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16 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

sua vida militar, tão curta, quanto gloriosa, morrendo em seguida a mortífero combate, onde uma explosão de polvora, deixando-o mal ferido, o victimou por ultimo no meio das mais atrozes e crueis dores, assim do corpo que soffria os effeitos do fogo, como do espirito que antevia o lucto da esposa ainda joven e a orphandade dos filhos, que ensaiavam os primeiros passos da vida.

É verdadeiramente lendario o que Manuel Barba de Menezes praticou; e são bastantes os echos que nos chegaram d'essas paragens longiquas memorando os seus feitos heroicos, para aquilatar o alto valor de seus serviços feitos á patria, o arrojo do seu animo, a dos preoccupação briosa o intrépida da sua alma.

Os documentos que vão juntos, subscriptos por pessoas qualificadas, ainda vivas, e testemunhas presenciaes da sua intrepidez; as folhas periodicas que se referiram a seus feitos arrojados, mostram evidentemente o que póde o genio portuguez quando só inspira no amor da patria, o quantas esperanças de um futuro grandioso feneceram com a morte extemporanea do valente mancebo, Manuel Barba de Menezes, que contando apenas vinte e quatro annos, procurava a cada passo alcançar os louros de uma gloriosa vida. A verdade d'esta asserção ficará patente quando façamos uma breve resenha, documentada devidamente, da sua vida como homem e como soldado.

Comecemos por vel-o no sen tirocinio. Comprehendendo na sua alta intelligencia as grandes responsabilidades que lhe advinham como marinheiro, na vida que ía encetar em occasião de tão limitados recursos maritimos, entrou n'ella com passo timido e incerto; porém, a breve trecho, inspirado no seu brio, caminhou desafogadamente.

Os documentos n.ºs 1 e 2, que assignam o commandante da canhoneira Tamega e o segundo tenente Guilherme de Ivens Ferraz, descrevem o homem do mar que era Manuel Barba de Menezes, na voz insinuante e bem timbrada, no modo imperativo com que dava ordens, sendo logo obedecido, nos conhecimentos que mostrava, na auctoridade que conquistara em tão verdes annos e na promptidão com que corria onde houvesse um perigo a affrontar, ou um dever a cumprir.

O tenente Guilherme de Ivens Ferraz expõe, como elle, sendo ainda aspirante e já immediato do vapor Auxiliar} entre diversas commissões que desempenhou, levou a cabo a empreza, na viagem de Angoche, por occasião da guerra do Parapato de auxiliar a expulsão dos indigenas, sem deixar, quando tinha ensejo, de se occupar no reconhecimento hydrographico doa canaes do rio Angoche, pelo que foi elogiado por seus superiores.

O tirocinio, porém, em breve findou para Manuel Barba de Menezes, que a 18 de julho de 1890 era despachado guarda marinha (documento n.° 3) e é então que se revela, no limite que a sua posição lhe marcava, a energica intrepidez da sua alma o arrojo temerario da sua natureza indomita o generosa.

O primeiro acto de bravura, pelo qual assignalou a sua carreira, e lhe mereceu o louvor que officialmente lhe foi dado, consta da ordem geral da armada n.º 16, de 31 de agosto de 1891 (documento n.° 4).

O governo de Tete preparara um carregamento de generos diversos, de importantes e quantiosos valores, o fazendo-o acompanhar de respeitavel força militar, seguir atravez das florestas, na margem direita do Zambeze, os caminhos Ínvios e pedregosos d´aquella parte da Africa,

Os aguerridos habitantes das ilhas abaixo de Lupata preparam-se para aproveitar a occasião em que a força militar que escoltava o carregamento, descansava da fadiga de um violento trajecto, para a assaltar com a differença de cem para um; e poderam apoderar-se do carregamento amarrando os soldados, que certamente, destinavam ao costumado sacrificio.

