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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

Leu-se na mesa.

O sr. Presidente: — Os srs. deputados que approvam o capitulo 3.°, tenham a bondade de se levantar. Foi approvado.

O sr. Presidente: — Passa-se ao Capitulo 4.° Encargos diversos e classes

inactivas........................... 621:529$950

O sr. Mariano de Carvalho: — Peço a palavra.

O sr. Presidente: — Tem a palavra.

O sr. Mariano de Carvalho: — E preciso primeiro que tudo, que eu revelo á camara o ao paiz um facto incrivel que acaba de dar-se, porque é a negação do decoro do governo e da maioria.

Emquanto a camara apertava a mão ao sr. Dias Ferreira para o felicitar pelo brilhantissimo discurso que acabava de pronunciar, votava-se de surpreza, e sem que ninguem ouvisse, o capitulo 3.° do orçamento do ministerio da fazenda. (Apoiados.)

Vozes: — Isso não é exacto.

O sr. Presidente: — Depois de fallar o sr. Dias Ferreira, não havia mais ninguem inscripto, e eu declarei á camara que ía votar-se o capitulo 3.°

O Orador: — Acho boa rasão. Não havia nenhum deputado inscripto, como se algum deputado se podesse inscrever quando o sr. ministro da fazenda vergava sob o peso das maiores accusações, (Apoiados.) quando o sr. Lopo Vaz tinha obrigação de apresentar os documentos que provem as accusações que fez ao sr. Dias Ferreira! (Apoiados.)

(Sussurro.)

O sr. Presidente: — Peço ordem.

O Orador: — Pelo decoro e pela dignidade da maioria e do governo, e pela dignidade do sr. Lopo Vaz, nenhum de nós podia pedir a palavra. (Muitos apoiados.)

Pois saiba a camara que, emquanto reinava a agitação na assembléa para felicitar o sr. Dias Ferreira, o governo dava a ultima enxadada em sua cova.

O sr. Visconde de Moreira de Rey: — Pois votou-se alguma cousa?

Vozes: — Se se votou, ninguem sabe o que foi.

(Sussurro.)

O Orador: — Ouço agora no meio d'esta confusão em que está a assembléa, a voz de um deputado da maioria a protestar contra um facto d'esta ordem.

Uma VOZ: — Ha muitos deputados da maioria que tambem não ouviram.

O sr. Presidente: — Peço aos srs. deputados que tomem os seus logares, porque de outra maneira não posso manter a ordem. (Apoiados.)

O Orador: — Os factos fallam mais alto do que eu. É o sr. Freitas e Oliveira, deputado insuspeito para a maioria, que acaba de declarar que a maioria votou sem saber o que se votava.

O sr. Freitas Oliveira: — Peço perdão ao illustre deputado. O que eu digo é que não ouvi propor similhante cousa á votação.

O Orador: — Votou-se sem se ouvir o que se votava...

O sr. Presidente: — Peço ao sr. deputado que me permitta interrompei-o.

O facto passou-se do seguinte modo.

Quando o sr. Dias Ferreira terminou o seu discurso, eu disso: «Não está mais ninguem inscripto. Vae ler-se o capitulo 3º»

Foi o sr. segundo secretario Ferreira de Mesquita, que estava fazendo as vezes do primeiro, o qual se retirara da mesa para tomar notas do discurso do sr. Dias Ferreira, a fim de na qualidade de relator defender o parecer da commissão de fazenda m fosse impugnado, digo, foi o sr. Ferreira de Mesquita quem leu o capitulo 3.°, tendo eu previamente annunciado á camara, que ía ler-se. (Apoiados. — Vozes: — É exacto.) Não sou responsavel por se

acharem alguns srs. deputados distrahidos. (Muitos apoiados.)

Leu-se, pois, o capitulo e eu disse: «Os srs. deputados que approvam o capitulo 3.° tenham a bondade do se levantar. »

O capitulo foi approvado. (Apoiados.)

Não posso, repito, ser responsavel por a camara não estar com a devida attenção. (Muitos apoiados.)

Agora está em discussão o capitulo 4.°, que se inscreva Encargos diversos e classes inactivas.

Os srs. deputados podem sobre este capitulo, não obstante contrariarem o regimento, repetir a generalidade, como alguns têem feito na discussão da especialidade. (Apoiados.)

O Orador: — Não peço a palavra sobre o capitulo 4.°, por saber que seria ouvido com maxima indifferença tanto pelo sr. ministro da fazenda, que ficou silencioso perante o brilhante discurso do sr. Dias Ferreira, como pela maioria, a ponto que nem s. ex.ª, nem o sr. relator, nem, emfim, nenhum dos membros da maioria, se levantou para defender o parecer. (Apoiados do lado esquerdo.)

O sr. Ministro da Fazenda: — Peço a palavra.

O Orador: — Ora ainda bem que pediu a palavra o sr. ministro da fazenda! (Apoiados do lado da opposiçâo e grande susurro na sala.)

s O sr. Presidente (tocando a campainha): — Peço que se preste a devida attenção a quem estiver fallando, quer pertença a um ou a outro lado da camara, (Apoiados.) e que haja ordem...

O sr. Pinheiro Chagas: — E votações serias.

O sr. Presidente (com vehemencia): — Permitta-me o sr. deputado, que lhe devolva a expressão que acaba do proferir. (Muitos apoiados.)

A votação foi perfeitamente seria. (Repetidos apoiados.)

(Trocam-se varios apartes entre alguns srs. deputados.)

O sr. Presidente: — Tem a palavra o sr. ministro da fazenda.

(Vários srs. deputados fallam ao mesmo tempo e ha grande agitação na assembléa.)

O sr. Presidente: — Poço ordem, e n'este momento não consinto que ninguem falle senão o sr. ministro da fazenda, a quem concedi a palavra. (Apoiados.) Pôde s. ex.ª fazer uso da palavra.

O sr. Ministro da Fazenda (Antonio de Serpa):_

Quando os srs. deputados me deixarem fallar eu usarei da palavra.

(Pausa.)

Não me compete entrar n'esta questão do regimento, porque sou estranho a esta casa; não tenho a honra de ser membro d'ella.

Pedi a palavra quando um illustre deputado da opposiçâo se levantava espantado de que, estando eu vergando sob o poso do brilhante discurso do sr. Dias Ferreira, tivesse ficado silencioso.

O illustre deputado, o sr. Dias Ferreira, acaba do fazer um brilhantissimo discurso defendendo a administração de que fez parte.

S. ex.ª começou censurando que em logar de se discutir o capitulo do orçamento, se discutisse a historia dos ultimos annos.

• Não censuro s. ex.ª Não o acho em contradicção n'este ponto. Foi accusado, defendeu-se e fez muito bem. Mas que tenho eu com isso? (Apoiados.)

O illustre deputado quer atribuir ao governo as opiniões que outro illustre membro d'esta casa, e meu amigo, emittiu no final da sessão precedente ácerca da sua gerencia,

Ora eu creio que não estão rotas as boas relações entro o governo e a maioria, entre o governo e o partido regenerador, do que faz parte, porque ha um, ou mais, dos seus membros que pensam de um modo differente ácerca da administração do illustre deputado. (Apoiados.)

S. ex.ª merece-me muitissima confiança, mas permitta,

Sessão de 30 de abril de 1879