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1444 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

uma obra prima da litteratura indiana, o Ramayana, um poema em que tudo é exagerado, tudo fóra das proporções da realidade e da vida, em que homens vivem seiscentos mil annos e em que têem sessenta mil filhos; e lembrou-me o poema, porque no discurso giravam os contos, como alem os annos e os filhos. E do poema acudia-me principalmente á memoria o seguinte episodio:
Perante um rei orgulhoso apresenta-se a segunda pessoa da trindade indiana, Vichnu, sob a fórma humilde de um eremita; o rei pergunta-lhe o que quer o elle; o eremita responde-lhe que quer simplesmente o terreno que possam abranger tres dos seus passos.
"Concedido", responde lhe o rei em tem desdenhoso.
O eremita desdobra-se então n'um gigante incommunsuravel, que com o primeiro passo lhe abrangeu um terço do imperio, com o segundo outro terço, e que com o terceiro lhe levou o resto. Assim foi o discurso do Ilustre deputado; em o primeiro passo interpretou a lei de 16 do julho de 1885; com o segundo esmagou o decreto de 22 de dezembro de 1880; com o terceiro mostra-nos no bolso do sr. Hersent 2.700:000$000 réis, sem mais um real, sem menos um real!
Ha, porém, nos termos da comparação algumas differenças; é que o illustre deputado não é um deus, é um deputado com talento, mas apaixonado, principalmente na demonstração da sua pericia em calculos de probabilidades; é que a interpretação da lei de 16 de 1885 é falsa, e quando o illustre deputado invocava em seu auxilio a auctoridade do relator da lei na camara dos deputados, deveria invocar tambem a do relator na camara dos pares, que, officiamente, não é menor; é que a apreciação do decreto e igualmente falsa; e com relação aos calculos dos lucros do empreiteiro, eu podia dizer a s. exa., que seria bom que esses calculos tivessem sido apresentados na commissão de inquerito, contraditando os calculos que a commissão tinha adoptado como seus. (Apoiados.)
Poderia, é certo, o illustre deputado receiar que os calculos perdessem assim o merito da novidade e a graça do imprevisto: mas o unico merito e a unica graça que podem ter longos calculos é serem verdadeiros e estarem comprovados; (Apoiados.) e nada menos proprio do que o parlamento para se tirarem placida e demoradamente essas provas. (Apoiados.)
Ainda não se usa aqui a pedra, o giz e a esponja, e se os calculos do sr. Pedro Victor não fossem refutados como foram, isso nada admiraria, porque se comprehende muito bem que, calculos que levaram longos mezes a fazer, não possam ser refutados no momento immediato áquelle em que appareceram. (Apoiados.)
Foram todavia os calculos do sr. Pedro Victor refutados pelo sr. Espregueira n'uma longa e minuciosa analyse, limitar-me-hei por isso a expender sobre elles duas breves considerações.
Por duas fórmas se calcularam os lucros do empreiteiro Hersent, uma na imprensa, outra aqui. Calcularam-se na imprensa, quando não se conheciam todos os elementos da questão, suppondo-se que a substituição dos muros de alicerce continuo por muros de alicerce em pilares e arcadas era em todos os muros e em toda a sua extensão, o que não é exacto; calcularam-se aqui, suppondo se, como ria realidade acontece, que essa substituição se fazia só em parte dos muros; e por ambas as fórmas se chegaram a apurar grandes lucros para o empreiteiro, com a singularidade de que, pela segunda fórma, que devia dar lucros menores, apparecem pelo contrario maiores!
