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1564 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

a propriedade d'aquillo que é meu, unicamente sujeita ao posso, quero e mando do um governo, que nem tivesse parlamento, mesmo como elle é, nem liberdade de imprensa, mesmo como ella se pratica n'este paiz, que póde conter muitissimos abusos, mas que até hoje, em minha opinião, tem sido um dos grandes elementos de fiscalisação governativa, (Apoiados.) e até de fiscalisação parlamentar, que conheço e sei apreciar.( Vozes: - Muito bem.)

E agora, depois de ter feito esta referencia ás palavras do sr. ministro das obras publicas, simplesmente como um protesto contra doutrinas que julgo subversivas, e prejudiciaes para a civilisação e perigosas para o paiz, referir-me-hei ao meu illustre collega e amigo o sr. Frederico Laranjo, começando por lastimar a sua falta de memoria. S. exa. está perdido de memoria! E vou demonstrar-lh'o.

S. exa. o outro dia, defendendo o sr. Emygdio Navarro, dizia que se fosse membro de uma opposição, e se levantasse uma campanha, como se levantou há pouco contra o sr. ministro das obras publicas, s. exa., ainda que membro da opposição, estaria do lado do ministro, contra aquelles que assim o acoutassem.

Disse isto ou não, s. exa.?

O sr. Laranjo: - Sim senhor.

O Orador: - Pois muito bem.

O sr. Frederico Laranjo entrou na politica portugueza, ahi pelo anno de 1878, eleito deputado progressista pelo circulo de Portalegre; tomou assento n'esta camara e fez a sua estreia parlamentar na questão da Zambezia.

V. exa., sr. presidente, sabe o que foi essa questão, porque eu, que sou mais novo, sei perfeitamente o que ella foi!

Nunca como então a diffamação e a calumnia foram armas de arremesso e de combate, empregadas tão largamente e tão sem piedade contra os homens que se sentavam nas cadeiras ministeriaes, e acima, de tudo, contra o seu chefe! Nunca! (Apoiados.)

Por todas as fórmas se tentou fazer acreditar que esse homem, que já então era, como foi até ao fim da sua vida, o maior e o mais importante elemento de ponderação da politica portugueza, como era tambem incontestavelmente o primeiro estadista de Portugal, (Apoiados.) dizia-se que esse homem tinha até palacios em Londres, que de lá tinham vindo milhões de libras, para dividir por elle, pelo sr. Thomás Ribeiro, pelo sr. Andrade Corvo e por todos aquelles que haviam tomado parte n'essa enormissima tratada, como então se lhe chamava, da Zambezia!

Fizeram-se meetings no circo Price, presididos pelos homens mais respeitaveis do partido progressista; nunca por toda a parte a calumnia e a diffamação, com as suas linguas farpadas, se mostraram tão crueis e implacaveis !!!

Pois foi justamente n'essa questão que se estrelou o sr. Frederico Laranjo!

E sabe v. exa. como? Combatendo os ministros que eram victimas d'essa calumnia e d'essa diffamação, fazendo um discurso contra os ministros signatarios da concessão chamada a concessão da Zambezia. (Apoiados.) ...

(Interrupção do sr. Laranjo.)

Mas v. exa. dá-me licença que lhe diga uma cousa?

Se alguem chamasse aqui ladrão a um ministro da corôa, todos nós nos poriamos ao lado do ministro contra quem tal ousasse, sob pena do parlamento chegar ao seu maior grau de aviltamento. (Apoiados.)

Era para desejar, que o sr. Frederico Laranjo houvesse mostrado a mesma generosidade, que hoje alardeia, quando em 1878 s. exa. viu atacado na sua honra um homem, dizendo-se até que tinha palacios em Inglaterra, elle que nunca possuio senão o jazigo pobre e modesto onde hoje repousa. (Apoiados.)

