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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS 1275

prestito funebre se já vae encaminhando para prestar a victima as ultimas honras funerarias? (Apoiados.)

Ha muitos medicos d'estes n'esta casa; e ha, entre elles, um que tem sido mais implacavel contra a actual administração - é o sr. Dias Ferreira.

O sr. Dias Ferreira que teve e deixou morrer nas suas mãos uma situação a mais provavel e propicia (apoiados), para ter salvado a fazenda do paiz, e para ter conduzido a fazenda publica a um estado em que depois a sua completa restauração não dependesse senão de prudencia, de energia, de tempo e de moralidade (muitos apoiados), desaproveitando inteiramente a occasião, deixou durante seis mezes successivos aggravar a situação do paiz, não fez uma só reforma que diminuisse as despezas publicas, e póde-se dizer, sem erro historico, que o ministerio a que o illustre deputado pertenceu e a quem honrou com o seu talento, foi uma manufactura constante do déficit (riso), não fez outra cousa senão deficit (riso - apoiados).

O sr. deputado tem aqui repetido muitas vezes: "Os meus supprimentos, as minhas operações foram feitas por um preço quasi fabuloso de barateza e modicidade". Mas tambem s. exa. não teve mais que fazer durante o tempo da sua administração; s. exa. não teve a resolução nem a coragem de fazer passar as suas medidas em uma camara que é tinha sido eleita debaixo dos seus proprios auspicios, com exclusão quasi completa dos seus adversarios; s. exa. limitou-se a apresentar uma proposta, a da suppressão dos terços aos professores, que parecendo denotar que o illustre ex-ministro, pertencendo a profissão do magistério, era superior a todas as paixões e a todos os interesses de corporação, foi interpretada, como devia ser, como uma verdadeira iniquidade (apoiados. - Vozes: - Muito bem); porque não é justo nem plausivel que um homem, que de si quer dar uma idéa vantajosa de heroica abnegação e de espontaneo desinteresse, vá sacrificar o principio de igualdade, impondo a uma classe tão respeitavel e tão mal remunerada como é o professorado, um sacrificio que não seja repartido por todas as outras profissões (muitos apoiados). O illustre deputado foi desabrido, severo, severissimo, cruel, com a actual situação, e eu peço perdão por fazer estas referencias a sua illustre vida financeira, porque a defeza é uma faculdade e um direito de todos os governos, e não póde ser attribuido a espirito de intolerancia da minha parte, n'um do governo a que tenho a honra de pertencer, e desafogar n'esta assembléa e usar de justas represalias dentro dos limites do decoro e da dignidade parlamentar contra os ataques violentos que nos têem sido dirigidos pelo illustre deputado (apoiados).

O illustre deputado que tinha talento e experiencia parlamentar, mas a quem faltou a vontade e a energia, que triumpha na execução das grandes e urgentes providencias, podia ter prestado eminentes serviços ao paiz; e despendeu a força viva da sua administração em attritos de familia em resistencias de partido e em estereis tentativas financeiras. A medida em que poz toda a esperança da sua gloria, foi a da desamortização. Esta proposta, mal recebida desde a sua apresentação, continha não dissimulada e em gérmen, mas já planta adulta e vigorosa, uma verdadeira espoliação, tanto mais inaceitavel e digna de censura, quanto ia offender as mais venerandas e santas instituições. Como se a fazenda do paiz se podesse salvar, espoliando e pondo em risco, para acudir a estreiteza do thesouro, os estabelecimentos de caridade, o pão dos pobres, o conforto dos desvalidos, o remedio dos enfermos.

Tenho procurado responder ás invectivas e censuras dos illustres deputados que n'este debate têem empregado todos os seus esforços oratorios para reprehender o systema politico, administrativo e financeiro que caracterisa a actual situação. Não tenho de certo a pretensão de levar a palma nesta prolongada contenda parlamentar. E se não posso responder devidamente a tão experimentados antagonistas, satisfaço a vehemente necessidade e a fervorosa expectação com que os illustres deputados estranhavam o meu silencio.

