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SESSÃO DE 14 DE ABRIL DE 1888 1063

Refiro-me á reconciliação pessoal que acaba de ter logar, perante nós, entre os srs. Marianno de Carvalho e Pinheiro Chagas, então dois homens, que representam, cada um no seu partido, não simplesmente dois dos mais vigorosos o brilhantes talentos, (Apoiados geraes.) mas mais do que isto, e, acima do tudo, os dois batalhadores de mais variados recursos o de mais nervo da politica portugueza. (Muitos apoiados.)

Eu, sr. presidente, tive com isso muita consolação, por que n'este exemplo, que acaba de sei dado perante nós, vi quanto realmente são estereis e passageiros os sentimentos de animadversão, que ás vezes nos animam, e como no fundo de nossos corações de meridionaes ha uma cousa que sobreleva a todas as impressões de momento, as impressões da mocidade, d'aquelle tempo de oiro, em que sem competencias nem rivalidades, olhâmos todos para a vida como para um horisonte sem limites, aberto aos commettimentos da actividade e do espirito do cada um. (Muitos apoiados - Vozes: - Muito bem )

E eu recebi aqui um ensinamento agradavel, que poderá ainda fazer com que a minha palavra não seja por vezes tão violenta, tão acerba e tão áspera como porventura o tem sido. (Vozes: - Muito bem).

Dito isto, e tendo eu pedido a palavra para outro motivo, vou expor o assumpto para que a pedi.

É para pedir ao sr. ministro da fazenda que se digne communicar ao seu collega das obras publicas, que eu desejaria que s. exa., logo que lho seja possivel, comparecesse aqui a fim de conversarmos acerca da directriz do caminho de ferro, que deve ligar a provincia do Minho com a de Traz os Montes, e as regiões de Braga e Guimarães, com a região de Chaves.

O sr. Ministro da Fazenda (Marianno de Carvalho (muito commovido): - Agradece as expressões amaveis que o illustre deputado lhe dirigiu; e assegura-lhe que sempre o magoou profundamente a interrupção das suas relações pessoas com o sr. Pinheiro Chagas, seu amigo de infancia. Folga extremamente de poder apertar-lhe a mão ainda uma vez e pedir-lhe que o conto no numero dos seus amigos.

Vozes: - Muito bem, muito bem.
(O discurso será publicado quando s. exa. o restituir.)

O sr. Almeida e Brito: - Mando para a mesa uma representado da real associação central de agricultura, reclamando contra uma representação que os donos das fabricas de moagens apresentaram n'esta camara.

Peço a v. exa. que consulte a camara sobre se permitte que esta representação seja publicada no Diario do governo.

Assim se resolveu.

ORDEM DO DIA

Continuação da discussão do projecto de lei n.º 23, estabelecendo a "régie" para o fabrico dos tabacos

O sr. Ministro da Fazenda (Marianno do Carvalho): - Antes de entrar na defeza do projecto, e ainda visivelmente impressionado, diz: Voltemos á campanha. Acabaram as commoções agradaveis; vamos á lucta, e seja ella boa para todos, como lucta nobre e leal, em que cada um defende os seus principios e as suas convicções, sem abandonar um momento o estandarte politico em volta do qual se acha alistado. (Vozes: - Muito bem).

Explica em seguida o motivo por que ha mais tempo não pediu a palavra para entrar n'este debate. Foi porque a opposição o tratou tão bem, que elle, orador, não viu necessidade de defender-se.
Os illustres deputados atacavam, é certo, o projecto, mas esse estava sendo habilmente defendido pelo sr. relator e por outros oradores da maioria. Hontem, porém, o sr. Franco Castello Branco, deixando de considerar o sr. presidente do conselho como um tyrano feroz para com elle, orador, provocára-o a usar da palavra, dirigindo-lhe algumas perguntas a que lhe cumpria responder.
Começando por declarar que é boato sem fundamento a intervenção de alguem, estranho ao parlamento, n'esta questão, entra depois na apreciação das considerações feitas pelo mesmo sr. deputado, a quem responde largamente.
(O discurso será publicado em appendice a esta sessão logo que sejam restituidas as notas tachygraphicas )

O sr. Carrilho: - Por parte da commissão de fazenda, tenho a declarar ao sr. José Castello Branco que o projecto do sr. ministro da guerra, acerca da reforma do Serviço de saude do exercito, e a que o illustre deputado se referiu na sessão de hontem, ainda não foi sujeito ao exame d'aquella commissão.

O sr. Santos Crespo: - Requeiro a v. exa. que consulte a camara sobre se entende que deve ser prorogada a sessão até se votar o projecto que está sendo discutido.
Assim se resolveu.

O sr. Dias Ferreira (sobre a ordem): - Começo por ler a minha moção de ordem.
(Leu.)

Sei perfeitamente que a camara está cansada da discussão do projecto sobre o tabaco; e importante tem sido realmente o debate, já pela qualidade dos oradores que n'elle têem tomado parte, já pela largueza e profundidade com que tem sido tratada a questão.

Resolvida, como está, a camara a votar hoje mesmo este projecto, todas as considerações sobre a materia serão inuteis.

Mas eu, sem poder aliás emancipar-me absolutamente d'esta atmosphera, o limitando por isso as minhas observações, não hei de deixar encerrar o debate sem accentuar mais uma vez as minhas opiniões a respeito da liberdade do tabaco.

Ouvi com a mais desvelada attenção as ponderações do sr. ministro da fazenda, que acaba de fallar. Instruiram-me algumas e deleitaram-me outras; mas não ouvi uma só que servisse de justificação ao projecto.

Não esqueceram ao sr. ministro da fazenda, a proposito d'esta discussão, nem as suas digressões a Vigo, nem os seus passeios de carruagem com o sr. presidente do conselho, nem os brinquedos de creanças, (Riso) talvez para introduzir uma nota alegre no meio da monotonia de uma discussão parlamentar, tão arida e secca, como é a questão dos tabacos.

Mas o discurso do sr. ministro da fazenda, tão elevado, tão edificante, e, debaixo de muitos pontos de vista, tão gracioso, não póde varrer do meu espirito a impressão dolorosa e triste de que por este projecto pretende o governo pôr de sua conta, mas á custa do contribuinte, um estabelecimento commercial de tabacos, e gastar ao paiz mais 7.200:000$000 réis. (Apoiados.)

Eu já sabia que o sr. ministro da fazenda tinha ido a Vigo por mar, passeio que lhe não invejo, porque sou incapaz de embarcar. (Riso.)

As desharmonias entro o sr. ministro da fazenda e o sr. presidente do conselho, que a opposição regeneradora tanto lamenta, ainda são a unica garantia de que os interesses publicos não sejam de todo rapidamente compromettidos.

Só todos os ministros estivessem logo de accordo com os projectos que a phantasia de cada um a toda a hora invente, aonde estariamos nós hoje. (Riso. - Apoiados.)

É uma grande fortuna para o paiz que os srs. ministros vivam em lucta constante a respeito dos seus projectos, visto que nenhum se lembra de medida, que não seja em detrimento dos interesses publicos, e porque com nenhum outro elemento da garantia póde a nação contar n'este momento!

Tambem deve estar satisfeita aquella parte da opposição extra-parlamentar que todos os dias lamentava, que se perdessem em esforços rhetoricos as discussões parlamentares