SESSÃO DE l1 DE MAIO DE 1888 1561
mo quem souber tratar dos seus interesses, deve ir estudar com a companhia, porque tem lá ainda muito que aprender. (Apoiados.)
A companhia real dos caminhos de ferro queria remodelar tudo, por cousa nenhuma, e, como s. exa. perguntei a mim mesmo: «Onde estará o gato?»
Eu não sou engenheiro para entrar a fundo em questões technicas, e, sem se ser engenheiro, não se póde entrar n'esta discussão metaphysica e casuistica de projectos definitivos, projectos mais ou menos completos, etc., etc.
Nas questões technicas já o sr. ministro das obras publicas disse: que tem por si todas as estações officiaes e escusâmos de estar a pensar em combatel-o, quando s. exa. está defendido por esse reducto inexpugnavel! Tratei, pois, de indagar por outros lados, e comecei a convencer me de que a companhia real dos, caminhos do ferro tinha feito um bello negocio!
O sr. Villaça, meu illustre amigo, e nosso distinctissimo collega, demorou-se tambem na ultima sessão em defender o sr. ministro das obras publicas n'este ponto, e s. exa. tomando então o ar mais ingenuo e insinuante que teve durante todo o seu discurso, (riso) começou por dizer:
«Mas reparem em todas as obras que a companhia real dos caminhos de ferro tomou sobre si o encargo de fazer: linha de Cascaes, 1.100:000$000 réis; linha urbana réis 2.700:000$000; aterro e caneiro, 2.200:000$000; total 6.000:000$000 réis!
Que valores tem a companhia de arrancar ao Tejo para facer face a estes 60.000:000$000 réis!»
Estes numeros não se coadunavam inteiramente com aquelles que eu tinha obtido, e note v. exa., parte d'elles constantes de um documento que é publico, o relatorio do conselho de administração e o parecer do conselho fiscal apresentado em junho de 1887 á assembleia geral da companhia real dos caminhos de ferro portuguezes.
Mas eu illudido pelo tal ar ingenuo, e mais que nunca insinuante, do sr. Villaça, tomei a liberdade de perguntar tambem ingenuamente a s. exa. d'onde lhe tinham vindo esses numeros? S. exa. a principio quiz recusar-se.
Vi me, pois, obrigado a declarar-lhe, que se esse era o seu segredo, não pretendia ser indiscreto, (Riso) confessando a final o sr. Villaça, um pouco confuso, que lhe tinham vindo da companhia real.
Pois isto (o relatorio) veiu tambem da companhia, mas é uma informação para todos nós, e para o paiz se quizer consultal-o. Ora sabe v. exa. o que se lê n'esse relatorio a pag. 39? E agora peço a attenção da camara porque realmente parece que chegou o momento de se saber aonde está o gato!
Diz-se a pag. 39:
Com os primeiros (Duparchy & Bartissol) conseguiu já o vosso conselho chegar a accordo, contratando toda a empreitada da linha subterranea, estação central, e a parte do ramal de Cascaes acima referida, pela quantia de réis 2.800:000$000.»
Já vê pois, o ar. Villaça que n'um documento official em que seguramente os directores da companhia real dos caminhos de ferro portuguezes não vinham mentir, nem enganar os seus accionistas, se diz, que o empreiteiro Bartissol tomou por 2 800:000$000 réis a construcção da linha de Cascaes, da linha urbana e estação central.
Entre 2.800:000$000 réis como consta d'este documento, e os 3.800:000$000 réis que s. exa. tinha calculado, e este era o seu segredo, ha apenas uma differença de 1.000:000$000 réis. (Apoiados.) Rico deve estar o paiz, em oiro devemos nadar para em calculos feitos por um engenheiro distincto, de um momento para o outro se lhe notar um erro de 1.000:000$000 réis. Não é por certo á leviandade do engenheiro, mas á pouca importancia de similhante erro, que elle deve ser attribuido!
