DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS 1129
tence, assim como respeito as idéas de todos, porque entendo que todos têem em vista fazer o melhor bem ao seu paiz (apoiados).
Pela minha parte, sendo obrigado a votar legalmente n'esta camara, hei de faze-lo a favor d'este ou d'aquelle ministerio, segundo a minha consciencia, esclarecida pela minha rasão juridica, me dictar, que é essa a politica mais conveniente ao meu paiz (apoiados).
Não vou atrás d'estes ou d'aquelles. Não sigo as pessoas; partilho as idéas que ellas promettem sustentar, e que estão hasteadas na minha bandeira; que estão hasteadas no pendão do meu paiz (apoiados).
O governo não creou o programma que nos apresentou; esse programma foi-nos imposto a todos pelo paiz, e é um programma que se não rasga (apoiados) impunemente.
Nas circumstancias actuaes não se deve rejeitar um programma como aquelle que o governo apresentou.
O sr. Custodio Freire: - Não rejeito, aguardo.
O Orador: - O illustre deputado diz que não rejeita, mas censurou- os que votaram a favor da moção, chamando-lhe ministerialismo precoce.
O sr. Custodio Freire: - E muito precoce. Eu já me explico.
O Orador: - Eu tambem lhe poderia chamar opposição precoce, e muito precoce, da parte dos illustres deputados que rejeitaram a moção.
O sr. Custodio Freire: - Não é.
O sr. Presidente: - Esta questão não póde continuar.
O Orador: - As fusões commigo não se fazem emquanto me não convencerem de que tenho andado errado, e por ora não entendo que isto aconteça.
É preciso que os homens, que tenham pertencido a qualquer partido, possam passar com lealdade para outro, porque não podem abandonar aquelle a que pertenciam sem terem para isso fortes rasões politicas (apoiados).
Aceito portanto essa organisação do ministerio, porque respeito a prerogativa da coroa, exercida por parte do cavalheiro em quem a coroa deposita a sua confiança.
Agora o que declaro é que, apresentando-se um programma que me agradava plenamente, porque n'elle se promettiam reformas, economias, simplificação de serviços ellevação do imposto gradualmente, e segundo as forças do paiz, não podia deixar de approva-lo, e não podia deixar de approva-lo principalmente nas circumstancias presentes. Que queriam os nobres deputados? Queriam levantar o ministério que tinha caido? Não podia ser. Queriam comprometter a existencia do actual? Tambem não convinha. Ha negociações pendentes de grande importancia para o paiz, das quaes depende a salvação das nossas finanças, e não podem adiar-se, provocando-se todos os dias crises, e seguindo-se umas ás outras. O nosso estado financeiro póde ser remediado, mas de certo não o é com a repetição de crises.
Approvei a moção, mas limitada simplesmente ao programma, aguardando os factos que o hão de desenvolver, e quando elle se tenha traduzido em factos estou satisfeito.
Quando o ministerio tiver traduzido o seu programma em factos da vida social, commungaremos todos nas mesmas idéas, querendo todos o bem do paiz (apoiados).
Se tomo calor n'esta questão, é porque não admitto que ninguém devasse as minhas intenções, nem accuse o meu ministerialismo de precoce.
Sou empregado de confiança, e creio que no exercicio das minhas funcções nunca deslisei da lealdade com que devem servir OB empregados de confiança (muitos apoiados).
Quando porventura venha a ser necessária a minha exoneração, hei de aceita-la sem me queixar, por isso que exerço um logar de confiança, mas a minha independencia hei de mante-la sempre (apoiados), e tenho direito de exprimir a minha opinião como deputado e como cidadão (apoiados).
Não desejo irritar as questões, sou um orador de pouco folego, mas quando atacam as minhas intenções, quando me querem attribuir cousas que não devo aceitar tenho a força necessária para as repellir. Peço á camará que me desculpe alguma palavra que podesse offender qualquer partido; não era essa a minha intenção, mas unicamente fazer respeitar o sanctuario da minha consciencia.
Approvei o programma, porque não estamos em circumstancias de promover crises sobre crises, fazendo assim periclitar o estado da nossa fazenda, e adiando a resolução de uma questão que tanto nos tem atormentado. Tenho pleno confiança em alguns dos ministros do actual gabinete, por consequencia não podia deixar de votar aquella moção, reduzida a um simples programma, já porque o programma é do paiz, e elle e nos todos havemos de sustenta-lo, já porque no ministério deve haver unidade de pensamento e de execução.
Tenho concluido.
O sr. Santos e Silva: - Visto que a declaração do meu amigo, o sr. Custodio Joaquim Freire, tende a ser elevada às alturas de uma questão politica, por isso que alguns srs. deputados pediram já a palavra para se explicarem, entendi ser do meu dever fazer este requerimento concebido nos seguintes termos:
"Requeiro que, cumprido o regimento, e dando-se por findo este incidente, se passe á ordem do dia."
V. exa., melhor do, que eu, sabe que a palavra dada antes da ordem do dia, em regra é - ou para interesses de localidade, ou para que qualquer deputado faça ver ao governo a necessidade de satisfazer a esta ou aquella indicação do serviço publico, etc., etc.
São ordinariamente assumptos em que não toma parte a camará, excepto quando qualquer questão toma o caracter de interesse geral, porque então, em virtude de um requerimento feito por qualquer deputado, v. exa. consulta a camará se consente que tomem parte na discussão os membros d'esta casa, que se quizerem inscrever.
Ora, como vejo este objecto desviado das verdadeiras regras, que marca o regimento, peço que entremos no caminho regular, por via do meu requerimento.
O sr. Sá Nogueira: - Não o póde fazer.
O Orador: - Posso faze-lo em duas circumstancias, ou porque se trate de um incidente politico, que eu entenda dever terminar, ou porque requeira o cumprimento do regimento. Em qualquer d'estas duas hypotheses eu posso fazer o meu requerimento, e qualifique-o o illustre deputado como quizer.
O meu iliustre amigo, o sr. Custodio Joaquim Freire, estava no seu direito fazendo a sua declaração, S. exa. entendeu que não devia acompanhar os membros d'esta casa que hontem votaram a favor da moção politica ou de confiança dada a este gabinete. Permitta-me porém dizer-lhe á boa paz, que me parece ter ido alem do que devera, quando tentou fazer reparos ao procedimento de alguns cavalheiros que votaram pela moção, reparos que se referiam, creio eu, áquelles que apoiaram a administração passada, porque seria de todo o ponto inconcebivel, que taes reparos se dirigissem aos que sempre guerrearam o ministerio demissionario.
A esses não se póde estranhar, por qualquer forma ou sophisma, que prestassem, desde logo o seu decidido apoio ao actual gabinete. Eu que fiz sempre uma guerra franca, leal, tenaz, implacável, desde o primeiro dia em que ali se sentou o ministerio passado, não posso aceitar epithetos de qualidade alguma.
Nunca abandonei os meus trabalhos de demolição desde o primeiro dia até ao ultimo. Estou satisfeito do que fiz, e em paz com a minha consciencia,
Sr. presidente, o epitheto de ministerialismo precoce não cabe a ninguem. Nem aos que sempre foram adversos á situação passada, nem aos que vieram de outros campos dar o seu apoio ao gabinete nascente. Cada um procedeu, e procede, segundo a sua consciencia (apoiados).