SESSÃO N.º 74 DE 14 DE JULHO DE 1893 5
sentimentos do quasi todos, senão do todos os meus collegas. (Muitos apoiados.)
A famosa entrevista de Badajoz, a que allude o telegramma lido na mesa, foi talvez na sua origem um acto aporias irreflectido de intuitos moramento espectaculosos; mas, na realidade, pela sua significação, pelo effeito que produziu aqui o lá fóra, no paiz o no estrangeiro, foi um erro politico profundamente desastrado. (Apoiados.)
Não quero discutir as intenções dos que lá foram, num sequer quero criticar as palavras que lá se proferiram ou que para lá se escreveram. Muito menos quero referir-me perante o parlamento portuguez ao que por ahi se diz que lá se tratou era conferencias o conciliabulos secretos. Quero só ver o facto, tal como todos o conhecem, com o caracter que ello revestiu aos olhos de nacionaes o estrangeiros, o quero lamentar que houvesse portuguezes que, levados pela obsecação de uma desvairada paixão politica, fossem procurar em terra estranha auxiliares estrangeiros para a sua propaganda de politica interim, (Apoiados.) sem se lembrarem de que lançavam assim sobre a autonomia o a integridade do seu paiz, pelo monos, uma ameaça que, por ser platonica, não é menos deploravel.
(Vozes:- Muito bem.)
Contra isto protestou logo entre nos a opinião publica pelos sons orgões mais auctorisados o mais insuspeitos, pois os protestos vieram do todos os lados, o até do seio do proprio partido republicano; contra isso entendo ou que deve protestar tambem solemnemente o parlamento portuguez. (Muitos apoiados.)
S. exa. sabe que eu sou de animo tolerante e sereno. Tenho o mais profundo respeito por todas as convicções, quando sinceras, e por todas as propagandas, quando só contenham dentro do moldes decorosos e legaes. Não foi o caracter republicano da reunião do Badajoz que me affligiu, foi o sou caracter iberico, fossem quaes fossem os intuitos dos que lá foram, porque os factos têem a significação que lhes dito as circumstancias em que só produzem, e aqui e lá, a entrevista do Badajoz tomou infelizmente o aspecto de uma manifestação iberica.
(Muitos apoiados.)
Só ou fallasse apenas como monarchico, devia talvez felicitar-me pela entrevista de Badajoz, que. constituiu um golpe profundo no partido republicano portuguez.
(Apoiados.)
O sr. Jacinto Nunes: - Está enganado.
O Orador: - Não estou; quem se engana é o illustre deputado. Creia que não póde medrar um partido politico, quando não respeita, autos fere e susceptilisa os mais intimos sentimentos da nação que pretende dirigir. (Muitos apoiados.)
Se ou fallasse como monarchico podia, pois, talvez regosijar-me; mas, como portuguez não posso deixar de me sentir votado e do protestar bem alto contra um acto que se prestou a significar perante os estrangeiros, que menos bem conheçam o nosso paiz, nina abdicação humilhante para os brios nacionais. (Vozes:- Muito bem, muito bem;
Se ou faltasse como monarchico podia ver com satisfação na entrevista de Badajoz uma singular confissão do fraqueza do republicanismo portuguesa, que se julgou obrigado a ir mendigar a terras estranhas auxiliares e elementos, que não encontra dentro do paiz para fazer vingar as suas idéas; mas como portuguez, é profunda a minha mágua pela aberração ou leviandade com que alguns homens, cujo caracter respeito, como respeito as suas convicções, embora as não partilhe nem partilhasse nunca, só comprometteram n'um procedimento susceptivel do provocar commentarios desairosos para a sua patria. (Apoiados.)
Sr. presidente, as paixões politicas obsecam e toldam muitas vezos os mais claros espiritos, mas ha desvairamentos profundamente lamentaveis, e que, como este, podem tanto menos absolver-se, quanto a liberdade o tolerancia que felizmente todos encontram á sombra da. monarchia portuguesa, de mudo algum podem legitimar o recurso a similhantes excessos. (Multou apoiados. - Voses: - Muito bem.)