O sr. Laranjo declarou á camara que era um dos mais facciosos membros do partido progressista, e não serei eu que lhe leve isso a mal, porque acredito que o espirito de facção bem entendido é uma virtude politica, mas o illustre
deputado, para provar que como progressista não podia deixar de gostar da aria de D. Bazilio, disse que o lôdo do Tejo em toda esta questão provinha do syndicato. Simplesmente, esquecêra ao sr. Laranjo que tal syndicato nunca existiu! (Apoiados.)

Nunca D. Bazilio cantou a sua aria, não digo sobre um grão de areia, mas sobre um nada, como o sr. Laranjo. (Riso. - Apoiados.)

O sr. deputado Laranjo, sendo interrompido, e aconselhado pelo sr. Marianno de Carvalho, disse então, que, se não era o artigo 7.° que fallava do syndicato, era o artigo 6.° que dizia que as obrigações seriam dadas a 80$000 réis, que provinha todo o mal.

Depois da aria do D. Bazilio, seguiu-se uma scena do Tartufo. (Riso.)

Mas quem é que obrigou o governo actual a dar obrigações a 80$000 réis ao sr. Hersent?

Parece que os srs. ministros, apenas tomaram posse d´essas cadeiras, foram amarrados e conduzidos ao paço, e que ahi alguem, imitando Carlos IX, quando dizia ao cunhado e ao primo «missa, morte ou Bastilha», lhes intimou obrigações a 800$000 réis, penitenciaria ou Limoeiro! (Riso.)

E entre serem martyrisados ou encarcerados, e ir para as cadeiras do poder cheias de espinhos, como é costume dizer-se, preferiram as cadeiras cheias de espinhos, e não se lhes póde querer mal por isso.

Mas vejo agora que primeiramente foram presos; depois é que veiu a imposição «executem a lei de 1885 que o partido progressista combateu», e a respeito da qual o mais seraphico dos progressistas, o mais manso dos oradores da opposição de outr'ora, o sr. Barros Gomes, disse cousas como o sr. Emygdio Navarro ainda não ouviu n'esta discussão, porque chegou a dizer ao sr. Fontes Pereira de Mello, e hoje que elle está morto, e que morto ainda parece maior do que em vida, comprehende-se a enormidade do atrevimento, se esta palavra é permittida na ausencia da pessoa a quem me estou referindo, e a quem por fórma alguma quero melindrar, mas comprehende-se a enormidade da ousadia que s. exa teve para dizer ao sr. fontes que, n'esta questão das obras do porto de Lisboa, o industrialismo se tinha introduzido nos gabinetes dos ministros! (Apoiados.)

V. exa., sr. presidente, comprehende que, no genero de insinuação, ainda n'esta camara não se proferiu nada de mais bem feito!

Mas, sr. presidente, visto que se tratou da emissão das acções a 80$000 réis, é necessario que a camara não ignore um facto, que o sr. Marianno de Carvalho aliás conhece muito bem. Quando o partido regenerador fez aquella lei, os fundos publicos estavam a 45, e dada essa cotação o acceitar o empreiteiro as acções a 80$000 réis, não era ruina nenhuma para o estado, bem pelo contrario. (Apoiados.)

Quando, porém, o actual governo usou de uma auctorisação, que nem era da sua responsabilidade politica, e que até combatêra, as cousas tinham mudado inteiramente, pois que os nossos fundos se cotavam já a mais de 50 por cento, e assim a paridade para o valor d'aquellas obrigações não podia ser já a de 80$000 réis! (Apoiados.)

Quem os obrigou, pois, a usar de similhante faculdade

Nós estabelecemos na lei as condições unicas que era possivel estabelecer, dada a cotação dos fundos, então existente.

E, por isso, dizendo-se o contrario, quiz-se apenas continuar a calumnia que, durante quinze annos, foi a unica arma que o partido progressista empregou contra os seus adversarios. (Muitos apoiados.)

Para em tudo se demonstrar que o partido progressista não perdeu os seus antigos costumes, já se affirmou, que o sr. Fontes queria forçosamente dar a concessão das obras