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SESSÃO N.° 78 DE 25 DE AGOSTO DE 1908 13

se ella partiu directamente do espirito de D. Pedro IV, como queria Silva Carvalho.

Seria curiosa essa discussão e talvez ella projectasse alguma luz sobre a figura enygmatica do dador, que, não tendo sido um grande soldado, nem um philosopho, nem um pensador, nem um politico, talvez tivesse tido pela liberdade essa dedicação calculada e astuta que nem pelo facto de ser mecanica e arida deixa de dar certo valor ás personalidades, que a possuem. Amor á liberdade não o teve elle, porque tal amor é apanagio exclusivo das almas que para isso receberam da natureza apropriada estructura. Mas talvez tivesse por ella a dedicação do homem que por systema resolve seguir o caminho melhor, e esse facto seria um contraste para o procedimento condemnavel de quem, para sustentar a guerra em favor do throno da sua filha, procurou pôr em leilão, a troco de dinheiro, o proprio territorio da patria.

Mas o momento não é azado para dissertações dessa ordem.

O que se quer é symbolizar, na approvação do projecto presente, a guerra á reacção clerical e, ao mesmo tempo, o respeito pelas crenças honradas de cada um.

Ainda hontem na Camara dos Pares o Revmo. Patriarcha...

O Sr. Presidente: - Peço ao orador que não se refira ao que se passou na outra Camara. E isso prohibido pelo regimento.

O Orador: - Está bem. Faça V. Exa. de conta que as palavras que eu vou citar foram pronunciadas não pelo Patriarcha, mas pelo espectro fantasmatico e audaz do jesuitismo universal...

Disse-se hontem que Pombal foi um grande estadista, mas que os verdadeiros catholicos não deviam concorrer para o seu monumento.

Vê-se aqui o proposito de obedecer a Roma, fazendo pouco caso das instituições civis do nosso país, visto que reconhecendo-se os serviços de Pombal á patria, elles se pretendem offuscar pelo desrespeito do estadista para com os jesuitas, hoje tão protegidos do Papa e dos cardeaes.

E á velha obrigação em que se considera a maioria dos padres de obedecer á mão insciente e inconstante do Papa, que, do alto do seu sollo arrogante, quer espalhar pelo mundo uma larga sementeira de trevas. Como se isso fosse possivel dezenas de annos depois de o sol do pensamento ter chocado o ovo do determinismo de que saiu, como producto excelso, a theoria da descendencia de Darwin, em que o homem deixou de ser o barro vivificado pelo sopro sagrado de Deus para ser simplesmente, na verdade zoologica, o modesto parente dos antropoides superiores.

Tem-se dito e ainda hontem se disse na Camara dos Pares, a respeito de Pombal, que entre nós o patriotismo andou sempre ligado á fé.

Até D. João III sem duvida.

Mas, então, a fé era o Deus puro e amoravel, que tambem se batia nas batalhas e levantava o seu gesto na tolda dos navios. Deus então era o claro amigo da heroes, como do sol alguém diss", e a religião simples e espontanea era a formula enrista na sua primitiva ingenuidade;

De João III para cá as cousas mudaram porem. Deus passou a ser o tyranno implacavel, devorando os hereticos, nos queimadeiros da inquisição e opprimindo as consciencias na tenaz de bronze da perseguição religiosa. Deus fez-se monstro. A religião tornou-se em theologia. A crença fez-se embuste.

Passaram os tempos em que Vasco da Gama, na tolda do seu barco, vendo o navio a desconjuntar-se pela tromba maritima, bradava: "Rapazes, não tenham receio; é o mar que treme com medo de nós". Tinham chegado os tempos, em que o frade de cruz alçada, no tombadilho das naus, ao menor sinal de borrasca ajoelhava, obrigando todos à prosternarem-se, clamando misericordia! misericordia!.

Foi á debandada, o estiolamento, o massacre, a intoxicação de todas as nossas qualidades viris. As nações do norte caminharam para o protestantismo. Foram mais felizes. Nós ficamos na immobilidade romana como um molusco agarrado á rocha do preconceito, indifferente á vaga que o bate.

Victimas do jesuita e do frade, passámos a ser organismos vencidos, tendo uma vida vegetativa de planta inconsciente, que o furacão acurvara.

O decreto de Aguiar, audacioso e decisivo, procurou contrariar a corrente funesta, e o seu golpe foi tão certeiro que só tarde se appgarão os odios que despertou.

Glorifiquemo-lo por isso. Fosse a ideia sua ou de D. Pedro, pouco importa. Que Aguiar seja apenas um symbolo não faz ao caso. Elevemos esse symbolo á clara luz da historia e façamos com que a sua fronte de liberal, porque é indubitavel que elle o foi, seja dourada pelo sol da immortalidade.

Mas não levemos essa empresa a cabo simplesmente para encanto ,dos nossos olhos. Realizemo-la sobretudo para manutenção das nossas regalias liberaes.

Quer dizer: aproveitemos esse symbolo, que se chama Aguiar, para bater esse monstro que se chama reacção.

É facil bate-la em Portugal. Ella não se apresenta, entre nos, armada da intelligencia e com blindagem scientifica que a proteja. Não. Ella combate pelos processos rudimentares de quem tem odios em logar de designios e raneores em vez de pensamentos.

E a reacção vulgarmente beata e grosseira, espumando e rugindo como um tigre de pupila ensanguentada. Não é de temer. Um simples decreto a porá na ordem no dia em que ás conveniencias monarchicas se sobreponham as conveniencias da liberdade.

A reacção é par-a temer na Allemanha, por exemplo, para onde Roma destacou os mais habilidosos dos seus agentes. Elles, ahi, procuram intrometter-se em toda a parte, deformando, em seu proveito, todas as vezes que podem, as conquistas mais rigidas.

Padres andam mettidos pelas revistas de sciencias na-turaes, procurando um simulacro de conciliação, que illuda os ingenuos, entre a sciencia e o dogma. Ainda ha tres ou quatro annos, o padre Wasmann, num livro que levantou ruido, tentou harmonizar a religião com a theoria da descendencia de Danvin. E quando, naquella pátria do protestantismo e da revolta religiosa, se via - suprema vergonha! - o grande Virchow, que concebeu a pathologia cellular, aconselhar a que se banisse das escolas, como nociva ao Estado, a doutrina darwinista, o padre Wasmanu, astuto e manhoso, procurava, alguns annos depois, fingindo que a acceitava, enredá-la nas malhas tenebrosas da especulação jesuitica.

Ahi a reacção é para dar cuidados, embora se saiba que ha de ficar vencida, porque o pensamento allemão está alto de mais para ser attingido.

Mas em Portugal as cousas correm differentemente. A reacção aqui não tem ideias nem planos que mereçam a honra de estratégia. É uma reacção terra a terra, um pouco matreira, mas sem largueza de vistas. Aconselha o Rei a que pegue numa espada e ella mostra-se disposta a pegar num cacete.

É o velho frade brigão e bulhento, que resurge, com muito sangue na face, mas pallido de ideias no cerebro. Não ha que teme-lo, com a condição de O guerrear sem descanso. É Indispensavel dar-lhe batalha, porque elle avança em numero e com furia, mas a sua derrota será certa se nos soubermos collocar a nossa energia de homens livres em face da sua energia dementada de multidão em baralha.

O Dr. Bombarda fez uma oração erudita e ponderada, cheia de verdade e de justiça. Manifestou a sua opinião de