955 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
o seu logar o de tomar algumas notas para me responder. Tal é a força de consciencia do nobre ministro, tal é a convicção que o assoberba das suas habilidades parlamentares, que se esquece até do que significa no governo a pessoa do seu presidente, que é a quem compete responder no assumpto de que me estou occupando.
Perguntava eu ao governo, que vejo agora personificado no illustre presidente do conselho, se ha ou não crise ministerial.
Consta que dois dos illustres ministros pediram ou deram a sua demissão. Um d'elle, o illustre ministro da justiça, que não esperavamos ter já o gosto de ver entrar n'esta casa depois de ter sido licenciado por dois mezes, em virtude dos seus padecimentos, appareceu aqui de novo como meteoro brilhante, para desapparecer uma hora depois.
Segundo consta, o sr. Pequito já solicitou e obteve do rei a sua exoneração.
Não era porém contra esse que parecia ter-se levantado uma tal ou qual excitação da parte de alguem. Julgava eu, e julgavam muitos, que outra era a victima destinada aos primeiros sacrifícios. O sr. conde de Samodães consta que reagiu, ou que declinara as honras de ensinar o caminho ou abrir a porta da rua aos seus collegas. O sr. Pequito teve de acceder ás amaveis imposições dos seus collegas e á pressão de todos os meios empregados contra elle, e saiu. O sr. ministro da justiça foi sacrificado a uma palavra mais sincera do que mal intencionada (apoiados). Á sua phrase poderá ter sido inconveniente, mas não fóra, creio eu, mal intencionada, porque eu faço justiça ao nobre ex-ministro, se ministro já não é. O sr. Pequito era incapaz de vir aqui lançar insinuações desairosas a um antigo partido de que se póde ser adversario, mas que não é licito deshonrar. Se assim fóra, s. exa. iria lançar insinuações tremendas e feios aggravos sobre alguns collegas seus no ministerio e sobre varios membros da maioria e amigos políticos de hoje, os quaes militaram sempre nas fileiras do partido conservador.
O sr. Pequito porém, conscio de que não tinha offendido ninguem, depois de ter restabelecido a sua saude, e acabada a sua licença, apresentou se-nos, ha tres ou quatro dias, aqui, e a camara parece te-lo recebido com alegria de mais, que quasi degenerou em hilaridade. Creio que o nobre ministro ou ex-ministro interpretou a principio estas alegres manifestações como filhas do síncero prazer e intima satisfação por o vermos livre das suas febres, e restaurado na sua cadeira de ministro.
Perdeu infelizmente esta illusão, quando pelas intimações da imprensa ministerial, e pelos empurrões pouco cortezes dos seus collegas, conheceu que o motivo da hilaridade era a admiração e a estranheza, por s. exa. ter tido a innocencia de voltar a sentar-se nos conselhos da corôa. Eu conto estes factos, eu faço estas apreciações, porque na vida constitucional de um povo, dão-se certos peripecias que necessitam ser de todos conhecidas.
Permitta-me pois a camara que alluda a boatos que circulam de boca em boca, e que a nossa desgraçada situação pede que sejam commentados ou esclarecidos.
O nobre ministro da justiça saiu do ministerio, maltratado, segundo consta, pelos seus collegas. Empurraram-no (apoiados). Foi mais uma prova da solidariedade ministerial (apoiados). Quizeram convencer o sr. Pequito da sua impopularidade aquelles, que eram mais impopulares do que elle. Dizem que foi curiosa e acalorada a discussão sobre primazias de popularidade (riso).
Distinguiu-se n'estes pugilatos de modestia e bom senso o sr. Calheiros que tem a justa pretensão de ser o membro mais popular do gabinete.
O certo é que o nobre ministro da justiça, voltando a si, e apreciando, como lh'o pedia a dignidade propria, as scenas deploraveis ou ridículas, que presenciára, resolveu fazer a vontade aos seus solidarios companheiros, para lhes não causar embaraços. Aqui está a historia, que se conta, d'esta curiosa demissão.
