SESSÃO N.º 60 DE 27 DE JUNHO DE 1893 5
lavradores não fizeram o tratamento preventivo era tempo com a calda bordeleza, e que por isso é que a doença se desenvolveu tão rapidamente.
Isto não é verdade tratamento foi applicado a tempo por muitos lavradores que eu conheço e muito antes da molestia apparecer, mas a intensidade da doença foi de tal ordem, que não foi possivel debellal-a. Este mal é de tal maneira que apenas começa a rebentar a vinha os lavradores applicam-lhe logo a calda bordeleza, e quando os rebentos crescem e se desenvolvem, se essa parte nova não recebeu a calda é logo destruida pelo mildew assim como o fructo.
Ora, ha todas as apprehensões ou quasi certeza de que o sulfato de cofre, que se importa, é falsificado com sulfato de ferro. Como a camara sabe, é lavrador não póde ter meios ao seu alcance para fazer as analyses que comprovem a boa qualidade do remedio empregado.
Só o governo o póde fazer, e é isso o que este projecto auctorisa.
É necessario obstar ás falsificações por todas as fórmas, porque senão os lavradores farão uma despeza perfeitamente inutil e estado não lucrará nada absolutamente com isso. A despeza que os lavradores têem feito este anno com o tratamento da vinha excedeu todas as suas previsões. Eu sei de um lavrador meu amigo que costumando gastar com o tratamento das suas vinhas em media 1:500 kilogrammas de sulfato de cobre e 4:500 kilogrammas de enxofre, este anno já gastou 3:700 kilogrammas de sulfato e 9:300 kilogrammas de enxofre. Para que tudo se chegasse, até o mau serviço do caminho de ferro veiu em auxilio da molestia, pois como disse já n'outro dia tendo um proprietario mandado ir uma remessa de sulfato de Lisboa para a estação de S. Mamede, do concelho de Obidos, cinco dias depois de ter saldo d'aqui ainda não tinha chegado ao seu destino, dando-se como rasão que durante, tres dias não houve carros de mercadorias.
Para isto é que o governo deve olhar, obrigando a companhia, sobre a qual tem fiscalisação, a fazer o serviço com regularidade.
Com a abundancia de vinho lucra extraordinariamente o paiz, porque os lavradores poderão pagar os impostos e lucra o caminho de ferro, porque tem augmento de receita em consequencia do transporte d'aquelle genero.
Alem' d'isto o estado ainda lucra com a abundancia d'este genero, porque, augmentando as receitas dos caminhos de ferro, o governo tem de pagar uma quantia menor por garantia de juros.
Eu já no outro dia disse que o governo tinha pago de garantia de juro á companhia real dos caminhos de ferro pela linha de Torres Vedras a Alfarellos e Figueira 50 e tantos contos de réis n'um semestre, o que faz cento e tantos contos de réis n'um anno. Ora, é evidente que, se aquelle caminho de ferro tiver vinhos para transportar, as suas receitas augmentam e o estado tem que lhe pagar menos.
Portanto parece-me que o sr. Abilio Lobo não tem rasão nas considerações que fez combatendo este projecto.
Se as propriedades não produzirem, não se podem exigir as contribuições aos lavradores, e o sr. Abilio Lobo bem vê que é com o producto das contribuições que o estado paga aos seus funccionarios.
Tenho aqui um numero do jornal, A Semana, que se publica em Torres Vedras, jornal que advoga os interesses da agricultura e que trata estes assumptos com toda a proficiencia.
A Semana é um dos jornaes mais bem redigidos da provincia e que se tem devotado a advogar os interesses d'aquella importante região, prestando-lhe valiosissimos serviços.
Este jornal cita tres freguezias a do Ramalhal a Dos Cunhados e a de S. Pedro da Cadeira, onde os vinhedos ficaram completamente destruidos, não podendo por isso
os lavradores pagar a contribuição e estando já alguns a reclamar perante o governo para serem isentos este anno do pagamento diz a Semana.
Ha vinhateiros que contavam com cincoenta e sessenta pipas pela mostra que as vinhas apresentavam e que de repente se vê reduzido a l e 2 almudes.
O governo não póde deixar de attender á reclamação d'estes proprietarios, porque elles não têem materia collectavel, e perderam ainda por cima toda a despeza que fizeram com o tratamento da vinha. Eu desejo ver como o sr. Abilio Lobo póde conciliar estes dois factos; o de uma parte do paiz não poder pagar impostos e o de se melhorar a situação dos empregados publicos.
A vista do que deixo dito, é claro, que succedera provavelmente que este projecto, em vez de dar augmento de despeza para o estado, dê um augmento de receita.
Ha mais de quinze dias tenho eu pedido quasi consecutivamente a presença do sr. ministro das obras publicas para tratar com s. exa. d'este assumpto. S. exa., porém, não tem vindo á camara antes da ordem do dia, e é este o motivo por que não tenho chamado a sua attenção para um assumpto que reputo de summa gravidade.
Agora mesmo devia este ministro estar presente, visto que este assumpto corre pela sua pasta.
Aproveito agora a occasião de estar em discussão este projecto para fazer estas considerações, apesar de s. exa. não estar presente, o que muito lamento.
Já outro dia o distincto parlamentar o sr. visconde de Chancelleiros, com a competencia que s. exa. tem sobre estes assumptos, chamou na camara dos pares a attenção do governo sobre as providencias que deviam ser tomadas para se combater os estragos da invasão do mildew. Entre as providencias que aquelle eximio estadista alvitrava, só vinha a isenção do direitos do sulfato de cobre e o governo facilitar analyses aos viticultores a miudo ludibriados por lhe venderem sulfato de cobre falsificado com sulfato de ferro. Tudo isto está attendido no projecto.
Termino, sr. presidente, applaudindo 'os srs. Marianno de Carvalho e Mattozo Santos por terem apresentado este projecto e o paiz applaudirá os meus collegas que o votarem, porque praticam um acto verdadeiramente patriotico. (Apoiados.}
Tenho dito.
O sr. Abilio Lobo: - Pedi novamente a palavra para responder apenas ás considerações que pessoalmente me foram dirigidas.
O meu antigo e muito estimado e presado amigo o sr. Teixeira de Vasconcellos disse que eu vinha defender aqui um interesse pessoal.
Com franqueza, eu não me acobardo diante d'esta accusação.
Effectivamente vim apresentar como argumento a triste situação de muitos funccionarios publicos, e, se d'aqui me póde advir algum beneficio, não o recusarei, pois que a elle tenho direito.
Mas, sr. presidente, se eu fosse mau, se na minha mente estivesse responder com a aggressão á aggressão, eu diria que o sr. relator está na mesma situação em que eu estou; diria que s. exa. tem no projecto um interesse pessoal, porque é um rico viticultor.
(Áparte do sr. Teixeira de Vasconcellos que não se ouviu.)
Pois se s. exa. defende uma questão de interesse geral, defendendo os interesses de uma classe, porque não defenderei eu um interesso geral, defendendo tambem os interesses de uma classe, opprimida por innumeros sacrificios, a classe dos funccionarios publicos?
Ha muitas freguezias, taes como as que o sr. Francisco Machado enumerou...
(Áparte do sr. Francisco Machado que não se ouviu.)
São freguezias onde o illustre deputado reina e gover-