Procurou-se na esquadrilha do Zambeze um homem que podésse, pela sua coragem, supprir a falta dos meios de acção que, infelizmente, ha sempre nas nossas estancias militares da Africa.. É o gentio das ilhas abaixo do Lupata, tão avido, como numeroso e guerreiro. São aquellas margens do Zambeze apropriadas aos ardis e emboscadas do gentio, e, portanto, perigosas para a guerra, não fazendo conta dos ardores do sol e da insalubridade do clima.

O homem, porém, appareceu logo. Foi o guarda marinha Manuel Barbas de Menezes.
Preparou elle o vapor Cherim, companheiro fiel das suas glorias, rodeou se dos seus valentes marinheiros, em que contava em cada um amigo, e partiu. Como Cesar, tanto que chegou a sua lancha-canhoneira e desembarcou, ovou diante de seu arrojo as multidões de negros que pretendiam embargar-lhe a passagem, e, através das balas o dos obstaculos que oppõe sempre aquella natureza bravia e selvagem, castigou os rebeldes, bateu as povoações da ilha de Cambezeri. apprehendeu parte das mercadorias que tinham sido roubadas, libertou os soldados, que salvou da morte, e, mais uma vez, tornou respeitado e temido o nome portuguez.

A este feito, como de um echo que se ouve ao longe, se refere o Boletim official do governo geral da provincia de Moçambique, de 5 setembro de 1891, n.° 36. pag. 375. Não eram, porém, sómente os negros da Africa que deviam aquilatar o brio do guarda marinha Manuel Barbas de Menezes.

O seu animo, embora tivesse de affrontar a morte, não lhe permittia. para manter a dignidade do paiz, coutar o numero ou a qualidade dos adversarios. Foi trio bravo para os indigenas de Africa, como para os soldados e marinheiros de Inglaterra, apesar das suas naus alterosas e dos seus canhões raiados.

Mais de uma vez pretendeu elle sacrificar audaciosamente a vida, para conservar illesa a honra da bandeira portugueza.

De entre muitos citaremos apenas tres factos, que teriam merecido os mais altos e clamorosos louvores dos governos, se se houvessem dado com indigenas da
Africa, em logar de succederem com subditos da rainha de Inglaterra!

Referem-se áquelles actos heroicos os documentos n.ºs 6, 7 e 8, porque d'elles se occuparam não só os que os presencearam mas os jornaes da metropole; de que se juntam dois exemplares que, depois de grande lapso de tempo, se alcançaram, entre muitos que repetiram o que lhes foi noticiado.

Foi o caso que um vapor inglez denominado James Stephernson da companhia dos Lagos, passou no Chire a montante de Ruo, sem embargo das intimações que lhes foram feitas, para se verificar por parte das auctoridades portuguesas qual era a carga que transportava, pois que muitas vezes os fins das viagens de vapores d'esta qualidade eram, exclusivamente, de contrabando de polvora e outras munições do guerra.

Ficou-se o brio portuguez no desprezo que o capitão do vapor britannico votou ás ordens das auctoridades de uma nação pequena, que não podia hombrear arrogancias com um colosso temeroso, como era o da Gran-Bretanha, que eu faria de estar em toda a parte onde se acha a sua bandeira. D'aqui nasceu a idéa de esperar na passagem o vapor, quando voltasse e forçal-o á visita, e, no caso de recusa, tomal-o, ou mettel-o a pique, ou succumbir com honra. Era a empreza justa o gloriosa, mas eriçada de dificuldades pela resistencia certa e ainda tambem pelas dificuldades diplomaticas que d'ahi podiam vir para o governo, e, manifestamente, perigosa sob todos os pontos de vista para quem a executasse.

Dadas tão criticas circumstancias, foi o commandante do Cherim encarregado de castigar a orgulhosa altivez britannica.

Voltava, despreoccupado e a todo o vapor o navio inglez, a 10 de junho, descendo o Zambeze, quando ao lado d'elle surge o Cherim que pela voz do seu commandante