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SESSÃO N.° 78 DE 25 DE AGOSTO DE 1908 11

uma testemunha ocular que os que deviam, ser executados estavam numa prisão onde o algoz os ia buscar a um e um: vendava lhes os olhos, trazia-os para uma larga praça, e foi os obrigava a ajoelhar e de um golpe lhes cortava as guelas; foram 88 aquelles que ella assim viu assassinar e a quem os jesuitas acompanhavam no transe final; queriam salvar-lhes as almas, elles que tinham incitado á sua perseguição e exterminio... E por fim os cadaveres foram todos esquartejados e pendurados ao longo da estrada até a fronteira vizinha...

A historia das ordens religiosas é uma historia pavorosa de sangue, torturas e martyrios. Assombra a alma que ainda haja quem as applauda e as defenda. Mas ainda sem abusos e sem excessos, inseparaveis de toda a organização monástica, as ordens religiosas não podem senão ser nefastas á boa ordenação e á prosperidade do Estado. (Apoiados). Mostra Aguiar no seu relatorio o que significam o voto de pobreza e o voto de castidade, pela inutilização de homens, pela sua esterilidade propositada, como pela inimobilização de riquezas que se tornam em capital morto, e improductivo para o Estado. Faltou-lhe dizer o que importa o voto de obediencia, que reduz o homem á condição de cousa, que corta cerce pela sua dignidade, que o furta ao livre debate das ideias, á contribuição devida ao movimento social.

Não podendo possuir, não podendo criar familia, não podendo pensar ou pelo menos conduzir-se em conformidade com o seu pensamento, o homem reduz-se na Ordem á pura condição de animal - mas de um animal improductivo, e ainda mais, de um animal damninho.

A congregação é o cancro das sociedades.

O cancro suga para si todos os elementos nutritivos do organismo em que assenta; cresce, desenvolve-se numa riqueza de nutrição que o faz de uma bella florescencia, de uma formidavel turgencia, avoluma-se a ponto de adquirir maiores dimensões que as do organismo que o sustenta, ao passo que este definha, anemia-se, esqueleta-se e por falta de nutrição acaba por se extinguir.

Mas o frade ainda é peor do que o cancro; este enriquece e opulenta-se porque mata á fome o organismo que o sustenta; o frade locupleta-se á custa do organismo social e alem de o definhar vae-o envenando, o que o cancro não faz, envenena-o com as suas doutrinas, com as suas suggestões, e com a sua educação, senão com o seu fanatismo. (Apoiados).

Com effeito, no seu anceio de dominio, os frades mudaram de processos com as circunstancias e hoje não se soccorrem tanto da fanatização dos espiritos, a não ser na aldeia para o seu recrutamento de serviçaes ir ruazinhas e outros. Já não acenam com os prémios do céu e com a felicidade na outra vida, porque bem sabem que os povos já começaram a comprehender que nesta vida existe uma felicidade ao seu alcance e que ha meios honrados e justos de a alcançar. (Apoiados).

A compensação da felicidade eterna com que se consolava a escravidão e a miseria deste mundo deixou de ser chamariz de algum valor para intelligencias que começam a abrir.

Tambem as penas do inferno, o diabo e as labaredas do seu antro, não passam de espantalho-ridiculo, hoje que os proprios jesuitas - tal foi o texto de um sermão do Quelhas - definem o inferno por um anceio pela felicidade nunca satisfeito. Singela figura de rhetorica que elles já souberam descobrir na outra vida.

Por isso a dominação de hoje vae-se exercendo por outros caminhos - a caridade e a educação. As ordens, e sobretudo os jesuitas?, comprehenderam hoje como podem chegar ao dominio do homem dirigindo-se a estas duas molas reaes de todo o acto chamado voluntario - que é o sentimento e o pensamento. Pelo sentimento fazem a drenagem de milhões. Pela intelligencia fazem a moldagem dos espiritos e affeiçoam-nos ao seu sabor.

A caridade é uma arma poderosa. E uma exploração dos milhões e das sympathias. É o aproveitamento do sentimentalismo das massas menos avançadas em civilização. São fontes de receita alcançada com toda a sorte de pieguices e diminuitivos, as irmãzinhas, as velhinhas, as creancinhas, fontes de receita que vão dar vida prospera e commoda ás Ordens, ao mesmo tempo que recursos para mais vasta acção.

A caridade é a taboleta só por uma parte as receitas vão envernizá-la. O resto, e ninguém poderá nunca saber quanto, o resto é o thesouro de guerra, é o milhar de milhões de francos que constituiam a fortuna immobiliaria das congregações em França ha meia duzia de annos, são os dois milhões de francos que se encontraram, ali, no cofre dos padres assuncionistas quando a justiça lhes fez visita domiciliaria.

E o povo inteiro contribue para essa arma collossal que o vae guerrear. Não é só a beata que em recordação das delicias... devotas que passou tem os cinco tostões fáceis, não é só a mulher sempre pronta, sem maiores reflexões, a attenuar a miseria e a desgraça alheia.

São os proprios liberaes, são os mesmos que me ouvem e que acodem ao mal sem pensarem sequer na efficacia do seu obulo e no desvio da sua esmola.

Com effeito, a caridade congreganista não é somente uma taboleta, é ainda uma falsidade. A enfermagem religiosa é uma enfermagem falsa que importa perigos ao doente. Já o demonstrei sem que houvesse resposta. E aquelles que se enternecem com os carinhos, os afagos das religiosas, sempre contarei o que ha poucos annos vi no hospital geral de Madrid.

Era uma criança dos seus dez annos, esquelética sof-frendo de uma vasta ferida suppurante e saniosa em um dos quadris, que se tratava de passar de uma para outra cama.

Faziam-no um criado e uma criada, n'aquelles trajes immundos que tanto são do agrado dos espanhoes pobres na sua intimidade, e faziam-no tão desastradamente que a pobre criança se desfazia em lagrimas, gemidos e gritos de dor. Cortava o coração de quem, habituado á dor, ainda se não deshabituou da compaixão, antes se esforça por poupar toda a dor inutil aquelles a quem assiste.

Era presença desse espectáculo doloroso estava uma irmã, de mãos enfiadas pelas mangas do habito, que não ha sciencia de desinfecção que tenha conseguido arrancar, e seguindo com os olhos o serviço que os criados faziam. Pois nem um cuidado, nem uma attenção, nem uma recommendação, nem ao menos uma contracção do rosto que denunciasse afflicção ou piedade.

O que estaria pensando aquelle espirito na sua impassibilidade? Provavelmente louvava a Deus Nosso Senhor, e alegrava se por ver a criança soffrer, em nome da salvação eterna. Que artes são as desses homens das ordens que sabem assim converter em indifferença e passividade o coração da mulher, tão mimosamente amoravel, tão cheio de caricias e de amor por tudo que é soffrimento.

E porem pela educação que as ordens religiosas melhor actuam sobre os espiritos e mais graves prejuizos offere-cem a uma sociedade bem constituida: Já é deploravel a instrucção qae ministram. E ver a ruina em que os jesuitas fizeram cair a nossa Universidade e que exigiu a grande reforma pombalina. O Compendio Historico, tantas vezes citado, é fonte de preciosas informações a respeito do estado da Universidade de Coimbra, ao findar o seculo XVII, onde, para citar um só facto, quasi se prohibiam as dissecções anatomicas e se estudavam as bases da medicina pelos livros de Galeno, que viveu dois seculos depois de Christo! É ver ainda o celebre relatorio de