1272 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS
diùs solvit minus solvit, exigem juros exagerados pela mora no pagamento de seus debitos.
Os usurarios do sr. Dias Ferreira eram usurarios que professavam a these proverbial dos escholasticos na idade media, quando ao condemnar a usura assentavam como axioma a velha maxima nummus nummum non parit.
Os usurarios! São elles, infelizmente, a mola real que por annos dilatados têem movido os governos d'esta terra e disposto soberanamente dos seus destinos. Se fomos procurar os usurarios foi porque achamos as suas portas honradas com disticos e epigraphes de honrosa commemoração, sagradas por esses mesmos homens que outr'ora os traziam em grande veneração e que hoje, Aristarchos inexoraveis, estão clamando contra os supprimentos e emprestimos que em duras condições o governo efectuou, levado da mais cruel necessidade.
A estes usurarios nos levaram pela mão os nossos adversarios para que lhes implorassemos as mealhas. Foram elles os effectivos collaboradores do governo em todas as suas emprezas de salvação ou de ruina. Foram elles os que emprestaram dinheiro a Portugal quando anteriores administrações intentavam erigir todas essas obras de fomento que ahi se admiram como monumentos, imperfeitos e dispendiosos é verdade, de fecunda civilisação e de melhoramento economico do paiz.
A historia da usura esta impressa nos viaductos, nas pontes, nos aterros e nos carris com que temos iniciado nesta terra o principio de uma nova phase social, nos caminhos de ferro que em rede ainda apenas bosquejada sulcam hoje o nosso territorio. Foram elles os que emprestaram o dinheiro para o campo de manobras nas planicies de Tancos, porque estando o thesouro exhausto para as mais urgentes e impreteriveis necessidades, e assoberbando nós já então um deficit assombroso, os cavalheiros que n'aquelle tempo figuravam no governo e que hoje tomam assento nos bancos da opposição, sabem que sem o impulso generoso d'aquellas almas bemfazejas fóra impraticavel improvisar aquelle arraial luzido e numeroso, e associar as sabias combinações da tactica e da estrategia ás pompas theatraes e sumptuarias de uma festa deslumbrante.
Não fomos nós os primeiros infelizes que recorremos aos usurarios; tivemos de importunalos, contra a nossa vontade e convicção, porque os nossos predecessores nos haviam deixado por herança um deficit enorme que não podiamos annullar, por mais sabias e previdentes que fossem as medidas adoptadas na primeira occasião.
Quando subimos ao governo saiu nos ao encontro com a sua sinistra saudação o deficit que tinha já prostrado na luta os mais vigorosos athletas. Não fomos nós os inventores do deficit, e n'este ponto não é menos flagrante a injustiça que contra nós commette a opposição.
Quiz ella dar-nos a paternidade do deficit, e se não ousa attribuir-nos a paternidade natural, parece imputar-nos a adopção ou adrogação d'este filho prodigo o desnaturado, a quem os seus verdadeiros progenitores embargam o passo ás suas testadas e a entrada em seus portaes.
D'aqui estou eu vendo grande parte da copiosa galeria de illustres financeiros, cujos nomes decoram a arvore de costado do nosso deficit, e se inscrevem no livro de oiro de seus numerosos avoengos (riso).
O deficit é antiquissimo em Portugal. A sua historia perde-se ao longe nas mais nebulosas tradições. Tem elle uma genealogia e uma prosapia esclarecida e illustre. Nos seus tempos pre-historicos a sua existencia é quasi um lampejo incerto e fugitivo, e as mais profundas inquirições dos mais afamados archeologos não podem destrinçar todos os ramos e vergonteas da sua genealogia.