O sr. ministro da fazenda, que já se tinha despedido ha dias dos seus empregados, em vez de ganhar a porta da rua de braço dado com o seu collega da justiça, narra-se que se escapara de novo para a sua secretaria, não se sabe se para ir buscar a caixa do rapé ou algum lenço de assoar que lhe esqueceu (riso). Consta só que voltou lá.
É edificante para o systema constitucional esta singela exposição.
É verdade que hoje, depois de entrar n'esta casa, ouvi dizer que o sr. ministro da fazenda tinha tambem pedido e obtido a sua demissão, depois de se ter convencido, não sem grandes esforços da parte dos seus collegas, que era finalmente pouco popular, na phrase benevola do sr. ministro das obras publicas.
O sr. ministro das obras publicas foi quem lhe fez ver, que elle era talvez o menos popular de todos os collegas, porque no ministerio não havia senão dois homens verdadeiramente populares - o sr. Calheiros e o sr. bispo de Vizeu. O sr. Calheiros que já foi meu amigo, e que não sei se ainda o é, passou a ser o homem mais popular d'este paiz. Felicito-o por este novo grau de esplendor e prosperidade.
(Interrupção do sr. ministro das obras publicas.)
Eu pela minha parte continuo a ser amigo do nobre ministro; mas ás vezes estas dissensões politicas produzem uma certa irritação, e eu não sei até que ponto chega o incommodo nervoso de s. exa.
O sr. José de Moraes: - Não ha nenhum (riso).
O Orador: - Todas estas peripecias vão ser naturalmente esclarecidas e explicadas com a maior promptidão pelo nobre ministro das obras publicas. Confio tambem que o nobre presidente do conselho ha de responder-me, sobretudo na parte que lhe diz respeito, porque é a s. exa. a quem compete dizer, se ha ou não crise ministerial; se o ministerio está resolvido a dar a demissão; se está decidido a recompor-se ou a ficar funccionando só com quatro membros. N'esta ultima hypothese é preciso tambem saber, quaes os ministros que vão tomar interinamente conto das pastas vagas, que foram depositadas n'aquella banqueta, se o foram; e sobretudo, qual é dos quatro ministros que ficam para resolver a crise, aquelle que vae encarregar-se da pasto da fazenda. Será outra vez o sr. Calheiros?? S. exa. é de certo o mais competente dos quatro, porque nos consta que, quando esteve interinamente gerindo aquella pasta, afirmara o illustre financeiro que era um engano completo o suppor-se que a pasto da fazenda era a mais difficil de reger; sendo, pelo contrario, a mais facil de sobraçar. Parece que o sr. Calheiros apenas tinha encontrado uma novidade: fóra a existencia da divida fluctuante com diversos typos, de 6, 61/2 e 7 por cento, etc.; que nunca poderá saber similhante cousa emquanto ali esteve o sr. Carlos Bento, o qual nunca quizera descobrir este segredo aos seus collegas (riso). Quanto ao mais, a gerencia da fazenda era peso ligeiro para os hombros do illustre ministro, por que se cifrava em questões de contabilidade, que os directores preparavam e o ministro assignava.
Se isto é assim, eu peço ao nobre presidente do conselho que, se por acaso tem de encarregar alguem interinamente da pasta da fazenda, se não esqueça do sr. Calheiros, que já deu provas de que aquella cruz lhe não era pesada.
Espero, por ultimo, que o nobre presidente do conselho nos diga, se effectivamente havemos de discutir ou não o orçamento durante esta prorogação de vinte dias; e bem assim as medidas tributarias radicaes, que se inculcaram como salvadoras da grande crise nacional.
A camara precisa ser esclarecida sobre este ponto. Nós não podemos continuar n'este systema de apathia e indifferença em que o parlamento ha tanto tempo se tem conservado. Isto abate as instituições, e é um tristissimo acontecimento, que o paiz não póde deixar de olhar com maus olhos (apoiados).
Eu pela minha parte, como membro da opposição, de-