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1594 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

Não farei, pois, é retrato politico de Calonne; direi simplesmente, que era o ministro cortezão, por excellencia, habil, eloquente, conhecendo o valor de uma mesura feita a tempo e a importancia politica de uma venia na occasião apropriada! Demais, Calonne era faustoso, perdulario, dissipado, quer dizer, tinha todos os predicados de bom ministro da fazenda para uma côrte, que só desejava encontrar e apenas apreciava nos seus conselheiros a sufficiente malleabilidade para obtemperarem a todas as suas velleidades e satisfazerem todos os seus caprichos!
Parece-me que o illustre relator da commissão está verdadeiramente satisfeito com a pagina de historia que estou recordando á camara; mas quem sabe? Talvez se não mostre tão satisfeito quando ouvir a ultima palavra d'esta mesma pagina!
Calonne tomou, conforme eu dizia, posse do ministerio, levantando logo como maxima governativa o seguinte proceito: - «Se a riqueza de um paiz e constituida pela riqueza dos particulares, não basta restaurar as finanças do estado; e mister igualmente cuidar das finanças dos mais fieis servidores do Rei! »
E então foi uma grande festa a vida da côrte e a administração das finanças publicas.
Os presentes de milhões, as dadivas principescas succediam-se sem interrupção no haver do thesouro.
Saint-Cloud foi comprado para a Rainha; o Rambouillet foi comprado para o Rei.
O principe Carlos, duque d'Artois, tambem não foi esquecido. Teve cincoenta milhões de francos!
E as aias?
Era preciso dotal-as!
Por isso a Lamballe recebeu o seu quinhão.
E os favoritos?
E Lauzun?
E Luxemburg?
E a interessante Polignac?
E as modistas da Rainha?
E a sua cabelleireira ?
Calonne não tinha mãos a medir. Dinheiro! muito dinheiro! era o que lhe pedia a côrte, e elle obedecia! O paiz approximava-se a passos largos da bancarota.
Que importava?
Acima de tudo estava a vontade da rainha, que era nervosa, que tinha ataques, e que os ministros temiam pelos seus arrebatamentos!
Por isso quanto menos havia, mais o estado tinha necessidade de empenhar-se! Mas não ha bem que se não acabe; e estas bacchanaes da administração de Calonne não podiam deixar de abrir mais o abysmo que em volta do throno se tinha cavado!
Chegou por isso, como era de esperar, o momento em que a côrte teve, embora com o desespero n'alma, de despedir o seu favorito, para chamar novamente os homens que em tempo tinham querido salval-a mas que ella abandonara, ou antes expulsára traiçoeiramente!
Veiu outra vez Necker. Era, porém, já tarde. O illustre financeiro genebrino não podia fazer com que a onda, impulsionada pelos successos do ultimo quartel do seculo XVIII, entrasse no seu primitivo leito.
Um a um foram successivamente caindo, como frageis anteparos, todos os esforços de resistencia que podiam oppor-se á revolução!
Foram convocados os notaveis, e os notaveis desappareceram sem nada terem podido resolver!
Vieram os estados geraes, e os estados geraes á voz de Mirabeau e de Sieyés, um fidalgo e um padre, converteram-se em assembléa nacional, annullando de facto as duas ordens privilegiadas, o clero e a nobreza! Veiu depois a insurreição geral, veiu 1789, veiu a queda da Bastilha, veiu a convenção, veiu 1793, e aqui paro..., mas não sem pedir a camara que medite nos tristes acontecimentos que estas ultimas datas encerram. Lembrem-se os que me escutam, de que eu não estou aqui senão animado do sincero desejo de que o meu paiz ao menos se possa salvar das catastrophes que impensadamente e de coração leve todos lhe estão preparando!
Se eu apenas attendesse ao triumpho do meu partido, ainda que esse triumpho tivesse de o festejar sobre as ruinas da nossa querida patria, bemdiria o momento em que esta camara votasse este e muitos outros projector n'este sentido. E sabem v. exas. o motivo porque? Porque mais rasão do ser teria então a minha propaganda, e a minha estada n'este parlamento mais justificada seria. Maior echo encontrariam as minhas palavras no paiz, porque muitos, que ainda são hoje indifferentes, haviam de se desilludir.
Mas não! Não serei eu que tal deseje! Outros, se quizerem, que assumam este ingrato papel para quem sente palpitar um coração portuguez! Não serei eu nunca que folgue com as desgraças que a imprevidencia criminosa dos meus adversarios traga a Portugal, embora sobre taes desgraças podesse levantar-se triumphante o meu partido!
Este é o meu patriotismo, e pouco me importa ver monos por esse motivo, eu e os meus amigos, calumniados no mundo official em que vos viveis, e que pouco comprehende a effusão d'estes sentimentos generosos!
Mas ao menos o vosso interesse devia levar-nos a escutar os presagos vaticinios que por toda a parte se ouvem, como se fossem os precursores de alguma grande desdita!
Ministros do Rei! Não tremeis, com effeito, diante da coincidencia entre a historia actual da monarchia portugueza, e os ultimos dias da dynastia dos Capetos, que ha pouco vos apontei, coincidencia, que até por um sinistro capricho do acaso se estende a uma quasi identidade de nomes proprios?!...
Deputados monarchicos, que ides votar dentro em poucos minutos o projecto que estamos discutindo! Não estremeceis diante da responsabilidade que possa trazer-vos o voto que estaes prestes a dar?!...
Sr. presidente e srs. deputados de todos os lados da camara! Lembrae-vos que um homem illustre d'este paiz, que não pertence ao meu partido, mas ao vosso, o sr. conde do Casal Ribeiro, uma vez, em tempos que lhe deixavam mais liberdade a sua palavra eloquentissima, proferiu do alto da tribuna portugueza estas palavras fatidicas: «Tremei, poderes do estado, a justiça do povo e implacavel, porque não prescreve».
Pois bem! Ao terminar, eu direi, parodiando esta phrase que, para vos, deve ser insuspeita: «Tremei, ministros da coroa, tremei deputados monarchicos, a justiça do povo é implacavel, porque jamais prescreve!»
Tenho dito.

Rectificação

Na sessão de 13 do corrente, pag. 1546, col. 2.ª, lin. 48, onde se diz «que devem administrar sem que pretenda convencer o paiz» deve dizer-se «que devem administrar, ou que pretenda convencer o paiz».

Redactor = S. Rego.