8 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
menos em politica, e vê erradamente; porque póde ter a certeza, de que se ali não fizeram mais mal a este paiz foi porque não tinham força para isso. (Apoiados. - Riso do sr. Jacinto Nunes.)
O illustre deputado não se ria; porque parece incrivel, que quando se trata do que ha de mais sagrado, a independencia e a autonomia da nossa patria, haja alguem, tenha embora as idéas que tiver, que não trato ao menos com a devida seriedade da sorte do cinco milhões de almas, que ha sete seculos vivem independentes, e que meia duzia de loucos, hontem. quiseram sacrificar.
O sr. Jacinto Nunes: - Eu não me rio de s. exa.
O Orador: - Se s. exa. se risse do meu discurso era o que menos me importava, isso podia ferir a minha vaidade; se se risse de mini só podia ferir a minha dignidade. Se ferisse a minha vaidade era-me indifferente, se ferisse a minha dignidade saberia desforçar-me.
Mas do que o illustre deputado só está rindo é do que se diz n'esta camara, e n'este momento, depois das suas declarações, quando estão todos vibrantes e cheios de indignação, por saberem que, o que se foi fazer a Badajoz, é muito peior do que todos nós até aqui pensávamos.
Diz o illustre deputado que quem perde a independencia da patria somos nós, que andámos mendigando da Allemanha, a troco das nossas colonias, protecção!
Em primeiro logar o illustre deputado não é capaz de provar essa asserção, em segundo logar os illustre deputados, indo a Badajoz para fazerem triumphar as suas idéas, davam, não já as colonias, mas o continente! (Muitos apoiados.)
O sr. Jacinto Nunes: - E a prova?
O Orador: - A prova?! A prova são as palavras do illustre deputado, são os telegrammas, de Zorrilla, as palavras e os brindes de Salmeron, ás illações que se estavam tirando em Hespanha, a significação que se lhe estava dando na França e o espanto da Europa por ver pela primeira vez uma pequena nação, que existe ha sete seculos, fazendo principal cuidado da sua norma de governo o conservar-se independente e livre, querer entregar-se agora, a troco da mudança de reis e de ministros, a uma nação estrangeira! (Apoiados.)
Porque s. exa. não conseguiram mais do que isso, absolutamente mais nada. Sacrificavam tudo aos caprichos pessoaes, ás ambições individuaes exactamente como em 1080.
Porque sempre que haja alguem que queira estender a mão, de Portugal para Hespanha, para a união politica dos dois paiz, é sempre 1580. Sempre a mesma fatalidade historica, a absorpção do fraco pelo forte; é sempre a mesma corrupção, senão de todos, pelo menos dos mais espertos o dos mais ladinos.
Quiz registar isto com calor, que não é nem de parlamentar, nem de orador, mas que é de sincero e genuino portuguez, porque digo ao illustre deputado que sou monarchico do coração, tenho as minhas responsabilidades ligadas á monarchia, mas se ella quizesse fazer qualquer união politica com a Hespanha, eu
combatel-a-ia, como hoje combato o partido republicano. (Vozes: - Muito bem, muito bem.)
Torno a repetir, quiz registar com verdadeiro calor, sincera e espontaneamente as declarações audazes, extraordinarias, feitas n'esta casa pelo illustre deputado, deixando á camara, em cuja manifestação não desejo influir por nenhuma forma determinante, o protestar contra as palavras de s. exa.
Termino, fazendo, em nome do governo portuguez, do que tenho a honra de fazer parto, e depois do que disse o illustre deputado, uma declaração que é necessaria para que não levem atraz das suas loucuras ou traições os incautos, nem os ignorantes, nem os ingenuos. (Apoiados.)
O governo não consentirá que hespanhoes, collectiva ou isoladamente, venham a Portugal conspirar contra as instituições, que nós temos e queremos, emquanto legalmente, por portuguezes, e só portuguezes, não forem derruidas â substituidas. (Apoiados.)
O governo tem sido liberal e tolerante e continuará a sel-o, como tem demonstrado por actos e não por palavras, porque vale mais que tudo ser tolerante, por actos, do que por simples afirmações e o governo continuará a ser liberal o tolerante com todos os portuguezes; mas saberá punir e reprimir até á dureza todo e qualquer manejo, todo e qualquer esforço que se faça, quer no sentido de combater as instituições que temos, com a ajuda e auxilio de hespanhoes, quer no de attentar sciente ou conscientemente, contra a autonomia e independencia do paiz, que é o glorioso património de todos nós. (Muitos apoiados.)
Seriamos indignos se não soubéssemos, geração miseravel e fraca, sustentar e defender a herança que sete seculos nos legaram. (Applausos prolongados.)
Vozes: - Muito bem, muito bem.
(O orador foi muito comprimentado.)
(S. exa. não reviu as notas tachygraphicas.)
O sr. Laranjo:- Eu não vou responder ao sr. ministro do reino, porque as minhas idéas estão perfeitamente de accordo com as de s. exa., o por isso parecia-me melhor, visto o sr. Jacinto Nunes ter pedido a palavra, e se a camara o consentisse, ser-lhe concedida, ficando eu inscripto para fallar em seguida a s. exa.
O sr. Presidente:- Não posso conceder n'este momento a palavra ao sr. Jacinto
Nunes porque ha outros oradores inscriptos antes de s. exa.
Vozes: - Falle, falle.
O sr. Presidente: - Em vista da manifestação da camara, tem a palavra o sr. Jacinto Nunes.
O sr. Jacinto Nunes: - É simplesmente para uma rectificação.
Vi que as minhas palavras foram mal interpretadas, apesar de ter sido bem explicito o categorico quando disse qual fóra o objectivo da ida a Badajoz. Eu disse que ninguem pensara em soluções positivas, em tomar qualquer compromisso com relação ao modus vivendi entre as duas futuras republicas da peninsula. E. portanto, tudo quanto a imprensa monarchica. obedecendo não sei a que plano, a que pensamento, tem dito, tudo quanto se tem propalado, assenta no vacuo.
Se me apresentassem documentos authenticos, se apresentassem provas de onde constasse que nós realmente tinhamos a este respeito tomado soluções serias c graves, então eu inclinar-me-ia, e teria rasão a camara e teria rasão o sr. ministro do reino; mas, desde que nào se apresenta um unico documento authentico e serio, desde que eu affirmo perante a camara que nem uma palavra se trocou a tal respeito, tudo quanto aqui se tem dito com relação a projectos de uniões ou federações e inteiramente inexacto e gratuito; e por consequencia a camara está perdendo um tempo precioso, discutindo este assumpto.
Emquanto ao mais, mantenho-o inteiramente.
A minha consciencia e a minha lealdade impõe-me o dever de declarar desassombradamente, mas sem arrogancia, que fomos a Badajoz tratar de estabelecer cá e lá a republica. Nem mais nem menos.
A respeito de iberismo, eu já disse que o meu passado protesta contra esta accusação. Sou individualista como nenhum, municipalista como ninguem, e patriota e desinteressado, posso affirmal-o, ou autos appello para os meus actos.
Se eu quizesse apontar muitos homens de uma enorme illustração o de grande auctoridade, para mostrar que não era cá, mas lá, que estavam os ibericos, os inimigos da independencia portugueza, podia fazel-o, mas não quero.
Está presente um d'elles, a primeira illustração d'este paiz, ex-ministro de estado, que tem essa opinião, e está no seu direito em a manifestar e sustentar.
Fique pois bem consignado que eu protesto contra a