6 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
não nos poderemos aguentar no equilibrio internacional. Nos não só precisamos de diminuir as despesas, como precisamos tambem de criar receitas, aumentando a riqueza. (Apoiados). É necessario, aumentar a riqueza publica, criando materia collectavel. (Apoiados).
Foi, por isso, Sr. Presidente, que eu envidei os maiores esforços, de acordo com o Ministro e com os meus collegas da commissão, para reduzir de 160 contos de réis o orçamento das despesas ordinarias do Ministerio do Reino. E este facto fortalece a minha consciencia para pedir á Camara o aumento de 200$000 réis no ordenado de um naturalista.
Mas consintam V. Exa. e a Camara que eu faca algumas considerações, um pouco de historia das sciencias naturaes em Portugal, antes de referir a injustiça de que é victima este funccionario.
Sr. Presidente: em Portugal não teem frutificado muito os homens que se applicam a sciencias naturaes; teem sido poucos, e por isso serão muito reduzidas as considerações que vou fazer a esse respeito; desejo, porem,, frisar, desde já, uma nota interessante, a respeito de crenças politicas de muitos dos nossos naturalistas, assim como de uma grande parte dos nossos medicos: é que teem sido, quasi sempre, rasgadamente liberaes. Medicos e naturalistas, ainda quando predominavam no espirito publico tendencias tradidonaes liberticidas, patentearam, sempre, ideias accentuadamente liberaes.
O nosso Brotero, que era um velho que veio com 77 annos a esta Camara, nas Cortes de 1821, quando, em votação nominal, se resolvia se deviam deixar de ser cidadãos portugueses e ser postos fora da fronteira todos aquelles funccionarios civis ou ecclesiasticos que não jurassem a Constituição, elle, que era lente da Universidade e, portanto, poderia estar eivado dos preconceitos ligados a cathedra, disse apenas - sim.
Antes do seculo XVI, os professores da nossa Universidade e os famosos physicos arabes e judeus, que abundavam nos nossos centros, não deixaram documentos escritos dos seus conhecimentos botanicos.
Foi no seculo XVI que appareceu esse genio que se chamou Garcia de Orta, o primeiro dos nossos medicos e o primeiro dos nossos naturalistas. Professor da faculdade de philosophia da Universidade, então installada em Lisboa, partiu para a India em 1534, porque o velhotorrão lusitano era demasiado pequeno para a largueza de aspirações da mocidade iotelligente d'aquelle tempo, que sonhava com as riquezas e com os encantos do Oriente.
Na India, escreveu os Colloguios, que foi o primeiro livro sobre medicina e borannica escrito por um português. A descrição ahi feita da cholera asiatica é tão palpitante e cheia de vida que a traducção d'esse livro em latim, feita, pôr Clusius, provocou em toda a Europa culta os mais rasgados elogios, e innumeras traducções em varias linguas.
Nos Collegios são descritas muitas plantas, com indicação da origem, do aproveitamento dos frutos, propriedades medicinaes, etc.
Garcia da Orta foi amigo e companheiro de Luis de Camões, que escreveu uma ode que acompanha a primeira edição d'aquelle bello livro.
O celebre Carolus Clusius, botanico flamengo do seculo XVI, que traduziu os Colloquios, tambem herborizou em Portugal e escreveu sobre plantas portuguesas.
No seculo XVII estiveram em Portugal o grande Tournefort, que deixou manuscritos os itinerarios das duas viagens botanicas realizadas em Portugal, itinerarios que, ha poucos annos, foram revistos e publicados pelo Dr. Julio Henriques, e Gabriel Grisley, medico allemão, que escreveu o Viridiarum lusitanicum, a quê o celebre Linneu, numa carta para Vandelli, chamou muerrimum opus que Só um Oedipo poderia decifrar.
Neste seculo XVII nem um só português se distinguiu em sciencias botanicas.
No seculo XVIII, porem, houve entre nos, um verdadeiro renascimento das sciencias nateraes, sendo as nossas charnecas e vergeis visitados por numerosos botanicos estrangeiros e nacionaes, que tornaram, lá fora, conhecida a flora portuguesa.
O italiano Domingos Vandelli, doutor em philosophia pela Universidade de Padna, installou e dirigiu, sob a protecção do Marquês de Angeja (que muito se dedicou a botanica), os jardins botanicos de Ajuda e de Coimbra.
Sustentou aturada correspondencia com o grande Linneu, que por mais de uma vez o incitou a que estudasse e descrevesse a flora portuguesa.
Numa das suas cartas escrevia o famoso botanico sueco:
"Quando toda a Europa é calcada pelos pés dos botanicos, fica ignorada essa felicissima terra lusitana, que pode ser chamada a India Europeia!...
Não haverá alguem, em todo esse lindissimo reino, que possa dar ao mundo das letras a flora genuina da região?
Oh bom Deus. Que bello e desejado trabalho prestará aquelle que firmar essa obra!"
Vandelli, talvez, por não se achar á altura de tal missão, e nada se moveu, e parece que muito poucas foram as remessas de plantas que lhe enviou.
Mas se Vandelli, nos vinte e um annos que viveu em Portuga], nada fez na systematica, os prussianos Conde de Hoffmansegg e o professor Link, nas duas vezes que aqui estiveram, colheram elementos para a sua Flora Portuguesa, que é um verdadeiro monumento scientifico.
Antonio Lourenço Jussieu tambem visitou Portugal, mas parece, que desappareceram, nos exherbarios, as plantas que colheu nessas herborizações.
Neste seculo, floresceram tres grandes botanicos portugueses : João de Loureiro, Correia de Serra e Brotero.
João de Loureiro, natural de Lisboa, foi um jesuita, superiormente intelligsute, que ahi pelo anno de 1735 foi em missão evangelica para a Asia, demorando-se 30 annos na Cochinchina.
Encetou lá os seus estudos botanicos, possuindo apenas a obra de Dioscirides commentada por Laguna e Tourne-fort.
Foi mais tarde, que um inglês, capitão de navios, lhe levou o Genero plantdrum, de Linneu.
Pois, com esses elementos, Loureiro escreveu a sua Flora Cochinchinensis que é uma maravilha de precisão, e, ainda hoje, considerada um livro clássico para quem estuda floras asiaticas.
Quando regressou a Portugal, Loureiro foi eleito socio da Academia Real das Sciencias. mas os seus serviços não foram galardoados pelos poderes publicos, até que, já octogenario, morreu numa pobre casa da freguesia de Santa Engracia, na miseria e no esquecimento.
O abbade José Correia de Serra foi talvez o nosso botanico mais apreciado, lá fora.
Não era. um systematico era um anatomista physiologo; isto é: não era vim botanico propriamente chamado, segundo a original classificação de Linneu; era um botanophilo.
Mas é certo que, tanto na Europa como na America, onde exerceu o professorado na cadeira de botanica da Universidade de Philadelphia, foi considerado como um dos primeiros botanicos do seu tempo.
Tendo-se formado em Roma, veio para Portugal com o Duque de Lafões, com quem fundou a Academia Real das Sciencias; mas, tendo-se tornado suspeito de jacobinismo ao intendente Pina Manique, foi forçado a emigrar pela primeira vez, em 1786, e, tendo regressado á sua patria, de novo, por motivos politicos, em 1797, tornou a emi-