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1110 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

A maior parte dos illustres ministros vem ,.. d'onde sempre vieram os ministros no nosso paiz; a outra parte vem o alforbe perenne da commissão de fazenda. Escusado é perguntar a uns e a outros pelo seu passado, visto que elles proprios se esqueceram d'elle e foram os primeiros a sacrifica-lo no altar da patria (apoiados).
Já não ha passado que preste, e tanto assim é, que d'elle se esqueceram os Srs. ministros no meio dos affectos do fraternal amplexo, que os fez sentar n'aquellas espinhosas cadeiras (apoiados).
Sr. presidente, já não ha passado! Tanto pôde a força das circumstancias, a coherencia das doutrinas, a responsabilidade dos actos, o desejo ardente de salvar a patria, que não são já para admirar entes consoreios incestuosos, estes enxertos hybridos, de que talvez não haja memoria nos annaes da pbysiologia vegetal ou animal, mas de que certamente sobejam auctorisados exemplos nos factos egregios da physiologia política dos nossos grandes homens d´estado (muitos apoiados).
Disseram os Srs. ministros - já não ha passado; ponhamos todos os olhos no presente temeroso; entrámos para estas cadeiras sem nos lembrarmos que teríamos talvez de voltar olhos para o passado, mas de nos occuparmos unica e exclusivamente do presente e do futuro, a que nos cumpre mais que tudo consagrar a nossa attenção. Por isso dizia eu que era inutil perguntar aos illustres ministros d'onde vinham, tanto mais que o seu passado não podia nunca para mim servir de garantia para o presente nem para a futuro (apoiados).
Entendo, que na actualidade, nas difficeis circumstancias em que o paiz está collocado, é só do presente, do indeclinavel presente, que os ministros, quaesquer que sejam, devem e podem tirar a esperança e a confiança, a auctoridade e a força, a victoria e o applauso (apoiados).
Sr. presidente, ouvi com toda a attenção as declarações, e o programma dos illustres ministros, tanto na parte política como na parte financeira. Congratulo-me pelos applausos, que estas declarações, que este programma encontrou entre muitos adversarios da situação caída.
Sr. presidente, dos bancos dos Srs. ministros surgem as declarações de que o programma do governo é o programma do paiz; que as aspirações do movimento de janeiro são aspirações legitimas e indeclinaveis; que tudo depende do modo de as realisar; que as economias são uma necessidade impreterivel; que não só devem ser conservadas as já feitas, mas que ainda devem levar-se tão longe quanto seja compatível com as necessidades do serviço estricto do estado (apoiados), que as medidas de fazenda a adoptar desde já são, pouco mais ou menos, as apresentadas pelo sr. conde de Samodães, que em parte as herdou do seu antecessor, o sr. Dias Ferreira, sómente com as modificações, que o seu estudo e a prudencia tem suggerido. Que para mais tarde ha de recorrer á idéa da desamortisação, idéa tambem já apontada pelo sr. Dias Ferreira e pelo sr. conde de Samodães; e, emfim, aos desenvolvimentos da riqueza publica, e das forças productivas do paiz, e á descontralisação dos serviços, que se havia de fazer pausada e detidamente, para fazer face aos encargos da divida fluctuante que nos assoberba o emprestimo. Para complemento d'esta obra, o remodelamento e aperfeiçoamento da contribuição predial, industrial, pessoal e a contribuição de renda.
Omittiu-se o imposto do real de agua, outr'ora imposto de consumo (apoiados), e por conseguinte julgo-me auctorisado a condemnar esta contribuição como posta de parte, ao menos por emquanto.
Sr. presidente, felicito a camara e o paiz por estas solemnes declarações, que todos devemos registar (muitos apoiados).