O sr. Dias Ferreira não estava presente quando comecei a referir-me a sua administração. Mas tenho agora occasião de o ver presente, e de me congratular com s. exa. O illustre deputado emprazou-me para lhe responder dentro de um praso forense e peremptorio. Obedecendo a intimação, a s. exa. tive de me referir no meu discurso, e quem sabe se faltei a uma das cortezias parlamentares? Obrigou-me porém a isso a necessidade da apologia. A principal defeza do gabinete deveria ser dirigida a terrivel bateria de morteiros que n'este sitio apertado contra o governo tinha dirigido com tanta persistencia o ex-ministro da fazenda da administração de 4 de janeiro.

Não digo que conseguirei desmontar a artilheria com que o illustre deputado, auxiliado pelos engenheiros d'este cerco tem ameaçado a praça com uma prompta reddição. Tenho feito toda a possivel diligencia para tornar menos certeiras as pontarias do illustre deputado; procurei convencer a guarnição, de que elle é mais facil na multiplicação e estrondo dos seus tiros do que feliz em abrir brecha nas escarpas.

O sr. deputado é mais conhecido pela impetuosidade do seu ataque nos bancos da opposição do que pelo brilhantismo da sua defeza, quando occupava esta metima cidadella em que estamos hoje, obrigados pelo juramento das bandeiras, a resistir até ao lance derradeiro. É dever nosso prolongar a defeza emquanto nos não faltarem as armas constitucionaes. Estamos aqui porque a guarnição de certo nos haveria de accusar e nos levaria a conta de opprobriosa pusilanimidade desamparar a posição que se acha tão galhardamente presidiada. Estamos aqui ajudados por uma briosa guarnição; e apesar de todos os esforços dos illustres deputados; apesar dos poucos que sairam do recinto para engrossar as fileiras dos cercadores, havemos de sair quando a intimação constitucional da camara, pronunciada pela maioria, nos annunciar que é chegada a hora de sermos rendidos no nosso posto de honra, e de virem chefes e soldados mais briosos, mais possantes e mais merecedores da confiança do paiz destruir ou continuar a nossa obra, que nos temos conscienciosamento empenhado em não macular com um acto de offensa ou de violação a moralidade, ás liberdades publicas e aos principios fundamentaes do governo representativo.

Temos sido porventura menos bem afortunados nas nossas operações financeiras? Quem não é infeliz neste mundo? He temos sido infelizes uma ou outra vez nas transacções de credito (e supponbo agora, não dou por demonstrada esta asserção) sustento que os supprimentos têem sido feitos segundo a medida e a lei economica dos mercados actuaes, segundo a grave desconfiança que inspira presentemente o governo portuguez. E quando digo o governo portuguez, não quero significar o gabinete que ora rege os destinos do paiz, senão qualquer ministerio e qualquer situação que se veja assoberbada pelas mesmas difficuldades e vexames que nos mercados estrangeiros levanta contra nos a desconfiança, a intriga e a usura.

Muitas são as causas que rebaixam o nosso credito nas praças monetarias. A primeira é termos um deficit vivaz, crescente, insaciavel. A segunda o levantarem-se constantemente quasi invenciveis resistencias para que se votem os tributos, sem os quaes é já hoje reconhecido pelo paiz, e pelos mais ciosos contribuintes, não poder destruir-se ou attenuar se o deficit com a esperança de salvação para a fazenda publica. Digo pois e sustento que as nossas operações financeiras têem sido feitas segundo a necessidade de occasião, a urgencia do tempo, a estreiteza dos recursos publicos e a funesta decadencia do credito nacional. O talento, a energia, as qualidades pessoaes de quem rege a fazenda publica não podem modificar profundamente as condições economicas dos mercados monetarios.

Pois ha alguem que acredite n'esta fabula pueril de que