10 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
serio da actos inauditos que commetteram as administrações que nos levaram ao ponto em que estamos. Não renego nada do que disse; e tanto quanto posso tenho-o affirmado nas cadeiras do poder, onde entrei por simples acaso e contra minha vontade.
Mas não vale a pena tratar esta questão pessoal. Estou aqui, fosse qual fosse o motivo e a causa, e o que peço é que me julguem pelos meus actos, e sobretudo que do meu passado, como orador n'esta camara, nos comicios, ou nas conferencias, se tirem as illações logicas. Peço isso o nada mais.
Não me offuscam talentos, estimo que a minha terra esteja cheia d'elles; nunca procurei elevar-me, calcando aos pés caracteres, valores, dotes, trabalhos dos outros; e portanto desejaria que se procedesse da mesma fórma para commigo.
Mas como estamos na discussão da especialidade do projecto é util que eu conte a s. exa. e á camara os factos que se deram na commissão de fazenda (Apoiados.), ácerca da classificação das terras que apparece no mesmo projecto. (Apoiados.)
Dizia alguem, não sei quem, que o homem publico devia viver n'uma casa cujas paredes fossem de vidro, para que todos podessem ver bem os seus actos. Não sei até que ponto devessem ser transparentes as paredes d'essa casa, o que affirmo, é que era conveniente que fossem de vidro as paredes das salas em que trabalham as commissões parlamentares para que se visse o que ali se passa.
Quando se apresentou este projecto na commissão e se chegou á classificação das terras, eu disse: que me parecia que o Porto devia ser classificado como terra de 1.ª classe, e passarem da 4.ª para a, 3.ª classe as freguezias annexas; e que, com relação a Lisboa continuaria na 1.ª classe, e as freguezias annexas, em 2.ª classe como actualmente estão; mas n'esse momento, alguem lembrou que importantes ramos industriaes do Porto, tinham os seus armazens em Villa Nova de Gaia, e em virtude d'essa lembrança votou-se por aquella fórma. (Apoiados.)
Entrou-se na discussão das classes, discutindo-se a tabella A, a tabella B, 1.ª, 2.ª, 3.ª, 4.ª, 5.ª e 6.ª classes, e quando ía começar a discussão da 7.ª alguem da commissão fez uma proposta, que não escreveu, renovando a questão da classificação do Porto. Eu respondi que me parecia singular intercalar-se tal proposta entre a 6.ª e a 7.ª classe, mas que estava prompto a discutil-a, como sempre prompto estive a discutir na commissão. Nada se resolveu n'esse dia e quando, mais tarde, essa proposta, que não foi escripta, veiu á discussão e só considerou a primeira votação como simples ad referendum, o que era natural, propuz eu que, como excepção, se concedesse o bonus de 12 por cento. N'esse momento levantaram-se duvidas por parte de alguns membros da commissão, e foi acceita esta proposta, votando esses simplesmente com declarações, dizendo até: «É melhor transigir para tudo isto ir de accordo». A cuja observação eu dei a seguinte testual resposta: «Não estou convencido com os argumentos de v. exas., mas o convite é de tal fórma delicado que eu accedo a passar de 12 a 15 por cento o bonus indicado.»
Esta é a historia exacta, a verdade do que se passou na commissão de fazenda. (Apoiados.)
O sr. Adolpho Pimentel: - Quem combatia era eu e o sr. Correia de Barros. Acceitámos depois essa emenda do sr. Ressano Garcia.
O sr. Ressano Garcia: - Se s. exa. falla no meu nome tenha a bondade de fallar alto para que se ouça.
O sr. Adolpho Pimentel: - Eu não digo uma cousa para um lado que não possa dizer para todos.
O Orador: - Estes são os factos, e tenha s. exa. a certeza que lh'os garanto com a minha declaração formal, e por elles póde ver que tem de casa quem lhe possa explicar os motivos do que se deliberou.
O sr. Ressano Garcia: - O sr. Correia de Barros já explicou como as cousas se passaram, v. exa. não estava presente.
O Orador: - O sr. Correia de Barros podia explicar como quizesse, mas havia de dizer o mesmo que eu acabo de dizer, que é a verdade.
Tenho procurado, com toda a prudencia, encaminhar, pela minha parte e na esphera modesta em que eu entendo que se deve manter quem occupa este logar perante a camara e perante o paiz, esta questão, para ajudar todas as resoluções que protejam classes e não individuos, de fórma a satisfazer principios de administração e não interesses eleitoraes.
E não quero pela minha parte transigir com interesses eleitoraes, porque entendo que, o que tem desgraçado o paiz é a politica eleitoral em que elle tem vivido ha uns poucos de annos.
Sr. presidente, accusam-me de promover a guerra entre classes! N'esse caso o que se poderá dizer do sr. Mourão, deputado por Villa Nova de Gaia? Felizmente para elle, e com grande prazer meu, s. exa. é um homem rico, cercado de 3:000 ou de 4:000 operarios, todos os quaes se filiam na industria da tanoaria.
O sr. Leopoldo Mourão: - Não tenho tanoarias.
O Orador: - Constava-me que o sr. Mourão era rico.
Uma voz: - E muito.
O Orador: - Constava-me que vive n'um concelho onde ha 3:000 operarios tanoeiros, que se não trabalham para as fabricas de s. exa., não deixam de ser operarios tanoeiros, e que s. exa. gosa fama de possuir grossos capitães
O sr. Leopoldo Mourão: - Tambem os espalho quanto posso.
O Orador: - Faz o seu dever.
Este cavalheiro cumpre o preceito do Evangelho: dá com a mão direita tudo quanto póde sem que o saiba a mão esquerda.
Não quer s. exa. que se diga que a classe dos tanoeiros é desgraçada; pois eu queria que a Providencia, só por seis mezes, fizesse de s. exa. um tanoeiro.
(Riso.)
E creia s. exa. que o imposto que se cobra integralmente é o de consumo que recáe sobre as classes mais pobres, emquanto que o imposto predial não rende mais de 3:500 contos de réis, quando a materia collectavel é superior a 50:000 contos de réis.
Vozes: - Venha o projecto d'essa contribuição.
O Orador: - Não se agastem. Eu vejo-me obrigado a não continuar, porque se o que eu digo está produzindo irritação nos meus caros amigos, dá-se o perigo de congesstão, (Riso) e perda de argumentos que depois poderiam apresentar.
Mas, continuando n'esta ordem de reflexões, direi que, n'um paiz em que a industria paga o que paga entre nós, póde-se dizer estas cousas, mas tome-se a responsabilidade completa do que se diz. (Apoiados.)
Disse-se que eu havia de levar a minha lição das massas operarias ás quaes procuro prestar serviços.
Não levo; e não levo por uma rasão, porque com ellas não effectuo convenios, nem lhes faço propostas vantajosas a fim de lhes conquistar os seus votos. (Apoiados.)
Leva-a quem com ellas faz convenios e combinações para lhes conquistar a sua força (Apoiados.); mas eu não procuro de fórma nenhuma conquistar nem a força eleitoral nem a força social d'essa classe, e faço esta declaração ao parlamento sem ter o menor receio de que alguem me contradiga.
Tenho feito pequenissimos serviços ás classes operarias, mas nunca, nem a um operario, nem a qualquer collectividade, classe, ou corporação pedi o menor serviço.
Procedo assim porque eu trabalho em nome dos immortaes principios que s. exa. costumam tantas vezes ironicamente invocar, não desgostando de se cobrirem com elles nas occasiões perigosas; procedo assim porque reconheço a