Mas vejam como todos estavamos enganados! A pobre janeirinha, que todos imaginavam condemnada a ser-lhe decepada a cabeça audaciosa, ei-la que revive, cheia de novos brios e nova seiva, á voz potente dos illustres ministros, que vão completa-la em todo o seu desenvolvimento! (Riso.}
Vejam que decepção e que desengano! Nós que imaginavamos, que em nada podia aproveitar a tão illustrados ministros o espolio esfarrapado dos seus antecessores, eis que vemos por elles congregados esses membros dispersos para lhes insuflarem nova seiva e nova vida! (Apoiados.)
Mas seja-me licito perguntar a estes neo-janeiristas se envergaram a toga por convicção ou por disfarce; porque eu tenho menos medo, desconfio menos d'aquelles que se declaram á face do paiz e do parlamento impenitentes, do que d'aquelles que, talvez arrastados pela força poderosa da opinião, se deixam ir na corrente das novas transformações resignados a voga: na veia de agua, ou quando muito a cortarem-n'a apenas obliquamente. (Apoiados. - Vozes: - Muito bem.)
D'aquelles, sei eu, sabemos nós todos, sabe o paiz inteiro o que tem a esperar; d'estes, a sua política póde ser um mitho, que é conveniente, que seja decifrado de uma maneira clara e positiva (apoiados).
Eis a rasão por que, apesar das declarações dos nobres ministros, me restam ainda escrupulos; e apesar do meu firme desejo de não fazer reviver o passado, me vejo obrigado a ir pedir-lhe pelo menos alguma luz com que possa alumiar-me nas trevas do presente. (Vozes:- Muito bem.)
Não irei revolver o mais remoto passado, mas o passado recente; não interrogarei a velha política, mas a política actual, a política nova; não irei buscar os precedentes dos illustres ministros, quando foram outr'ora poder, mas irei buscar os seus actos e as suas palavras de hontem, de ha poucos dias, desde a epocha em que teve logar no paiz a revolução de janeiro de 1868; seja-me licito ao menos fazer a este respeito um confronto, que os illustres ministros não podem engeitar.
Pelo lado dos dotes de espírito sobejam em s. ex.ª illustração e o talento (apoiadas).
Já não terão que soffrer nem a grammatica nem a retorica, desde que nos conselhos da corôa se senta um historiador como o sr. Rebello da Silva, e um poeta como o sr. Mendes Leal. As regras grammaticaes, contra cujas offensas se levantou irado e facundo o illustre ministro da marinha na outra casa do parlamento, têem agora no gabinete defensores estrenuos, campeões denodados, que certamente hão de logo emendar os lapsos que porventura possam escapar aos seus collegas mais políticos e menos letrados (riso).
Mas, pondo de parte estes dotes, não sabem todos a maneira áspera e vigorosa com que o illustre historiador se levantou na outra casa do parlamento para fulminar a revolta de janeiro?! Não sabem todos até que ponto o sr. Mendes Leal sustentou, defendeu e acompanhou a situação derribada pelo movimento de janeiro de 1868?! Não viram todos os raios de eloquencia do illustre orador abrirem e profundarem aquella celebre vala para nunca mais ser transposta pelo illustre ministro?! (Riso. - Vozes: - Muito bem.)
Não echoam ainda n'esta casa as palavras severas, do nobre ministro das obras publicas, que sinto não ver presente, o sr. Lobo d'Avila, o mais implacavel, o mais ferino, o mais tetrico de todos os inimigos da situação caída, que com a sua vigorosa palavra repetiu immensas vezes que aquella revolução não era senão o desvairamento da opinião? Não vemos nós como de proposito o illustre ministro foi escolher a pasta das obras publicas, como para firmar assim o mais solemne protesto contra as quasi unicas reformas radicaes effectuadas nos diversos ramos de serviço publico? Não vemos nós o sr. Luciano de Castro, que sinto não ver presente, o nobre relator do celeberrimo imposto de consumo, sentado ao lado do sr. Braamcamp, que hontem guardou o silencio a respeito da proposta do real de agua, imposto de consumo disfarçado? (Muitos apoiados.)