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SESSÃO N.° 64 DE 3 DE JULHO DE 1893 17

o obriga a parar, o antes que a sua tripulação viesse a accordo do quem a intimava a render-se, era abordado polo Cherim, tomado e aprisionado o sou commandante o marinhagem, seguindo esta debaixo de prisão e aquella sob o commando do glorioso e arrojado mancebo para o ancoradouro das aguas portuguezas. Este acto de energia e prudencia, como lhe chama o documento n.° 6, seria bastante, quando não fossem teto verdes os annos do quem o praticou, para illustrar uma longa, vida do mar.

Não foi, porém, só n'esta occasião que Manuel Barbas de Menezes teve que affrontar a arrogancia ingleza, para que não fosse deslustrado o nome portuguez.

O documento n.° 8 e diversas testemunhas oculares, contam o facto que passâmos a referir.

Como tem succedido repetidas vezes, em consequencia, da altivez nativa dos inglezes, deram-se graves conflictos entre umas canhoneiras inglezas e soldados indigenas.

O commandante do Cherim correu, ao sabel-o, a João Macanga, na costa oriental da Africa; mas encontrando restabelecida a ordem, e depois do recebidos os comprimentos devidos dos navios de guerra inglezes, notou que, estes, fundeados á terra, podiam ser causa de novos conflictos. Intimou-os, por isso, depois de o pedir debalde, que se fizessem ao largo.

Não sendo attendido pela segunda vez, preparou os seus meios de guerra, e avançou sobro as canhoneiras, do morrões accesos, certo da morte que o esperava, mas contente por se sacrificar ao dever pela honra do paiz.

A grandeza da sua audacia vencer o orgulho da resistencia.

O commandante-chefe das canhoneiras fez signal de querer vir á falla, e veiu a bordo do pequeno vapor significar ao glorioso mancebo que obedecia ás suas intimações, e pouco depois as canhoneiras seguiam para o largo, fundeando só o balouçando-se nas aguas portuguezas, o vapor Cherim, honrado e soberbo como deviam sel-o os galeões doa antigos navegadores.

O documento n.º 7 relata ainda um terceiro acto de coragem praticado pelo guarda marinha commandante da Cherim, a que se refere tambem o documento n.° 6.

Tendo o governador do Chire partido para o Malolo o Matepures, deu instrucções ao guarda marinha Manuel Barbas do Menezes para que evitasse o contrabando de guerra que se fazia na margem direita do Chire, em território portuguez não contestado.

Era necessario estabelecer abaixo da confluencia do Chire com o Ruo, na margem direita d'aquelle rio, um ponto estrategico de fiscalisação, de onde podésse vigiar-se com segurança a passagem dos flibusteiros, que se entregavam a um commercio illegal.

Não tardou, por isso, o energico mancebo em, edificar uma pequena villa n'aquelle ponto do nosso territorio, arvorando com todas as honras a bandeira portugueza.

O contrabando vigiado com rigor, viu frustrados todos os seus avidos intentos de lucro, levando perante o consul Buchanan amargas e repetidas queixas.

Originou o facto um protesto vehemente do cônsul britannico o unia incursão de gente armada no local da nova villa.

Ao primeiro rebate do ataque correu o guarda marinha seguido apenas de cem sipaes, e tal foi o sou valor e prudente energia que logo desalojou do territorio os invasores, forçando-os a vergonhosa fuga, e mantendo com brio o dominio portuguez, onde arvorará a gloriosa bandeira das quinas.
Poderiamos alargar mais a narrativa de factos analogos que na vida d'este heroico mancebo se prendem do dia a dia, e quasi de hora a hora, porque n'elle o desejo de gloria, e o amor do sou paiz era como que um phrenesi que não lhe deixava medir os perigos nem temer a morte, que a cada passo affrontava impavido, Os insuspeitos documentos que se juntam, claramente provam quanto é verdadeira esta asserção.

Era quasi impossivel que a fortuna, acompanhasse sempre tanto desprendimento pela vida, durante dois annos de luctas constantes sob um ceu torrido e sempre no meio de um ar pestifero e insalubre.

Começou de sentir-se a sua robusta natureza, mas nunca fraquejou o seu grande espirito.

Foi assim que, apesar de se adiar proximo o termo da sua estação do Africa, e de o alancearem as saudosas lembranças da mulher e dos filhos que deixara em Portugal, apenas soube que se preparava uma expedição, trocou com o governador de Quelimane que pretendia dar-lhe um cominando menos arriscado, repelidas communicações até que conseguiu manter-se como commandante dos vapores Cherim e Granada que se destinavam, a vigiar e proteger o enorme comboio do lanchas, escalores e almadias que devia seguir pelo Zambeze, cooperando na campanha contra bongas, bitongas, bainistas em ataque das aringas do Mutanda o Mafunda.

Era a lucta que se preparava (documento n.º 9) aspera e perigosa; e como Azevedo Coutiuho que commandava a expedição, promettêra ás pessoas que no interessavam por Manuel Barbas de Menezes, evitar-lhe as occasiões que procurava sempre o seu temerario arrojo, embora o não chamasse o dever militar, mas a que o impellia a sua natureza heroica e destemida, diligenciou para cumprir o que promettêra, desvial-o dos perigos a que a honra do soldado o não chamava.

Foi inutil o esforço, e tão cedo lho soava dos ouvidos o estrondo do combate, como se lançava no meio dos perigos, indifferente ás balas e á morte.

Ouçâmos o commandante da expedição no relatorio dirigido ao governador geral do Moçambique (documento n.°8):

«Como o Cherin era bem conhecido cm todo o Chire e em todo o Zambeze, e presentemente u sou commandante era respeitado por todos, e isto porque o Cherim, no tempo em que Manuel Barbas de Menezes o commandava não poucas vezes abriu o seu caminho através do fogo inimigo, inflingindo-lhes grossas perdas... estava descansado... que Menezes não seria atacado, e assim nada teria eu a receiar pela sua vida, que elle sempre jogava com o maior desapego.»

«O sangue, porém, (documento anterior) fervia-lhe nas veias, e eu, dizendo-lhe sempre que fizesse o que entendesse, tendo-lhe dado mesmo duas folhas de papel em branco e apenas assignadas por mim, a fim de que elle as enchesse com as instrucções que melhor lhe conviessem, procurava assim evitar, por lhe conhecer bem o genio, que elle tomasse parto activa ha refrega imminente. Ainda na vespera elle me escrevia um bilhete (cita o documento n.º 20, adjunto ao sou relatorio) em que bom mostrava qual a sua impaciencia pelo combate, e que estava possuido do despeito por eu lhe não dar ordem positiva para atacar. Pelo contrario tinha-lhe eu arrancado a promessa de que não seria o primeiro a atacar o inimigo.»

Citaremos ainda uma vez o relatorio de Azevedo Coutinho, ainda que bastava o que fica dito para se aquilatar a valentia de Manuel Barbas de Menezes.

Ouçâmos o que diz o commandante a pag. 7 do relatorio (documento n.° 9).

«Voltava para animar as forças embuscadas no mato... appareceu-me, Barbos de Menezes, afogueado, seguido de perto por duas praças de marinhagem... fogueiros brancos e soldados... Disse-me: venho sem sua licença, mas agora que aqui estou, não me mande embora. Estava-me a ferver o sangue o já sei que isto está por pouco... Á sua chegada proximo da aringa, foi extraordinario do vigor n'aquelle bando do homens com o seu commandante á frente, e rompeu até uns 200 metros da aringa e ali fez vivissimo fogo ao inimigo.»