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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS 1277

de murmuram as comadres, ou para o trivio, infestado de emboscadas, onde se comprazem os sicarios e bandoleiros? (Apoiados.)

Antes de respeitarmos a imprensa, que é um signal externo, veneremos a opinião, que é a minha das modernas sociedades. Rendamos preito a essencia d'esta indispensavel realeza, e não exclusivamente aos attributos materiaes da sua soberania. E direi que não posso conformar-me com a idéa de que a imprensa seja realmente uma instituição. É este um dos aphorismos que, nascendo de uma metaphora, são depois recebidos geralmente como axiomas. É uma d'estas phrases pomposas e sonoras que se pronunciaram uma vez, que se aceitaram sem exame e correctivo, e que se vão repetindo diariamente de geração em geração até se converterem n'um dogma indiscutivel acompanhado do sinistro cortejo de todos os dogmas nos tempos de cego fanatismo, - a intolerancia e a fogueira.

Instituição! Com o mesmo jus e igual rasão sagremos tambem como instituições da sociedade civilisada a machina de vapor, o braço e os membros locomotores do moderno Titan, - o telegrapho de Morse e Wheatstone - o ouvido e a voz com que se entendem em seus colloquios as civilisações distanciadas pelo espaço, - se instituições havemos de appellidar todos os maravilhosos instrumentos, sem cuja intervenção não é já possivel conceber a cultura moral e physica da humanidade.

Como ministro e como cidadão respeito a imprensa, quando os seus escriptos honestos e sensatos analysam, reprebendem, aconselham e distribuem aos partidos, ás situações, aos governos e aos cidadãos a parte de louvor ou de censura que a cada um pertence por seus principios e actos na vida collectiva das nações; porém não posso respeitar a imprensa que menoscaba, injuria e vitupera (apoiados).

Respeito a imprensa séria, porque é o orgão mais geral do pensamento, porque é o thermometro da opinião, porque é o advogado dos humildes contra os fortes, o patrono aos oppressos contra todas as ambiciosas dominações; porque é o sceptro d'esta dynastia universal que se chama democracia. Por estes titulos os govermos hão de estar attentos a sua voz, porque é a voz do povo que administram. Nas graves crises de um paiz, aos governos impende a obrigação de aferirem pela imprensa os votos e os sentimentos populares.

Á imprensa, como echo da opinião, hão de attender e considerar, para que saibam a ponto entregar a mãos mais peritas ou mais felizes o leme da barca ministerial onde vae tantas vezes a prosperidade ou a ruina das nações - o moderno Cesar e a sua fortuna.

Para apontar os baixios e os recifes, para annunciar as borrascas que já anuviam ao longe o horisonte, para bradar a um governo = continuae ou abdicae =, é que serve a imprensa digna, a imprensa justa, a imprensa honesta, embora vehemente, arrebatada, tribunicia, e não a imprensa que desdoura, que desauctora e que diffama.

Honremos a imprensa, mas distingamos primeiro se, querendo reverenciar a magestade do pensamento, curvamos o joelho perante os cunuchos vis da opinião; se cortejamos a purpura nos hombros do mercenario; se adoramos a idéa ou a calumnia, a eloquencia do patriota ou o apodo interesseiro do pretendente indeferido. Honremos a imprensa, mas advirtamos primeiro se é a imprensa que estampa o Zendavesta e o Alcorão, ou a imprensa que divulga as santas doutrinas e as ineffaveis consolações do Evangelho; se é a imprensa que divinisa a guerra e o verdugo com José de Maistre, ou a que beatifica a humanidade nas generosas utopias de Fourier e de Proudhon. Honremos a imprensa, mas attentemos primeiro em que ella póde ser o cosmos ou o cahos; a luz ou as trevas; a harmonia ou a confusão; Ormuzd ou Arihman.

