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SESSÃO DE 25 DE ABRIL DE 1888 1229

tros até o recinto legislativo. Mas, sem insistir mais por agora n'este ponto, que é melindroso, continuarei no exame a queria procedendo da situação da fazenda no exercicio de 1885-1886.»
Esta asseveração feita por um deputado, hoje membro do governo, de que o industrialiamo tinha já invadido os gabinetes dos ministros e o recinto das camaras, e de que; por ser melindroso o negocio, não insistia agora n'este ponto, não é menos forte, nem menos significativa, do que a campanha de insinuações feita na imprensa periodica.
Estou lendo muito de proposito os trechos do discurso de um dos srs. ministros, que, antes de o ser, já dizia, a proposito d'esta questão, que o industrialismo tinha invadido as camaras dos ministros e até o recinto do corpo legislativo, e que acrescentava que não era mais explicito, por ser melindroso o assumpto.
Estas noticias que tinha, pelo menos, um dos ministros, de invasão do industrialismo nos gabinetes dos ministerios e não recinto das camaras, mais lhes augmentava o dever de procederem tão correctamente na execução da lei, que evitassem toda a occasião de suspeitas. (Apoiados.)
Eu não applaudo este systema de insinuações. Desde que não ha melindre para levantar uma insinuação que póde ser affrontosa, não deve haver escrupulo em seguir o facto até final.
Em todo o caso, desde que se achava nos conselhos da corôa quem tal conceito formava das circumstancias da proposta, quem via já o industrialismo invadindo o gabinete dos ministros e o recinto do poder legislativo, (Apoiados.) não póde surprehender se com a campanha depois instaurada na imprensa sobre este gravissimo assumpto.
Não affirmo nem nego a proposição do sr. Barro s Gomes, de que já então o industrialismo invadia os gabinetes dos ministros e o recinto das camaras legislativas.
0 que assevero é que o sr. Barros Gomos era incapaz de levantar tão affrontosa insinuação no exercicio das suas funcções parlamentares, se não estivesse profundamente convencido do que dizia a verdade, e que portanto lhe corria o dever de, com os seus collegas, proceder por fórma a não levantarem suspeitas de praticarem actos menos regulares a proposito de tão momentoso assumpto. (Apoiados.)
É muito interessante este discurso do actual sr. ministro dos negocios estrangeiros. Contém declarações preciosas para o assumpto que se debate, e explica o mais claramente possivel a paternidade d'esta obra monumental.
O auctor de todo o trabalho, o auctor da proposta depois convertida na lei de 16 de julho de 1885, é um benemerito progressista, a quem duas vezes o sr. Barcos Gomes teve o cuidado, de declarar seu correligionario.
D'esse homem dizia o actual sr. ministro dos negocios estrangeiros:
«Felizmente que se encontrou alguem mais feliz do que aquelle ex-ministro, alcançando o que elle não logrou levar por diante.
«O que não póde conseguir do sr. Fontes e dos seus collegas o meu antigo amigo e mestre, (referia-se ao sr. Antonio Augusto de Aguiar) respeitado por todos pelas qualidades que o ornam, obteve-o facilmente das boas graças do sr. presidente do conselho o digno par do reino o meu correligionario, politico o sr. Mendonça Cortez. Em verdade, a approximação d'estes dois cavalheiros foi fecunda e extraordinaramente feliz, e tão feliz mesmo que s. exa., o homem por todos considerado como occupando a primeira posição politica n'este paiz, carregado de serviços, parlamentar distincto, e tendo não só gerido os negocios publicos, mas presidido ás situações; homem em quem todos nós respeitâmos e venerâmos qualidades eminentes, este cavalheiro, digo, não duvidou, em taes condições, fazer-se portador do uma proposta redigida e formulada em nome e directamente por aquelle illustre progressista, o sr. Mendonça Cortez. S. exa. não hesitou, a camara toda o está presenceando, em reduzir-se á condição de simples portador de uma proposta confessadamente alheia.
«Vejam v. exa. e a camara, veja o paiz qual foi o exito d'esta approximação tão fecunda, particularmente quando se compara com o desastre do sr. Antonio Augusto de Aguiar, desastre de onde resultou a sua saida do gabinete de que fizera parte.»
Segundo as declarações, pois, du um dos actuaes membros do governo, o proprio presidente do conselho de ministros, e ministro da pasta por onde foi apresentada ás côrtes a proposta para as obras grandiosas no Tejo, não era o auctor d'essa providencia.
Era simples portador de uma proposta confessadamente alheia, formulada por um progressista.
É o que asseverava esse homem illustre, e por tantos titulos de auctoridade para a camara.
Em todo o caso ficou affirmado por um dos magnates progressistas, actualmente membro do governo, que o projecto dos melhoramentos do porto de Lisboa não era da iniciativa do ministerio que o apresentava, por que esse ministerio ora apenas portador da proposta, que um correligionario politico do actual governo, um progressista illustre, lhe depositara nas mãos!
Estes factos são significativos. Tem uma importancia que eu lhe não quero diminuir, nem augmentar, com quaesquer commentarios que podesse fazer-lhe.
Por isso me limito a narral-os sem lhes fazer a mais ligeira analyse.
Sinto muito, repito, que não esteja presente o sr. ministro dos negocios estrangeiros para ouvir pessoalmente a reproducção das suas considerações, e para receber os parabens, que eu lhe queria dar, por se sentar actualmente nas cadeiras do poder, evitando assim o perigo de uma allucinação, a que difficilmente poderia escapar.
Tão preoccupado andava o sr. Barros Gomes com a situação da fazenda publica, que era grave pelo desiquilibrio orçamental, e gravissima pelos novos acrescimos de despeza com o caminho de ferro de Mormugão, com o caminho de ferro de Ambaca, com os caminhos de ferro da Beira Baixa, com o caminho de ferro do Douro, com o caminho de ferro de Torres Vedras e de Cintra, com os caminhos de ferro de sul e sueste, com o ramal de Vizeu, com os portos de Leixões e do Funchal, e com tantas outras despezas, já votadas pelo parlamento, que julgava, ou que o paiz ia seguindo n'um plano inclinado, ou que elle não tinha já suficientemente lucidas as suas idéas.
Dizia o sr. ministro dos negocios estrangeiros:
«Ora, pergunto, será rasoavel que em taes condições o governo venha de coração leve pedir-nos que se realise desde já uma obra na importancia de 10.800:000$000 réis?
«Meditando n'esta especie de vertigem em que vamos arrastados, é que todos ou quasi todos applaudem, começo a duvidar da lucidez das minhas idéas, e a suppor que sou eu o allucinado.»
Ora, sr. presidente, já se descobriu um remedio contra a molestia de allucinação, que é das mais graves que só conhecem, porque amortece no homem todos os privilegios e todas as prerogativas, com que a Providencia o dotou para o fazer o primeiro na escala da creação.
Qual é então o remedio contra a allucinação? Está descoberto. Não o descobriu nenhum medico. Não o descobriu nenhum homem da profissão.
Descobriu-o o sr. ministro dos negocios estrangeiros. Todo esse remedio se resume em saltar das cadeiras de deputado para os bancos do poder! O sr. Barros Gomes assim que subiu ao poder, ficou logo sem allucinações!
Perdeu o susto da allucinação. Já o não incommoda a vertigem das despezas, que oneram o paiz, nem das que estavam então já creadas, nem das que os poderes publicos tem creado, e estão creando.
A vida do actual governo tem-se limitado a empobrecer O paiz, elevando as despezas e augmentando os impostos,