Lembra-me de uma zarzuella que vi ha annos - Robinson- em que um capitão de navios contava que na America os dollars andavam pelo ar; para se ficar rico bastava só abrir e fechar a mão e metter no bolso. (Riso.)
Parece que estamos n'uma situação, similhante. Quando vemos engenheiros distinctissimos enganarem-se nos seus calculos simplesmente em differenças de l.000:000$000, réis, passando de 2.800:000$000 réis para 3.800:000$000 réis, havemos de concordar que o dinheiro está muito depreciado no nosso paiz. Ou então que os engenheiros em se mettendo a calcular são terriveis; porque 1.000:000$000 réis para elles é cousa de pouca monta. (Riso.)
Torno a repetir, este relatorio é um documento official. O que consta d'elle, é que isto custa 2.800:000$000 réis.
(Interrupção.)
Deixe-me v. exa. continuar as minhas considerações e talvez ainda consiga satisfazel-o mais.
Mas para ser exacto devo acrescentar, que as expropriações, e dotação de mobilia e utensilios das estações, ficaram a cargo da companhia.
Mas, segundo as minhas informações, isso pouco avolumara as despezas que vamos calculando.
A respeito das expropriações para o tunnel ninguem recebeu cinco réis. Se a obra é subterranea não se pagam expropriações.
Portanto quaes foram as expropriações que ficaram a cargo da companhia?
Os edificios que adquiriu no largo de Camões para no logar d'elles se construir a estação central, e os terrenos precisos desde Belem até Cascaes. Se v. exa., sr. presidente, já foi a Cascaes, e não, lhe digo que volte lá, porque diz o dictado: a Cascaes uma vez, e nunca mais, (Riso.) mas se já lá foi, provavelmente teve occasião de ver, que as expropriações á beira mar, por onde segue a directriz do caminho de ferro, não me parece que arruinasssm ninguem e muito menos a patriotica companhia real dos caminhos de ferro portuguezes. (Apoiados.) Mas importam em algumas centenas de contos?
Talvez, mas é preciso trazer para aqui uma consideração que não vem n'este relatorio, de que tenho conhecimento, e que me parece não deixa de ter algum peso.
V. exa. comprehende bom que não se faz um tunnel sem se tirar terra. Da tunnel que se está fazendo entre a praça dos Restauradores e os Arcos das Aguas Livres está saindo muita terra. Todos os dias vemos os carros que a conduzem para as obras do porto de Lisboa. Esta terra foi vendida ao sr. Hersent por uma determinada quantia, e está sendo por elle utilisada para se fazerem os diversos aterros necessarios para as rectificações dos caes, etc. Sabe v. exa. quanto a pobre companhia recebe por cada metro cubico d'aquella abençoada terra? 200 réis. Não sei quantos metros cubicos sairão do tunnel; mas como é para duas vias ha de ter as largas dimensões que a sua applicação requer. Qualquer que seja porém, o numero de metros v. exa. concordará em que subirá a alguns milhares.
Uma Voz: - Póde dizer alguns milhões.. (Apoiados.)
O Orador: - Dizem-me que são alguns milhões. Já v. exas. vêem que eu em calculos é sempre para baixo, e isto não faz senão bem ao tom geral do meu discurso.
Mas, se são milhões de metros cubicos de terra vendidos a 200 réis cada um, a pobre companhia real conseguirá a capital necessario para poder pagar as expropriações das casas, que no centro de Lisboa têem de ser derruidas para ella fazer a sua estação. (Apoiados.)
Mas esta parte é para mim um pouco indeterminada, confesso-o; no entanto aquelles l.000:000$000 réis de differença que eu acho noa calculos do sr. Villaça, não póde de fórma alguma ser justificada. (Apoiados.)
Mas onde eu não concordo de fórma alguma como s. exa. nas obras relativas ao aterro e ao caneiro.
Ora, vejâmos se temos tambem alguns elementos officiaes de calculo para rectificar as avaliações do sr. Villaça. Parece-me que temos.
Póde dizer-se que esta parte das obras estava dividida