das outras faculdades podia desenvolver-se n'aquelle meio.
E a esta influencia não podia eximir-se; o homem que ha de ser sempre o melhor dos productos do meio em que existe.
As civilisações secundarias formadas em terrenos menos generosos, ao mesmo tempo que transpozeram mais depressa, esse periodo imaginativo, tornaram-se por isso mesmo mais proprias para a lucta da civilisação, attingindo, para logo, este periodo scientifico moderno, na qual as actuaes gerações se affirmam por um desejo de saber, e pela necessidade de satisfação de prazeres materiaes e de gosos que só podem ser realizados pelo industrialismo.
E é por este modo que, se deve procurar a origem da corrente moderna d'este industrialismo que procura hoje encontrar novos mercados fóra da Europa, onde não ha consumo sufficiente para o excesso de producção.
É necessario procurar, novas terras; mas é necessario tambem ir levar como factor economico e de civilisação a regiões inhospitas todos es elementos de prazer material. Este é o lado philantropico da questão.
Não é só ainda a necessidade de abrir novos mercados, mas tambem a urgencia de ir procurar para as industrias sempre crescentes as substancias que a Europa não podia fornecer-lhe em abundancia, como a guta percha, o cautehou, o Indigo, e todas as mais substancias gordorosas e amylacias que a Europa não póde dar em quantidades que bastem.
Não é só ainda a necessidade de ir procurar estes elementos de industria, é a necessidade de buscar subsistencias; e assim é que vamos buscar o trigo ao Egypto, o arroz á Birmania, e quem sabe que numero de subsistencias nos estará reservando o futuro que vamos pedir ás nossas possessões africanas.
Portugal não podia ficar estranho diante d'este movimento, porque ficava ameaçado na sua concorrencia com as nações estrangeiras, e d'ahi provém a necessidade de fazer tratados offensivos e, defensivos que tenham por base a separação do que é nosso do que é dos outros, e creio que é este o pensamento que presidiu ao tratado que estamos a discutir.
Para apreciar a maneira como este tratado foi conduzida em todas as suas phases, eu não tenho outros elementos alem dos que foram fornecidos pelo Livro branco ha pouco distribuido, e como commentario, na maneira de avaliar o procedimento do governo estrangeiro com quem negociámos, não tenho senão o habilissimo discurso pronunciado ha dois annos n'esta casa pelo sr. Barros Gomes, actual ministro dos negocios externos.
Ha dois annos, quando se discutia a resposta ao discurso da corôa que alludia á conferencia de Berlim, ainda então aberta, s. exa. fez aqui um notabilissimo discurso, memoravel pela erudição e polo saber, de que era relevante prova.
Volvidos dois annos, hoje, fui ler esse discurso com á attenção igual aquella com que então o ouvi, e se n'elle não encontrei de uma maneira clara e preceptiva o modo de tratar com as nações poderosas entretanto as censuras