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1132 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

Vozes: - Ponha-se o requerimento á votação.

O Orador: - Eu estou no uso da palavra...

Vozes: - Não se concede a palavra ao syndicateiro, ponha-se fóra, que não é digno de estar aqui.

O Orador: - Eu estou no uso da palavra que me foi concedida pelo sr. presidente...

Uma voz: - É o banqueiro ou o deputado que falla? (Susurro.)

O sr. Presidente: - Peço ordem.

Ha um requerimento de um sr. deputado para que eu convido o sr. condo de Burnay a retirar as palavras «incorrecção e deslealdade» que proferiu, e peço a s. exa. que as explique de modo que este incidente possa condir-se.

Vozes: - Retire as palavras que pronunciou, ou de contrario seja expulso.

O Orador: - Ia eu dizendo que me encontrava n'uma situação muito difficil para fallar n'esta camara. De um lado esta a maioria compacta, que defende os actos do governo até á ultima...

O sr. Oliveira Matos: - Eu protesto vehementemente contra essas palavras.

A maioria não defende o governo até á ultima, mas até onde a sua dignidade entende que deve ir.

Póde o sr. Moncada e outros srs. deputados d'esse lado da camara dizer o que quizerem, mas lembro-lhes que n'uma sessão do anno passado já aqui assisti a um espepectaculo mais triste do que este, de lavagem de roupa suja entro s. exas. e o sr. conde de Burnay.

O sr. Presidente: - V. exa. não tem a palavra.

O sr. Oliveira Matos: - Eu tinha a palavra antes do sr. conde de Burnay.

O Orador: - Então use d'ella.

Eu ía dizendo, sr. presidente, que me achava n'uma difficilissima situação para fallar n'esta camara, por isso que a maioria vae até onde entende que deve ir para sustentar o seu partido, e não tendo eu por outro, lado a meu favor a opposição, acho-me completamente isolado para sustentar qualquer questão que eu deseje tratar. Mas isto não me incommoda, estou costumado a viver isoladamente quando é preciso.

Confundiram completamente a intenção e o espirito da minha declaração. No começo d'esta sessão eu não discuti negocios, nem questões que prendessem de modo algum com finanças; discuti a questão de se publicar um contrato a respeito do qual havia um negociador, fosse elle quem fosse, que tinha abusado do seu mandato.
Tratava-se de saber se esse abuso se deu ou não, e se essa pessoa que se diz ter abusado é membro d'esta camara, seja quem for.

Eu não levantei a questão de finanças, mas sim a de saber se o governo tinha ou não confiado o mandato a alguem, o esse alguem o tinha trahido, e desde que houvesse um traidor, a camara tinha necessidade de saber se tinha havido um abuso e se esse abuso se dava por parte do um membro d'esta camara, tanto mais necessario era conhecei-o. Esta é a minha doutrina.

Quanto a v. exas. fallarem de homens de negocios e de insinuações para me ferirem, passam-me por cima da cabeça sem me tocar. Um dia ha de vir a publico se não quizerem que venha agora, e então hão de ver v. exas. que não houve negocios e que pelo contrario houve sacrificios.

Venham as provas que eu aqui estou pedindo. Eu invoco o sr. presidente do conselho de ministros e chefe do seu partido para que diga com quem o governo se tem encontrado nas dificuldades em que se tem visto.

Eu não quero levantar questões irritantes, mas entendo que cada um tem obrigação de defender a sua honra, e v. exas. não me deviam ter atacado por eu vir pedir explicações a respeito da accusação de eu ter abusado de um mandato que me deu o sr. ministro da fazenda, mas sim se eu me tivesse calado e ouvisse Com desprezo, ou mesmo com indifferença, uma certa accusação.

Uma voz: - Não é essa a questão.

O Orador: - O contrato de que se trata não é um contrato cuja publicação traga perigo para o governo. Não se trata da venda de titulos, nem por parte dos contratantes, nem do governo. Ê simplesmente um contrato de supprimento, como se tem feito tantos outros. Que inconveniente, pois, em se ver esse contrato? Eu vejo que a respeito do contrato sabe-se tanta cousa que vem para os jornaes, que melhor fôra saber-se o que o proprio contrato contém.

O sr. Presidente: - Peco licença para lhe observar que eu principiei por lhe pedir...

O Orador: - Eu já lá vou.

O sr. Presidente: - Antes de continuar peco-lhe que se explique. Ha um requerimento na mesa para que v. exa. retire as palavras que proferiu relativamente ao sr. ministro da fazenda, e eu espero que v. exa. me dispense de o pôr á votação.

O Orador: - Se o sr. ministro da fazenda, quando em uma das sessões passadas, em que eu não estive presente, tivesse respondido á pergunta que se lhe fazia claramente, se o mandatario d'esse contrato tinha ou não abusado das instrucções que recebera, tudo estaria acabado. Se s. exa. tivesse dito sim ou não, a questão estava sanada, eu não me teria offendido, e, por consequencia, não teria usado dos palavras que tanto offenderam a camara.

O sr. Presidente: - Eu interrompo novamente o illustre deputado pedindo-lhe que se explique.

O Orador: - Eu já lá chego.

O sr. Presidente: - Peço-lhe, pela terceira vez, que dê as explicações que a camara exige, que se cinja ao facto.

O Orador: - Que quer v. exa. que eu explique?

O sr. Presidente: - V. exa. perguntado? Pois então, sempre que eu o tenho interrompido, v. exa. diz que já lá chega, e agora pergunta-me o que é que eu quero que explique?

Eu repito, pela terceira vez: ha um requerimento na mesa para que eu o ponha á votação, a fim de v. exa. retirar as palavras seguintes: que o sr. ministro da fazenda procedeu para com v. exa. com incorrecção e deslealdade.

O Orador: - Se offendi a camara eu retiro o que a podesse ter offendido. Agora quanto aos factos eu não os posso alterar.

O sr. Presidente: - V. exa. dá como retiradas essas palavras?

O Orador: - Eu não disse palavras que podessem offender a camara, porque isso não está no meu espirito.

O sr. Eusebio Nunes: - Elle disse que retirava tudo.

O sr. Presidente: - Então póde v. exa. continuar, visto que retira essas palavras.

O Orador: - Eu não tinha tenção de trazer para aqui uma questão irritante, mas parece que houve desejo d'isso. Eu estava dizendo que não se tratava aqui de questões de negocio, que se tratava da fiel execução do mandatario e de saber se esse mandatario tinha abusado ou não dos poderes que o governo lhe tinha dado. Isso interessa á camara, tanto mais que esse mandatario é deputado da nação.

(Interrupções que não foram ouvidas.)

Os srs. deputados fazem muito mal em irritar a questão por essa fórma, porque se ou tivesse o genio exaltado de qualquer dos srs. deputados que tão violentamente me atacam, eu poderia dizer aqui cousas que de certo...

Vozes: - Diga, diga.

O sr. Oliveira Matos: - Pela minha parte póde dizer absolutamente tudo.

O Orador: - Eu tenho sessenta annos, e, apesar de ser novo n'esta camara, sei bem que nem tudo se póde dizer...