10 DIAARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
É preciso não nos cansarmos de o rememorar sempre.
E preciso repeti-lo a todos os propositos e em todos os ensejos.
A França, embora anciada pela desforra, clamava que era cousa em que se devia pensar, em que não se devia falar nunca.
E porque não tem falado, as gerações de hoje começam a esquecer, e não ha de decorrer meio seculo sem que a ideia de desforra- se tenha apagado dos espiritos.
Nós nunca esquecemos o nome de D. Miguel: é que nunca cessaram os clamores d'aquelles que, por si ou pelos seus, d'elle foram victimas; o odio tem-se até hoje mantido implacavel, porque foram aos milhares os que.se arremessaram ás enxovias, por milhares se contaram os que morreram na forca, nas regiões inhospitas da Africa, ou no campo da batalha, e aos milhares foram aquelles que soffreram luto, orfandade e miseria.
O outro, o grande malvado, precisa de ser sempre relembrado; se não foram aos milhares as suas victimas, não é porque lhe fraquejasse a anciã, mas porque lhe cortaram os voos.
Mas o perigo não vae passado.
Sentem-se rumores surdos, rugidos de chacaes pelas trevas, que andam a ameaçar a liberdade.
A alliança de todos os tempos mais uma vez se renova; não é a alliança da cruz e da espada na propagação da fé, que essa tinha um grande ideal de nobreza; é a alliança do frade e do cacete que prepara arremettidas contra, a mais nobre conquista do homem.
É preciso que nos armemos contra assaltos e surpresas: hoje a propaganda, a objurgatoria fremente de indignação dos nossos grandes tribunos parlamentares, a sancção paternal a João Pinto dos Santos, a sancção caridosa de quem tenta lançar um laivo de consciencia em almas sem escrupulos e sem pudor; amanhã, as armas que forem precisas; as armas honestas e leaes, que as outras ficam para os que professam que os fins legitimam os meios, e isso é privilegio da moral jesuitica.
O povo começa a acordar no seu amor á liberdade; é preciso não o deixar adormecer de novo. Devemos lembrar-lhe hoje e sempre, aquelles que soffreram pela liberdade e á custa de dores e martyrios a souberam conquistar.
Será a glorificação dos mortos, mas tambem o ensinamento dos vivos. (Apoiados).
Joaquim Antonio de Aguiar é das figuras mais prestigiosas do nosso periodo revolucionario. Não tento sequer esboçá-la, que ella é grande demais para a pequenez dá minha palavra, e por demais complexa para a minha nullidade de historiador. Outros mais competentes °o farão. Quero somente communicar á Camara a forte impressão de civismo que recebi da leitura do relatorio que precede o decreto da extincção das ordens religiosas. São paginas cerradas, em que se não tem por certo a impressão artistica de quadros luminosos e largamente pintados, mas em que se sente a garra de um grande estadista condensando em linhas apertadas a historia completa das congregações religiosas, seus perigos e seus damnos. É preciso collocar a obra de Aguiar no seu tempo para poder medir o extraordinario da sua grandeza, e a energia, a coragem, o espirito liberal de quem com ella arcou. E verdade que o espirito popular já tentava as azas em voos delibertação, que os jesuitas já tinham sido expulsos com applauso do país inteiro, que a Inquisição fora extincta e o povo quisera lançar fogo ao antro em que ella se acolhia, é verdade emfim que o frade, desde muito, era o alvo corrente de sarcasmos e zombarias, e fazia o objecto não menos obrigado que picaresco das trovas populares e cantigas do S. João. Mas o sentimento da religiosidade ainda pesava muito sobre o espirito do povo, a quem desde seculos se suggestionava a crença de que religião e monarchismo se confundem, e sem ordens regulares não é possivel a religião de Christo.
Como se não fosse certo que espiritos dos mais1 religiosos teem condemnado as congregações, como se não fosse verdade que a ordem dos jesuitas foi extincta por um Papa, e outro houve, Pio Vil, que na concordata que regulou a igreja galicana subscreveu, com o primeiro consul, O artigo em que se prohibiam em França todas as instituições ecclesiasticas que não fossem os seminarios e os capitulos das cathedraes; como se não fosse emfim da observação de todos que por essas terras fora esse verdadeiro proletariado da Igreja, que são os curas de aldeia, exerce o seu ministerio por caminhos invios e através das intemperies, sem que nunca se tivesse visto um frade que o viesse auxiliar na sua missão de fé e de amor.
No relatorio de Aguiar põe-se em alto relevo a historia do monachismo, o que eram as ordens religiosas, as suas ambições desenfreadas, o luxo da sua vida e a depravação dos seus costumes, o amontuar das suas riquezas, a hypocrisia e a mentira que desenrolavam sobre o povo para lhe conquistar legados e doações, e por fim a sua nefasta influencia sobre povos e sobre Reis, corrompendo a uns e levando-os ao abandono de toda a actividade util na vida e conduzindo os outros a guerras e devastações. E para coroamento deste trágico quadro, a sua luta, ora em trabalhos de sapa, ora em guerra aberta, a sua luta desesperada, a luta de todos os tempos, até de hoje, pela supremacia do poder espiritual. A gloria de Deus é o reino do Altissimo no mundo; Deus impregna a Igreja com o seu espirito e assim a gloria de Deus é o reino da Igreja no mundo. Ad majorem Del gloriam, é o lemma jesuitico. E ainda hoje corypheus da reacção, homens como M. de Mun, não hesitam em escrever que a revolução não é um acto nem um facto; a revolução é uma doutrina que pretende fundar a sociedade sobre a vontade do homem em logar de a fundar sobre a vontade de Deus; a contra-revolução é o principio contrario, é a doutrina que faz assentar a sociedade sobre a lei christã.
Em 1834 ainda mais havia, e é que se saia de uma luta sanguinolenta em que durante annos se tinham visto os frades combaterem a liberdade, os conventos transformarem-se em depositos de armas, as casas de capitulo tornarem-se em antros de conjuração, os pulpitos converterem-se em tribunas de calumnias e falsidades, e os proprios Ministros de Deus lançarem-se na perseguição e no crime (Apoiados), enraivecidos e desesperados, n'aquella furia indomita que é o caracter da imprensa intolerante que os defende e que por toda a parte referve em odios, imprecações e maldições.
Abusos e excessos, dir-se-ha, mas abusos e excessos que são inseparaveis do espirito congreganista. (Apoiados). É a historia de todos os tempos. É a historia da inquisição e é a historia da acção politica das ordens religiosas que por toda a parte afogaram os povos em mares de sangue. A Bohemia era um povo nobre, rico, illustrado: trinta annos de guerra promovida pelos mane]os jesuiticos reduziram uma população de 3.000:000 de habitantes abastados e felizes em 800:000 mendigos; as terras deixaram de ser arroteadas, as matas invadiram os campos de cultura, viam-se as charruas puxadas pelos proprios lavradores e uma literatura nacional, bella e rica, afogou-se por completo sob as ondas do fanatismo congregacionista. No seculo XVI os heréticos que habitavam ao norte e ao sul da Italia viviam na pureza e na doçura dos seus costumes quando os jesuitas decidiram os principes á sua perseguição. E um quadro de horror o que então se desenrolou. Por toda a peninsula massacres e exterminio. Na Calabria, em duas pequenas localidades ao norte, San Sisto e Guardiã Fiscalda, em onze dias foram mortos 2:000 heréticos, 1:600 condemnados a prisão, sem contar aquelles que foram massacrados nos campos. Refere