1184 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
cuja importancia total é de 384.000:000$000 réis. Por outra fórma, os 50.000:000$000 reaes em trinta annos presupõem em titulos de 3 por cento um capital real de réis 350.000:000$000 réis ou 880.000:000$000 réis nominaes.
Ahi tem o nobre deputado a importancia dos encargos que os melhoramentos dos seus amigos deram ao paiz, calculando pelo seu methodo.
Sr. Presidente, eu respeito muito os talentos dos nobres deputados, mas entendo que os calculos que s. exas. Fizeram não servem para se apreciar por elles uma operação financeira como esta, e conseguintemente permittam-me s. exas. Que ponha ponto n'esta parte das minhas observações.
S. exa. clamou tambem contra este systema de amortisação.
Já disse porém que esta amortisação não é similhante á de que se trata a lei de 1845, que teve de ser suspensa pelas administrações subsequentes.
De mais, s. exa. sabe perfeitamente que a amortisação n'estes termos é a usada por differentes cidades da Allemanha e da França. Por conseguinte não se póde dizer que este principio seja de tal maneira mau que nos devamos envergonhar de o pôr em pratica (apoiados.)
S. exa. tambem nos fez um calculo, com relação ao supprimento das 517:000 libras, em que pretendeu mostrar que saia a 86 por cento.
Ora, sr. Presidente, a arthmetica não tem complacencias d'estas, e eu vou demonstrar que as taes 517:000 libras, calculando-se mesmo como calculou o nobre deputado, dão só 68 por cento e não 86, no que ha a differença para mais de 20 por cento.
O calculo é simples:
As 517:240 libras foram tomadas em 23 de Abril e a quatro mezes; mas supponhamos que esta auctorisação não seja concedida, e que aquellas 517:240 libras sejam logo exigidas, teremos:
£ 517:240 a 10% (dois mezes) dão 1,46% ou £ 7:551
Bonificação, 1% sobre £ 5.750:000 dá 66,6% ou £ 57:500
Total.............. 68,06 ou £ 65:051
Permitta-me agora v. exa. e a camara que eu me demore ainda alguns instantes com a palavra para levantar umas phrases de tal ou qual censura que o sr. Corvo lançou sobre o parecer da commissão, na parte em que s. exa. julgava ver uma definição do credito.
(Entrou na sala o sr. Deputado Dias Ferreira.)
vejo entrar o meu amigo o sr. Dias Ferreira e devo, cumprindo o que ha pouco prometti, levantar algumas phrases de s. exa. Serei breve porém, pois que isso traz pouca luz ao debate. S. exa. declarou no principio do seu eloquente discurso, que não fazia exames retrospectivos, mas apezae d'isso s. exa., dirigindo-se á commissão de fazenda, remontou até 1843, e pretendeu mesmo impor-lhe a responsabilidade de actos e opiniões anteriores á sua formação. Já se vê que s. exa. descreveu a historia com documentos que ainda não existiam. É pouco justo, e pouco historico.
Mas as palavras que mais me impressionaram foram aquellas em que s. exa., fazendo referencia ao parecer da commissão, disse que havia de rasgar um a um os considerados d'esse parecer, para mostrar que o contrato era mau.
Quando ouvi aquillo, julguei que a commissão is assistir ao completo aniquilamento das rasões que tinha apresentado no seu parecer, pois que s. exa tem cabedal em sciencia e talentos para tanto. Mas infelizmente no fim do discurso do nobre deputado, perguntei a mim mesmo o que era o que o illustre orador tinha destruido do parecer da commissão? Nada.
O sr. Dias Ferreira: - Eu não disse ia rasgar um a um os considerandos do parecer da commissão, quem era eu para isso? O que disse foi que ia rasgar um a um os considerandos de uma sentença que se tinha pronunciado contra mim, por eu não ter satisfeito, dizia-se, ao que a situação exigira de mim, e eu era incapaz de ter a vaidade de rasgar um a um os considerandos do parecer da commissão.
O Orador: - Julguei realmente te-lo ouvido á palavra fluente do meu nobre collega e te-lo até lido no e~xtrato do discurso de s. exa. Vejo porém que me enganei, que o sentido do ouvido e o da vista me enganaram, pois que eu preso muito a palavra de s. exa e ponho a sua declaração acima de tudo.
Mas o meu talentoso collega provavelmente ha de lembrar-se que, avaliando o procedimento da commissão de fazenda, asseverou que esta commissão tinha feito grandes progressos desde o anno passado para cá; que este anno achará ser absolutamente necessario e indisoensavel occorrer á divida fluctuante, emquanto, porém, no anno passado defendia oppostas idéas.
Ora, é necessario que eu diga com toda a franqueza a v. exa. e á camara, e já o disse ao sr. Dias Ferreira, a rasão por que o anno passado s. exa. achou tanta relutancia nos que eram verdadeiros amigos, entre elles estava eu, em acceitarem algumas das medidas apresentadas por s. exa. e a rasão por que s. exa. passou pelo desgosto de ver que algumas lhe foram aceitas. Foi porque, francamente o disse e repito hoje, s. exa. pelo caminho que ia não ia bem, não seguia resoluto os preceitos do programma em nome do qual s. exa. parecia ter subido ao poder. E não era possivel que tivessem vindo ao parlamento homens que quizessem estar bem com a sua consciencia, e que votassem medidas restrictas, parciaes, e por isso injustas e impoliticas, sem que o governo tivesse feito tudo aquillo a que se havia promettido, acabando... não direi com todos os esbanjamentos... mas com todas as superfetações que entumesciam o nosso orçamento, e sugavam a seiva d'esta arvore do estado que se chama a fazenda publica.
Por consequencia a commissão... não digo bem, alguns d'aquelles, que este anno fazem parte da commissão de fazenda, entenderam que de accordo com a sua consciencia e em conformidade dos principios da lealdade politica para com os seus commitentes, deviam compellir por todos os meios ao seu alcance o nobre ministro que se sentava pela primeira vez nos conselhos da corôa a seguir o caminho d'onde não devêra ter-se desviado.
E eu digo isto tanto mais desassombradamente que não tenho receio de repetir em publico o que tenho dito a s. exa. em particular. S. exa., procedendo como procedeu, andou certamente em harmonia com a sua consciencia, mas a verdade é que commetteu um erro, e o tempo lhe mostrará que foi gravissimo (apoiados).
S. exa. no seu discurso pareceu mostrar que sentia muito que alguns dos nobres oradores o tivessem ligado a este ministerio. Muito bem. S. exa. afastava-se de nós, não digo com asco, mas como podia afastar-se de condemnados. Que admira que nem todos pensassem assim?
É possivel, sr. presidente, que estejam aqui os condemnados do passado e do presente, mas é convicção minha que os absolvidos do futurõ tambem estão aqui entre nós.
S. exa. junta-se ao passado e talvez ao presente, e aos interesses feridos para nos condemnar; nós aconchegâmo-nos ás nossas consciencias, approximâmo-nos do futuro, abraçâmo-nos ao nosso dever, que nos hão de absolver(apoiados.)
S. exa. admirou-se de que este emprestimo fosse defendido pelo sr. ministro da fazenda, não obstante concordarem todos em que o emprestimo era mau. Pois eu, para sustentar esta posição desagradavel, que s. exa. teve a bondade de tornar tão saliente, não precisava de outra auctoridade senão da do sr. Dias Ferreira.
Quando era ministro da fazenda, dizia s. exa. no seu relatorio de 23 de 1868: "Vendo-se o governo na necessidade de negociar quasi sempre em condições desfavoraveis..."