O deficit existia já viçoso e florescente quando conquistamos a liberdade. E cabe aqui notar que tambem os argentarios têem feito alguma vez assignalados beneficios a esta terra. Quando no Porto se jogavam as liberdades e as cabeças de seus briosos defensores contra a oppressão e o algoz, tiveram usurarios d'aquelle tempo a generosa inspiração de emprestar ao governo do Imperador as sommas necessarias para que se não desalentasse a empreza grandiosa e tomaram por unico penhor a incerteza da victoria. E se alguma piedade póde merecer aquelle genero de creaturas que avaliadas na phrase excruciante da opposição, só de humanas têem o nome, é justo que digamos, appellarido para o testemunho da historia, que se não foram aquelles aventurosos usurarios, dignos de que para elles nascera um Plutarcho, se não foram aquelles crentes fervorosos da liberdade e da justiça, que associaram a generosidade dos seus cofres a coragem estoica e a spartana devoção dos defensores do Porto, não estiveramos nós agora aqui sentados a descretear pausadamente, a reprehendermo-nos uns aos outros por peccados veniaes e a pugnarmos em querelas intestinas. Seria mais temerosa a penitencia de nossas faltas e peccados, porque para nós e para os nossos adversarios outra e menos facil de levar do que a perda do poder ou a mortificação de uma vaidade houvera sido a nossa pena.
O deficit, dizia eu, era já velho e antiquissima a sua extirpe. Começou porém a ser mais conhecido, mais avultado e familiar no nosso e nos paizes estrangeiros, principiou, por assim dizer, a inscrever-se com distincção no Almanach de Gotha entre as familias principescas ou patricias, desde a primeira administração do sr. Fontes. O deficit era ainda balbuciante e infantil; era Hercules no berço, tentando o esforço ainda mal robustecido, com o esmagar serpentes pequeninas. Causava já porém graves embaraços a administração da fazenda em Portugal. Obrára inesperadas transformações no kalendario e fazendo correcções no anno financeiro, elevara os mezes de trinta a quarenta e cinco dias, fizera pontos, suspensões de pagamentos, arremedos da bancarota; dera origem ás quinzenas; fizera acções e commettera emprezas quasi incriveis, similhantes ás que a historia no seu periodo poetico narra dos grandes homens nos tempos heroicos e legendarios.
Já quasi jubilado em numerosas malfeitorias andava o deficit, quando o sr. Fontes o encontrou. O deficit foi, por assim dizer, amamentado por este benemerito estadista. Representava então o nobre deputado as idéas de uma nova situação, que alargava o horizonte do governo e inaugurava com felizes auspicios uma escola que estou longe de condemnar, porque a ella me associei por convicção nos primeiros annos da minha vida publica, ajudando-a como soldado na imprensa e no parlamento. Nem me pejo de o dizer, porque não renego nunca as minhas tradições politicas, nem ou actos que pratiquei, ou as palavras que proferi na tribuna ou na imprensa.
O sr. Fontes representava uma situação necessaria para o paiz n'aquella epocha. Portugal tinha até então vivido em continuadas tentativas financeiras, e cada vez mais infelizes, desherdado de todos os commodos e beneficios da contemporanea civilização, segregado da Europa e do mundo culto pela ausencia de todos os poderosos instrumentos de progresso, distanciado quasi um seculo de todos os povos que avançavam, olhando-os justamente com desdém. Cumpria fazer um esforço para lançar a semente da civilisação n'uma terra, não ingrata, antes propicia, e que tinha sido muitos annos capitulada como infertil.
Fizeram se emprestimos; fizeram-se largas e talvez imprevidentes appeliações ao credito, na esperança de que o augmento da riqueza nacional em breve compensaria o sacrificio. Com o oiro que d'ahi proveiu se fizeram as obras publicas, que vemos hoje espalhadas pelo nosso territorio, e com elle se douraram e luziram tambem, não raras vezes, os erros financeiros d'aquella administração.
Depois do sr. Fontes seguiu-se intercalada uma outra administração, a gerencia prolongada do sr. Lobo d'Avila, já o deficit deixára a puericia e preparava-se a receber a toga pretexta. Deu-lhe pois o nobre deputado a primeira educação da juventude, e ensinou-lhe (permitta me o illus-