O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

SESSÃO DE 2 DE MAIO DE 1888 1879

Quadro I

Resumo geral da medição do projecto definitivo Hersent, feito sobre os desenhos apresentados pelo empreiteiro

[ver tabela na imagem]

Numeros dos typos dos muros Numeros de metros em que serão aplicaveis os diversos typos Calçadas Cantarias Alvenaria acima de zero Alvenarias abaixo do zero Enrocamenro dos alicerces e dos vãos Enrocamentos de Protecção Dragagens em terreno resistente Dragagens em terreno brando Totaes

Encontrei, pois, mais alvenarias abaixo do zero, mas a grande differença para menos que acho é no custo d'essas alvenarias. (Apoiados) e vou dizer porque.

Tenho de demorar-me um pouco n'este ponto, e peço desculpa á camara de a entreter com uma descripção um pouco technica mas necessaria para me fazer entender:

N'este documento acceita-se para preço do metro cubico de alvenaria abaixo do zero a quantia de 8$000 réis, e depois de umas observações judiciosas feitas pela commissão e acceites pela junta, esse preço de 8$000 réis é transformado em 9$000 réis. De maneira que, para alguns typos de muro do sr. Hersent ficou o preço de 9$000 réis e para outros o de 8$000 réis a applicar ás alvenarias que são feitas abaixo do zero.

Ora, eu digo que o preço para as alvenarias abaixo de zero não é de 9$000 réis nem de 8$000 reis, mas que não póde ser, em media, superior a 7$300 réis, visto as alvenarias dos muros de Anvers, do projecto Matos Loureiro, custarem tambem, em media, 8$000 réis.

Para que a camara aprecie desde já a importancia d'esta differença de preço, direi que ella se traduz a favor ao sr. Hersent em 496:450$150 réis.

Uma bonita quantia. Apesar de eu achar mais alvenarias abaixo do zero do que a commissão, ainda assim a differença para menos é de 496:450$150 réis, por causa da diversidade dos preços applicados.

Ora a maneira como encontrei este diverso preço é que é preciso demonstrar, e vou fazei-o.

E aqui vou então collocar o tal discursosinho sobre a questão technica de hydraulica.

Vou começar por expor á camara, e é este o ponto principal da minha demonstração, o que sejam muros construidos pelo systema de Anvers, a ar comprimido. Vou fazel-o em termos correntes, sem me preoccupar na exposição com o emprego ,de expressões technicas.

Desejo mesmo fazer urna descripção em termos vulgares, para que todos entendam e percebam o que quero dizer.

Supponhamos que se collocam no rio Tejo duas grandes barcaças, e que estas barcaças se ligam por meio de uma ponto ou arco de ferro bastante forte e resistente, dispondo-se n'este arco roldanas que possam sustentar um grande peso. Entre as duas barcaças colloca-se um grande caixão de ferro, que póde ter um comprimento de 20 a 30 metros, por exemplo, fechado pelos lados e superiormente mas com diversas aberturas no fundo.

A este caixão addicionam-se nos quatro lados uns taipaes de ferro, como os de um carro, de tirar e pôr, e tão altos que subam para cima do nivel da agua em qualquer posição occupada pelo caixão, depois do mergulhado dentro d'ella.

Estando collocada entre as duas barcaças a armação de ferro, caixão e taipaes, fica suspensa e segura nas roldanas do arco que as liga.

Os operarios, feito isto, entram para dentro dos taipaes e começam a construir em cima da tampa do caixão de ferro um muro de alvenaria. A alvenaria carrega no caixão e vae obrigando o systema todo a ir descendo até encontrar o lodo ou terreno resistente, aonde assente.

O muro, feito dentro dos taipaes, é construido deixando-se no meio uma chaminé ou espaço vasio. Quando o muro chega ao fundo do rio colloca-se em cima d'esta chaminé uma construcção de madeira, em condições de evitar a communicação com o ar exterior, e dentro d'esta chaminé introduz-se ar comprimido; então os operarios entram para dentro d'esta construcção de madeira, descem pela chaminé, que está cheia, de ar comprimido, até á tampa do caixão de ferro, descobrem uma abertura praticada n'essa tampa, e que se tem conservado fechada, e estabelecem a communicação entre a chaminé, o interior do caixão e a agua e lodo existente no fundo do rio.

Como o ar comprimido, que está na chaminé, tem uma grande pressão, obriga esse lodo e a agua a saírem fóra do caixão, e os operarios podem entrar para dentro d'elle. Chegam ao fundo, e pelos buracos que, como já disse, este caixão tem no lado inferior, começam a tirar os todos que impedem a descida do caixão.

Esse lodo sáe em baldes pela chaminé e a construcção toda começa a descer até encontrar ou terreno resistente ou, camadas lodosas sufficientemente compactas, para o muro não poder avançar mais.

Quando o muro não desce mais tiram-se os taipaes, enche-se o caixão de ferro com alvenaria, bem como a chaminé de serviço; e está o muro construido e assente no seu logar.

É esta construcção a que no orçamento do sr. Matos se applica o preço medio de 8$000 réis por metro cubico de alvenaria.

A camara comprehende bem que este trabalho, feito com ar comprimido, é muito despendioso, porque os operarios que têem de ir trabalhar dentro do caixão, onde ha ar comprimido, sujeitam-se a graves transtornos na sua saúde, e quando sáem do trabalho, pela differença da pressão do ar que ha dentro da camara e da do ar exterior, não é raro saltar-lhes o sangue pelos olhos e pelo nariz e soffrerem graves transtornos na regularidade das suas funcções organicas.

Por consequencia, n'este preço de 8$000 réis estão incluidos estes despendiosos serviços, o preço do ferro que entra no caixão que fica no rio, e o preço das alvenarias que são feitas dentro dos taipaes ou ensecadeiras desde o fundo do rio até ao nivel das mais baixas marés.

Era preciso que a camara comprehendesse bem como é construido este muro para poder apreciar o que vou dizer.