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1232 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

E, porém, certo que estas duvidas são postas por pessões technicas, e que ninguem lhes responde.
Pois não sustentam homens competentes que a suppressão do canal que, separava a torre de Belem da praia do Bom Successo, muito contribuiu para a diminuição que se nota na profundidade da barra, comparados os resultados das sondagens feitas em 1811 com os estudos feitos em 1845?
Não attribuem muitos a differença de profundidade da barra, aliás insignificante, que deram os estudos de 1879, comparados com os de 1845, á influencia das obras do pequeno aterro ultimamente construido á Boa Vista?
E quem responde a estas considerações que são publicadas na imprensa e que sobresaltam o espirito de todos os que reputam a barra de Lisboa a primeira riqueza do paiz? Ninguem.
Tambem é corrente entre os homens praticos e conhecedores das correntes do Tejo que, regularisada a margem norte do rio com um caes avançado, que aperte acorrento já de si violenta desde o pontal de Cacilhas até a torre de Belem, não só os navios fundeados no Tejo podem correr grande perigo, por melhores que sejam as suas amarrações, mas hão de os pequenos barcos luctar com graves difficuldades para fazerem a travessia no canal entre Cacilhas e Belem ao mais pequeno golpe do mar que se levante.
Estas apreciações são de homens muito entendidos que eu percebi perfeitamente, porque o meu espirito não está allucinado. (Riso.)
Nem o governo tem desculpa, porque foi devidamente aconselhado a não se metter n'estes trabalhos sem estudos previos ácerca das correntes das marés e da influencia das obras na barra e no canal interior.
Deu-lhe o conselho a junta consultiva de obras publicas e minas, por unanimidade!
Para em tudo ser singular, extraordinaria e peregrina esta, providencia dos melhoramentos do porto de Lisboa, até a proposito d'ella houve engenheiros tanto nacionaes como estrangeiros que propozeram economias?
Varios engenheiros portuguezes e estrangeiros sustentaram que as obras eram excessivas, que não era preciso gastar tanto dinheiro para dotar convenientemente o porto de Lisboa.
Mas o governo seguia sempre ávante. O governo ouvia commissões officiaes, ouvia engenheiros distinctos, e cada um lhes dava a sua informação. Mas elle adoptava sempre os pareceres que lhe aconselhavam mais obras, e obras em que se gastasse mais dinheiro: e o processo de adjudicação dos melhoramentos do porto seguia sempre a marchas forçadas pura chegar quanto antes ao seu termo!
Debalde clamavam engenheiros de auctoridade decisiva n'estes assumptos, e muito considerados pelo governo e pelo paiz, ponderando lhe que não adjudicasse desde logo todos os trabalhos, que começasse com obras n'um ponto restricto, concentrando-as entre o Caes dos Soldados e a Praça do Commercio, e deixando á experiencia ensinar se ellas deviam continuar no resto da primeira secção.
O governo a todos estes conselhos fechava os ouvidos, saltava por cima de tudo, o seguia n'uma Carreira vertiginosa até chegar ao fim desejado da adjudicação de todas as obras da l.ª secção!
Já quando foi mandada ouvir a junta consultiva sobre a primeira proposta, que outro governo aqui apresentou, a junta se queixou do que lhe pedissem o parecer com tanta pressa.
Mais eu gosto d'esta nossa junta, que, desde que os ministros entram em linha, não desfaz nunca no que faz o governo, (Riso.) procurando todavia manter-se dentro das condições regulares e normaes, (Apoiados.) e desviar de si quaesquer responsabilidades.
É notavel, não só debaixo do ponto de vista administrativo, mas tambem debaixo do ponto de vista politico, o parecer da junta consultiva sobre o projecto espectaculoso, elaborado pela commissão nomeada em 16 de março de 1883.
Esta commissão fez um projecto de melhoramentos para o porto de Lisboa, tornando por modelo as obras do porto de Anvers, onde o rio não tinha agua, nem fundeadouro, o cujas margens do largura entre 270 e 600 metros foram rectificadas sendo hoje de 350 metros a largura!
Em Anvers fizeram-se grandes escavações para dar fundeadouro aos navios, e em Lisboa entulha-se e aterra-se o Tejo para construir docas!
Taes são as similhanças entre o porto do Anvers e o de Lisboa para as obras d'aquelle servirem de modelo a este!
As primeiras condições que se exigem em qualquer porto são o facil accesso á barra, e o bom fundeadouro para os navios dentro do porto.
Ora o accesso á barra de Lisboa é facilimo a toda a hora, e, salvo rarissimos casos, com todo o tempo. Apenas de vez em quando, os nevoeiros na enseada entre cabos prejudicam a entrada do porto, ma esses mesmos facilmente se dissipam.
Quanto a fundeadouro temos no Tejo o primeiro do mundo.
O estuario do Tejo pelas suas condições magnificas não tem rival.
É um canal em que o percurso das marés é approximadamente de 90 kilometros, contando da torre de S. Julião. Podemos abrigar no Tejo toda a marinha do mundo! O Tejo é uma grande doca sem caes. Só lhe faltam os aperfeiçoamentos modernos para embarque e desembarque do passageiros, e carga e descarga de mercadorias.
Pelo contrario Anvers nem tinha barra com accesso facil, nem fundeadouro.
Pois do que se haviam de lembrar os sabios da nossa terra? De tomar para moldo das obras do porto de Lisboa, onde é facilimo o accesso á barra, e magnifico o fundeadouro, um porto como o de Anvers, em que antes de tudo se luctava com falta de agua para ancoradouro dos navios!
Depois decretaram-se obras espectaculosas, e que custam rios de dinheiro, para o porto de Lisboa, que e de escala, á similhança do que se fez em Anvers, que é porto terminus.
Lisboa não é um porto terminus, onde se completo a carga ou descarga das grandes embarcações, mas um porto de escala. Não póde ser um grande porto de importação e de exportação, porque o continente do reino representa uma pequena facha de terreno entalada entre territorio hespanhol e o oceano Atlantico, e nós não podemos absorver, por mais grandiosas que sejam as obras que façamos nos nossos portos, o commercio dos portos hespanhoes, quer do Mediterraneo, quer do oceano.
Mais temos manifestado essa mania, sempre que queremos sobrecarregar os contribuintes com obras hydraulicas ou terrestres.
Nós construiamos o porto de Leixões, e subsidiavamos caminhos de ferro em terras de Salamanca, na idéa de conquistarmos para a cidade do Porto o movimento commercial da barra de Vigo; e com as obras do porto de Lisboa imaginámos desviar para a capital do reino o movimento commercial do porto de Huelva, e talvez de Sevilha e de Cadiz!
Ora o commercio não procura os portos de mar simplesmente por n'elles encontrar as precisas commodidades. É sobretudo indispensavel que as relações commerciaes e industriaes ahi chamem o movimento maritimo.
Vigo, com uma das melhores barras do mundo, ainda não póde vencer, nem sequer competir com a cidade do Porto, que aliás possue uma barra perigosa, e até inaccessivel em certos dias do anno.
É excellente sem duvida a posição do porto de Lisboa.
Estão-lhe na frente as principaes linhas de navegação