Não me movo tão pouco no meu protesto o menor sentimento de hostilidade ou de animadversão para a nação vizinha. Tive a fortuna do estar algum tempo na capital da Hespanha, e assim pude apreciar de perto a nobreza cavalheirosa do caracter hespanhol.
Estimo sinceramente que as duas nações peninsulares vivam na melhor harmonia, nas mais estreitas o cordiaes relações. Tal é o seu mutuo interesse. (Apoiados.)
O governo e o parlamento portuguez tanto partilham estas idéas que ainda este anuo aquelle propoz o este votou um tratado de commercio, destinado a facilitar excepcionalmente as relações economicas e commerciaes entre nos dois paizes. Todos applaudiram este acto em Portugal e o consideraram como de boa e sensata politica; (Muitos apoiados.) mas d'ahi aos perigosos devaneios do um supposto federalismo, que havia de fatalmente conduzir ao desmembramento, á absorpção e ao desapparecimento da nacionalidade portugueza, vae um abysmo, que só alguns desvairados pretenderão transpor. (Muitos apoiados. - Vozes:- Muito bom, muito bem.)
Lavrado o meu protesto n'estas breves observações, vou concluir, mas não o quero fazer sem dirigir antes algumas palavras ao governo. Confio plenamente nos sentimentos patrioticos que o animam e na consciencia que elle tem dos seus deveres. Não lhe peço rigorismos excepcionaes; recommendo-lhe, pelo contrario, que faça apenas cumprir e respeitar as leis.
Nem por uni instante se arrede o governo da tolerancia e liberdade, que sito brazão e timbre da monarchia portuguesa, o a melhor o mais eloquente prova da sua força; mas não esqueça nunca tambem que é o governo da nação portuguesa isto ó, do uma nação que é e quer ser sempre autonoma o independente. (Muitas apoiados.)
Vozes: - Muito bem, muito bem.
(O orador foi muito comprimentado por quasi todos os deputados presentes.)
(S. exa. não reviu as provas d'este discurso.)
O sr. Francisco Beirão: - Sr. presidente, em meu nome, em nome da minoria progressista e, creio que. posso dizel-o, em nome da camara, associo-me ás palavras eloquentes que acaba ele proferir o illustre deputado o sr. Lobo d'Ávila, (Muitos apoiados) com aquelle calor que é proprio da sua triumphante mocidade, temperado pela discreta reflexão que lhe vem do uma experiencia precoce.
É costume lá fóra, nos parlamentos ao separarem-se os deputados, saudarem em uma acclamação unisona o que para elles representa superiormente a nação.
Parece-me bem n'esta hora, que no parlamento portuguez, depois dos varias questões que durante esta sessão o agitaram o dividiram, possam, antes do se separar, os deputados do norte, os do sul, os das ilhas, os das provincias ultramarinas, os do occidente e os do oriente sobre todos os do oriente - saudar tambem em uma acclamação unisona aquillo que está acima de todas as discussões politicas e partidárias, a unidade da patria, sem a qual não póde haver independencia nacional. (Apoiados.)
Não sei se ha por ahi alguma propaganda contra esto principio, que a existir, seria contra a propria essencia da nação portugueza; (Apoiados.) só existe, o que lamentarei, deve naturalmente sor em nome de alguma theoria especulativa, ou do qualquer these metaphysica, proprias para discutir em escolas e academias, mas que felizmente repugnam ao genio bom, simples, sincero e sobretudo patriotico do povo portuguez, (Muitos apoiados.) que nem sequer chega a comprehender similhantes abstracções.
Houve em tempo, um partido republicano que tinha no seu seio tudo quanto ha de mais elevado na humanidade, o genio, o talento, a eloquencia, a gloria, a mocidade e até a formosura, e comtudo esse partido, o da Gironda,