Com effeito o lucro resulta de se substituirem alicerces continuos, ou de enrocamento, por alicerces em pilares o arcadas, sendo por isso claro que se proporciona A grandeza da substituição. Pois suppõem-n'a em todos os muros e apparecem-lhes 2.100:000$000 réis de lucro; suppõem-na, como acontece, só em parte, e apparecem réis 2.700:000$000! Isto demonstra que não é dos elementos
do calculo, taes quaes os fornece a natureza das cousas, que saem os resultados, mas que são os resultados que andam á procura dos elementos, e que os torcem e violentam ato significarem o que não significariam mais despreoccupadamente interpretados. (Apoiados.}
Alem d'isto, se os calculos do sr. Pedro Victor são verdadeiros, conclue-se que as obras se podiam fazer com 8.100:000$000 até 9.000:000$000 réis, o então o partido que o illustre deputado representa illudia o paiz, quando orçava constantemente essas obras, e com alicerces sobre pilares e abobadas, que, para onde se admittiram, eram os previstos no plano da commissão de 1883, era réis 10.800:000$000; quando dizia que essa quantia era indispensavel, e que, ainda assim, só um empreiteiro, como o sr. Hersent, poderia por esse preço e com as demais condições da lei realisar tal empreitada. (Apoiados.) Era um milagre que as condições do empreiteiro explicavam, dizia na sessão de 10 de julho de 1880 o sr. Almeida Pinheiro. (Apoiados.)
O illustre deputado disse dos lucros do empreiteiro: são lucros fabulosos. Eu acceito a declaração. Os calculos não são certos; mas o adjectivo fabulosos applicado aos calculos e aos lucros e verdadeiro. Fabula bem tecida, bem architectada; mas fabula; é que ha no illustre deputado uma phantasia tão arrojada, como a do auctor do poema de que fallei; e d'essa phantasia hei de eu mostrar as provas, porque o discurso do sr. Pedro Victor e todo architectado sobre possibilidades que, rapidamente, sem demonstração, se lhe transformam em factos.
Poema optimista emquanto o illustre deputado calculou os lucros do empreiteiro Hersent, e essa parte impressionou-me agradavelmente, porque me fez lembrar o tempo em que lia litteratura, em que até ás vezes a fazia. Poema, mas sombrio, sem luz e sem espirito de justiça, quando o illustre deputado disse que houve um ministro em Portugal que encarregou um engenheiro de desviar concorrentes por meio de instrucções pouco verdadeiras, e que esse engenheiro acceitára essa missão, maguado talvez, mas por disciplina, porque era militar! quando avaliou pelo mesmo modo outros factos, deduzindo d'elles intenções analogas; quando disse que as consultas com que a commissão especial das obras do porto de Lisboa e ajunta consultiva de obras publicas responderam á portaria de 16 de dezembro de 1887 eram um attestado de vita et moribus passado ao sr. ministro das obras publicas, terminando por perguntar que valor podiam ter!
Esta parte do discurso do illustre deputado tornou-me nervoso, incommodou-me, doeu-me, como me doe sempre uma injustiça, feita seja a quem for; tive de reprimir-me para não pedir então a palavra, preterindo os meus collegas da maioria que são engenheiros e a quem a resposta pertencia naturalmente; porque eu, que entrei pela primeira vez n'esta camara em 1879, trazido aqui, não pelo favor dos chefes do meu partido, mas pelas vivas sympathias que tinham dispertado na minha terra natal e nas povoações circumvizinhas a minha fé e o meu enthusiasmo politico; (Apoiados.) que vivo isolado, e entregando aos estudos da minha cadeira o tempo que me não tiram os trabalhos do parlamento; que não posso por isso encontrar me junto dos ministros nos dias dos applausos unanimes e das festas imperturbadas, hei de encontrar me sempre junto d'aquelles que forem victimas de uma flagrante e clamorosa injustiça. (Muitos apoiados.)
E permitia-me esse lado da camara que lhe diga, que se um dia algum dos seus homens publicos soffrer uma guerra como esta, sem provas immediatas, evidentes e irrecusaveis, eu, a quem v. exas. em conversação amigavel dizem ás vezes que sou um dos maiores facciosos do meu partido, esqueccer-me-hei do meu facciosismo e do meu partido, para só me lembrar que todos têem direito a que se lhes faça justiça. (Muitos apoiados.)