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1416 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

dando no mais curto espaço de tempo possivel proceder á sua construcção.
As Caldas da Rainha é a povoação mais importante das proximidades da capital e que está destinada a um largo futuro, quando se abra á circulação o caminho de ferro. Portanto, o governo deve attender ás suas justas necessidades, para que adquira o desenvolvimento a que tem direito.
As suas notabilissimas aguas, sem duvida as primeiras do paiz e talvez da peninsula, fazem com que ali concorra muita gente de todas as partes do paiz e do reino vizinho, e mal parece que se regateiem os melhoramentos concedidos a localidades de somenos importancia.
Breve vae abrir-se á circulação o caminho de ferro que atravessa áquella região, e os povos não poderão tirar vantagens d'este importante melhoramento sem que estejam ligados por meio de estradas com as diversas estações.
Hoje chegou pela primeira vez ás Caldas uma locomotiva; aquelle povo deve sentir um justo regosijo por tão importante melhoramento, e eu associo-me de boamente ás suas alegrias, que são legitimas e plenamente justificadas
O concelho de Obidos, importantissimo pela sua extensão e pela abundancia dos seus vinhos, acha se n'um atrazo lastimoso, havendo povoações que durante a maior parte do anno não podem communicar com as suas vizinhas, sendo de uma vergonha incrivel o que ali se vê.
O caminho de ferro, que tem n'este concelho tres estações, uma no Bombarral, uma em S. Mamede e outra em Obidos, não póde transportar os productos porque elles não podem lá chegar.
Os povos têem-se farto de representar, porém, é o mesmo que clamar no deserto; parece que se suppõe que aquella região hão é portugueza, ou que fica lá pura os confins da nossa provincia de Moçambique.
Ainda ha pouco recebi duas representações dos proprietarios, operarios e trabalhadores do Bombarral e povoações vizinhas, pedindo a conclusão das estradas n.ºs 82 e 82-A, que ha muito se acham em construcção.
Essas representações, dirigidas a Sua Magestade, foram entregues por mim ao illustre ministro das obras publicas que prometteu attendel-as, por as achar do toda a justiça.
Sua exa. presta com isso um grande serviço áquelles povos e sobretudo ao thesouro. Porque, quanto mais mercadorias o caminho de ferro tiver a transportar, menor será o subsidio que o governo tem de dar á companhia.
Hontem recebi outra representação que tenho aqui presente e que mostro á camara, contendo grande numero de assignaturas, muitas d'ellas das pessoas mais influentes d'aquellas localidades, e no mesmo sentido das anteriores.
Por aqui se vê o desejo ardente d'aquelles povos, em ver concluido um melhoramento para elles de summa vantagem.
A conclusão d'estas estradas, que ha muito se acham em construcção fará afluir á estação do caminho de ferro do Bombarral os povos dos concelhos da Lourinhã e Cadaval, que tambem representaram no mesmo sentido; e portanto eu cumpro o meu dever, pugnando pelos interesses dos povos que me elegeram para seu procurador. Não sei á certamente minha a culpa se não conseguir realisar os seus desejos. Hei de porém, demonstrar que cumpro o meu dever!
Ho concelho de Peniche não se falla.
Basta dizer que a villa de Peniche, uma das mais formosas do paiz e das mais populosas, não tem um unico caminho para de lá se poder saír.
Está o que se chama isolada do resto do paiz, porque não vae lá ninguem que não seja a isso obrigado poios seus deveres officiaes, quando, se tivesse uma estrada, seria immensamente frequentada na epocha dos banhos, por ter uma das melhores praias que conheço.
Ha mais de vinte annos que começou a construcção da estrada que ha de ligar Peniche com as Caldas que é a cabeça da comarca, porém com tanta morosidade têem andado os trabalhos, que ainda não chegou a meio.
Esta estrada serve uma quantidade grande de povoações, como Athouguia da Baleia, Coimbra, Serra d'El-Rei, Olho Marinho, Amoreira e outras, que utilisariam bastante com a sua conclusão e que suspiram por ella, como os povos suspiravam pela vinda do Messias.
Só quem passa por aquelles caminhos, como mais d'uma vez me tem acontecido, pode avaliar os precipios que ali se encontram.
Peniche é uma villa de 3:500 habitantes com industrias de bastante valor, como o peixe, rendas, etc., e productos, taes como, batata, vinho, etc., e não tem, como já disse, uma unica estrada que a ponha em communicação com o resto do paiz.
O peixe, que tem chegado a render 50:000$000 réis por anuo, é todo transportado a dorso de cavalgaduras, que percorrem caminhos por onde o gado caprino lhe custaria a andar.
Peniche dista 33 kilometros das Caldas; vão ali diariamente muitas pessoas para negocios da comarca, como jurados, membros de conselho de familia, testemunhas, etc., etc.
Mal se póde avaliar as enormes difficuldades que soffrem estes desgraçados para irem ás Caldas nalgumas epochas do anno.
Peniche não póde utilisar-se das vantagens do caminho de ferro porque não tem para elle accesso.
Como disse, vão diariamente ás Caldas muitas pessoas tratar negocios judiciaes.
Acontece, porém, que têem do irem muitas vezes de noite para lá chegarem a horas de comparecer no tribunal, e mais de uma vez tem succedido faltarem, porque se perdem logo á saída da villa, nas noites escuras, andando horas e horas, e quando apparecem os rubores da madrugada encontram-se ainda quasi no ponto de partida.
O caso, porém, mais notavel, é que os individuos que faltam pela circumstancia apontada, têem de pagar a multa, o que tem succedido repetidas vezes.
Os desgraçados habitantes d'esta villa têem assim de pagar faltas para que não contribuiram e que têem origem no desprezo com que os varios governos têem tratado esta localidade.
Ha tempos deu-se ali um caso, que corrobora bem o que deixo dito.
Na marcha de um destacamento de caçadores n.° 6 para aquella praça, ficou á retaguarda um soldado com licença do commandante da força.
Perdeu-se, e por mais que fizesse não póde encontrar o caminho.
O desgraçado andou para todos os lados, e cada vez se emaranhou mais no labirintho de medas de areia, até que as trevas da noite os vieram surprehender sem poder saír da posição verdadeiramente difficil em que se encontrava.
Perde a coragem, lamenta a sua desgraçada sorte, carrega a arma e põe termo á vida no meio do desespero o mais cruel, maldizendo a hora em que o arrancaram do seio de sua familia para servir a patria.
No sitio onde se encontrou o cadaver, mandaram os habitantes da villa collocar uma cruz, para attestar aos que por ali pagarem o triste fim de um desgraçado, victima da incuria dos governos do seu paiz.
Este caso tetrico, mas absolutamente verdadeiro, é uma vergonha para nós, e mal parece que uma villa importante, nas proximidades da capital, esteja nas mesmas condições que se estivesse situada no decerto de Sahara.
Ha pouco, foi áquella praça uma commissão de engenheiros, composta dos srs. Domingos Pinheiro Borges, actualmente par do reino, Firmino José da Costa, actual governador de Macau, e Theophilo José da Trindade; como chegassem de noite, e esta estivesse um pouco escura, perde-