Respeitemos a imprensa, mas acatemos antes de tudo a opinião publica, porque é a ella e não a opposição apaixonada que pertence tratar das cousas da nação, porque é ella que dicta aos governos a norma e teor do seu procedimento, que inspirada pelas circumstancias do paiz, pergunta aos ministros e aos parlamentos pelo que fizeram em beneficio commum da patria, é ella que os ha de accusar se delinquirem, infligindo-lhes as penas mais severas ou que os ha de galardoar com os louros civicos, se responderem lealmente aos votos e ás esperanças da nação.

Impute-se aos ministros a sua indifferença perante a opinião, quando as suas advertencias e conselhos se mostrem surdos e impenitentes; mas não se entre no lar domestico de cada homem publico para espiar se lê ou não os jornaes das diversas parcialidades, e se no seu bufete do trabalho lhe assistem como censores ou conselheiros o Jornal do commercio, a Revolução de setembro ou o Diario popular.

E a proposito do respeito que devemos todos aos direitos imprescriptiveis da palavra escripta e estampada, cabe aqui fazer alguns reparos ácerca do que ouvi dizer n'uma das sessões antecedentes a um sr. deputado, que sinto não ver presente agora, e que geriu por largos annos a pasta da fazenda do sr. Lobo d'Avila).

O illustre deputado, n'uma invectiva ardente e apaixonada, como se estivesse orando n'uma assembléa revolucionaria, ou debaixo da oppressão e tyrannia de uma facção dominante pela força, queixou-se amargamente de que lhe tiravam a palavra; e, logo em seguida, não se lembrando da contradicção em que ia incorrer nas suas deciamações, disse nos que o governo não podia manter-se a frente dos negocios, porque era fraco, e acrescentou que para salvar a causa publica era indispensavel um governo forte, energico, audaz, que tivesse principios definidos, e se fizesse respeitar por esta camara, e impozesse a sua vontade á maioria.

Declaro que não sei o que são governos fortes no parecer do sr. deputado a quem alludo.

A força precisa determinar-se indirectamente. Não se revelando senão pelos seus effeitos, é necessario medi-la por algum phenomeno sensivel, a cuja intensidade seja proporcional.

O sr. deputado, que está anciando por um governo forte, deverá ter-nos dito qual é o dynamometro de que usa para aferir a força dos governos (riso).

Governos fortes, tenho para mim, que não são os que duram muito, os que vivem de feros e sobrecenhos, arrastando a espada nas salas do parlamento. Aos governos de força prefiro este a que pertenço, que não floreia o sabre no meio das discussões, que por conter um prelado da igreja lusitana póde dizer-se governo de baculo, de paz, de tolerancia, de mansidão evangelica (hilaridade).

Tenho grande respeito e grande affeição a uma classe honrada e nobilissima a que me honro de pertencer, a quem a liberdade d'esta terra deve as suas conquistas gloriosas e os seus trophéus em perecedouros. Amo o exercito, mas n'esta casa, e á testa dos negocios publicos gosto de ver o governo civil, o governo paizano, perfeitamente emancipado de todas as arrogancias, que ficará bem nos campos o vão mal nas assembléas populares (apoiados), onde a arma é a palavra, a tactica a logica, e as palmas ceifadas pelos chefes devem ser incruentas e imbelles.

Quer a camara saber em que está em meu conceito a força dos governos? Sabe-o de certo melhor do que eu, mas eu quero ter o prazer de lh'o repetir.

A força dos governos está antes de tudo em serem respeitadores da liberdade (apoiados). E eu emprazo a opposição para que diga qual foi o ponto em que nos violamos até hoje, um dos santos principios da liberdade nacional (muitos apoiados).

A força dos governos consiste numa honestidade inquebrantavel (apoiados). E queira dizer-me algum dos membros da opposição onde está um só acto, que possa arguir, falta de probidade no governo (muitos apoiados), que não attendeu ás proprias amisades politicas e pessoaes (apoia-