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1434 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

de Serpa: não ha administração publica possivel cuja base seja a desconfiança; escolham cuidadosamente os administradores, mas deixem-lhe depois uma certa liberdade de acção, sem a qual a iniciativa se esteriliza e são irresoluveis os problemas sociaes.
Estou muito habituado a luctar, para me importar com a calumnia; não ha de ser isto, que me ha de impedir, na minha esphera de actividade, de regular, na parte que me compete, as padarias municipaes.
Chamo portanto a attenção do sr. ministro da fazenda para a delicadeza d'esta experiencias sobre os trigos e para a tentativa do estabelecimento das padarias municipaes.
É preciso que nas experiencias que se vão fazer se proceda com maior cautela, e desejo que sejam completas.
Posto isto declaro que intimo o governo a que dentro d'esta sessão legislativa procure resolver este problema agricola. Deixo-lhe toda a liberdade de acção, mas se chegar a fechar a camara sem o ter resolvido, tomar-lhe-hei severas contas.
N'esta parte estou de accordo com o sr. D. José do Saldanha; emquanto ao mais, veremos se s. exa. protege mais a agricultura portugueza do que eu, que por tanto tempo tenho sido apontado como immortal inimigo d'ella; mas que em 1887, em uma noite muito calmosa de verão, sustentarei idéas, que mais tarde foram admittidas como indispensaveis pelo congresso agricola.
Tenho dito.
O sr. Presidente:-Peço aos srs. deputados que restrinjam as suas observações ao projecto em discussão.
O sr. D. José de Saldanha:-Acabo de ouvir as observações de v. exa., o peço á camara que me deixe dizer alguma cousa a esse respeito.
Vozes:-Falle, falle.
O sr. D. José de Saldanha: - Sr. presidente, o sr. ministro da fazenda, na resposta que se dignou dar-me, referiu-se á questão do direito diferencial, e ou ouvi tambem fazer aqui, junto de mim, e em aparte, uma ligeira observação sobre a propriedade das palavras direito diferencial.
Ácerca d'este ponto, direi muito brevemente o seguinte:
Eu vivi gravide parte da minha vida passada, no meio de um sem numero de experiencias em laboratorios chimicos. Consagrei a isso parte da minha existencia, e. sr. presidente, se ha cousa melindrosa n'este mundo, e em que um individuo tenha do se rodear de mil cautelas, para tomar toda a responsabilidade do que faz, é o apresentar ao publico o resultado de uma analyse chimica.
Sabendo eu, pois, as dificuldades que havia em trabalhos d'essa ordem, acautelava-me sempre.
N'esse sentido procurei sempre fazer o que sempre fizeram os antigos chimicos, alchimicos. que não teriam uma sciencia á altura da sciencia actual, mas que foram sempre excessivamente meticulosos nas descripções dos processos, que empregavam, dascripcões essas que de certo concorreram para o grande desenvolvimento que a chimica tem tido nos tempos modernos.
Ora, pela minha parte, applico agora o caso á questão pendente. Desde o momento em que, na exposição que já aqui fiz hoje, eu tive toda a cautela, empreguei todos os meus cuidados em exprimir, o mais claramente que me foi possivel, o meu pensamento a respeito dos direitos sobre os trigos, e sobre as farinhas; desde o momento em que n'essa exposição ou empreguei as palavras direito diferencial, eu appello para a benevolencia e boa fé do sr. ministro da fazenda, e para a benevolencia e boa fé da pessoa, que me dirigiu o aparte, para que, exposta a minha idéa em phrases singelas e claras, s. exa. lhe dêem a designação quizerem, mas não a interpretação que quizerem.
Eu vou mais longe. Não faço questão de palavras, mas faço-a da idéa, e por isso n'esta parte faço um appello a todos os collegas n'esta camara que são interessados nas discussões jornalisticas ou que militam na imprensa, para
que não vão para a imprensa fazer uma questão das palavras direito differencial, na certeza de que, se levantaram a questão, hão de ouvir a resposta tambem na imprensa.
Todos devemos ser cordatos, e principalmente o deve-mos ser, tratando-se da crise agricola.
Sr. presidente, eu estudei allemão durante um tempo bastantemente longo, porque me custou muito a aprender o sufficiente para traduzir, e por vezes me succedeu ter de apresentar ao mestre que eu tinha, um texto de um livro allemão, e declarar-lhe, que não entendia.
O mestre levava o livro para casa, e ao fim de dois ou tres dias, dizia-me que tambem não comprehendia bem o sentido, mas que isso não era para admirar, porque na Allemanha cada escriptor e cada auctor tem a sua idéa, exprime-a pela maneira por que entende que deve ou póde apresental-a, e deixa aos outros o trabalho de conseguir comprehendel-a. (Riso.)
Vem-me á memoria um outro caso, de que não sei se tambem já dei conhecimento á camara em outra occasião.
El-Rei o senhor D. Fernando era muito lido em todos os jornaes politicos, não só nacionaes como estrangeiros.
Em uma dada occasião, recebeu um jornal da Allemanha, que lhe despertou muito a curiosidade, pela materia a que o artigo principal se dedicava, mas de que nada percebeu.
Mandou chamar um mestre de allemão, residente em Lisboa, cavalheiro muito distincto e muito conhecido, e contou-lhe as difficuldades em que se encontrava.
Disse-lhe o senhor D. Fernando que se via seriamente embaraçado, porque não percebia o artigo.
O homem sentou-se, pegou no jornal, esteve uma hora examinando o texto, mas depois levantou-se e disse: "tambem não percebo".
Em seguida saiu.
A traducção e interpretação do artigo levou tres semanas, e no fim d'ellas aquelle professor apresentou-se com o resultado do seu trabalho, declarando todavia não tomar a responsabilidade de que a sua interpretação ou traducção estivesse em completo accordo com o sentido do auctor. (Riso.)
Felizmente o caso agora não é d'esta natureza. Eu expuz o expliquei claramente a minha idéa, e creio que todos a emprehenderam.
E o que se conclue tambem das proprias palavras do sr. ministro da fazenda.
Tambem se appellou para mim, com o fim de eu retirar a minha proposta.
Ora, sr. presidente, desde o momento em que houve a declaração formal, por parte do governo, de que não se encerrará a actual sessão legislativa sem o projecto de lei n.° 45-B ser discutido o votado, eu não tenho duvida em retirar a proposta que apresentei.
De mais a mais a minha proposta tinha duas partes, e a segunda parte fica, a meu ver, attendida tambem na outra proposta, que foi aqui apresentada hoje pelo deputado o sr. João Ferreira Franco Pinto de Castello Branco.
O sr. deputado Augusto Maria Fusehini tambem já se referiu hoje á questão das experiencias, e deu a entender que ha experiencias e experiencias.
Eu concordo com s. exa. n'esta parte, e sirva tambem isto para fazer sentir que, se alguma vez houve experiencias industriaes ou technicas em que todos os individuos implicados n'ellas, ou seus directores, tenham assumido grandes responsabilidades, nunca estas foram talvez tão grandes como o são nas experiencias a que se vae proceder.
Emquanto ao que se passou no congresso agricola e em relação ás idéas que o sr. Augusto Maria Fusehini tem sustentado a respeito da agricultura, eu já dei, quando s. exa. me permittiu que o interrompesse, as explicações que podia e devia dar.
Agora como s. exa. insistiu mais uma vez em que o