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1278 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

dos), que viu succederem ás allianças mais antigas e a familiaridade habitual a frieza ou hostilidade, só porque entendeu que na gerencia dos negocios era necessario respeitar mais alguma cousa do que as influencias das pessoas, com quem se achava intimamente relacionado (apoiados).

A força dos governos esta em não despender os dinheiros publicos senão n'aquillo que é estrictamente necessario e que esta ordenado pelas leis (apoiados). E aponte a opposição o exemplo de um só maravedi que fosse gasto pelo governo para subsidiar o favor ou a lisonja de ephemeros cortezãos.

A força dos governos está em não encher constantemente as repartições com empregados supplementares, para satisfazer os compromissos de partido ou os empenhes de occasião, acrescentando escandalosamente o alimento, de que se mantém e com que avulta o déficit. E diga-nos a opposição qual foi o emprego que creamos, o empenho a que accedemos e o nome que ajuntamos a lista volumosa dos funccionarios.

A força dos governos esta em fazer o que eu tenho feito e o que tem feito os meus collegas.

Diga-nos a opposição se durante um anno quasi que levamos de ministros, havemos feito uma só nomeação, ou para captivar amigos, recrutar clientes e remunerar serviços interesseiros (apoiados).

Diga-me a opposição, se póde, onde esta o decreto que se haja referendado para nomear um só empregado no continente do reino. Diga-me se mandei um operario ou um servente para o arsenal da marinha; para o arsenal da marinha que foi durante muitos annos um hospicio da pobreza envergonhada e um asylo de invalidos do trabalho, onde a munificencia politica sustentava a expensas publicas, como no Prytaneo de Athenas, os benemeritos... das lutas eleitoraes.

A força dos governos esta em ter como regra o supprimir todas as despezas que o abuso, não a lei, o favor, não o serviço, tenham consagrado; em abolir todas as verbas que posto que legaes, não sejam necessarias para o bom e regular andamento da administração. E diga-me a opposição se o que principalmente inflamma a sua palavra contra o governo não são os golpes fundos por elle dados nos morgados bureaucraticos e nos pingues apanagios que a liberalidade politica tinha instituido em favor dos filhos dilectos do orçamento.

A força dos governos está em ter coragem para lutar com os amigos nas suas ambiciosas pretensões, e para resistir aos inimigos com as armas invenciveis da probidade e da justiça. E digam os amigos tornados em adversarios, digam as petições indeferidas, digam as intimidades rotas e pueril as dedicações mentidas a que subido quilate chegou a hombridade e a dureza do governo em materia de favores á custa dos dinheiros da nação.

A força dos governos esta finalmente em seguir cuidadosamente as indicações da opinião, e deixar a tempo as cadeiras do poder, para não ser obrigado a sair d'ellas entre as alas hostis das turbas irrequietas e insurgidas; para evitar as quedas estrepitosas depois de haver accendido a chamma dos odios populares de um até ao outro extremo do paiz; para não por em perigo a ordem na capital, e a paz no reino; para não comprar mais alguns dias de attribulada existencia no poder pelo sacrilego preço da agitação e da guerra civil.

Este é o dynamometro por onde se afere a força dos governos. E por isso eu digo que se a todas estas condições satisfez o gabinete, a moralidade, a economia, a liberdade, a justiça na distribuição dos sacrificios, ao esquecimento das affeições, a preferencia dada aos grandes e poderosos sobre os humildes e pequeninos, para os ferir em seus interesses e proventos; se a nossa massa multiplicada pela nossa velocidade iguala como resultante a todas as forças moraes que acabo de enumerar, estou convencido de que o governo actual é forte e popular (apoiados).

O governo é fraco, dizia o sr. deputado a quem me tenho referido. E se é fraco, porque se abriram impetuosas contra elle as cataratas da sua eloquencia, e se desatou o sr. deputado n'uma catadupa de irrasciveis imprecações contra estes pobres ministros inoffensivos, que estão sentados n'estas cadeiras?

O governo é fraco, porque (dizia o sr. deputado) não se impunha a maioria, porque aceitava as emendas das commissões!

Parece incrivel que n'um paiz constitucional, n'uma epocha das mais graves para a nação, numa quadra em que o accordo de todas as opiniões e o consenso de todas as vontades ainda não é penhor seguro de que possamos resolver as grandes difficuldades em que estamos envolvidos, haja alguem que accuse o governo de ser fraco, porque attende ás justas e judiciosas reflexões dos homens que são chamados a examinar as propostas do governo!

Se porventura ser forte é impor a vontade ás maiorias, é passar por cima das opposiçÕes, como dizia um antigo e illustre estadista d'esta casa, é preterir todas as regras e conveniencias parlamentares; se ser forte é desprezar a opinião sensata dos amigos e das commissões que constitucionalmente têem de intervir no exame das medidas legislativas, o governo rejeita essa força, porque é a dictadura exercida abertamente no seio do parlamento. O que o governo quer, e essa é uma condição essencial para que continue a sentar-se n'estas cadeiras, é o accordo politico da maioria, com quem tem tido a honra de viver até hoje, nas mais amigaveis relações; o que o governo quer é o conselho e apoio da maioria e das commissões; o que o governo quer é que a maioria governe com elle, e com elle se associe ao consulado. É um erro suppor que um governo consta apenas de seis homens; que entre si têem distribuidas as pautas das diversas repartições. Um governo não se compõe apenas de seis homens, senão de seis mil, de seiscentos mil; de seis ministros e mais todos os deputados que o circundam, e mais toda a opinião que o rodeia e favorece e lhe dá força. Isto é o governo, o governo nacional, o governo que recebe a sua investidura da vontade ou do assentimento do paiz. O mais não é governo, é autocracia.

O governo não se faz nas camarilhas politicas, nem nos conclaves partidarios, faz-se n'esta casa; faz-se na praça publica; faz se com o accordo e beneplacito de todos os amigos, e até mesmo com o conselho dos inimigos, porque até os proprios inimigos nos lances mais difficeis e nas crises mais perigosas, podem dar-nos alguma vez conselhos, que se não devem engeitar, só por vaidade e jactancia pueril e os exemplos de seus erros nos são boa advertencia e salutar prophyllaxia nas mais apertadas conjuncturas.

O governo tem a força que da a honestidade, a economia, a justiça, o espirito liberal, e sobretudo a ausencia da ambição. Conscio d'esta força, só deixará estas cadeiras no momento em que esta assembléa illustrada, e livremente saida da urna (apoiados), que tão solemnemente exprime o voto das populações, quando está possuida da doutrina das severas economias e reformas (apoiados), nos significar o seu voto imperativo e nos negar o seu apoio. Desde já prophetiso a camara e ao paiz que esta luzida phalange que expontaneamente nos circunda, não ha de desamparar o governo por ter feito reducções, economias e reformas, ou por alargar o ambito das que já estão effectuadas, ha de engeita-lo se afrouxar n'esta empreza patriotica ou se parar n'este caminho (apoiados); porque o paiz não enviou ao parlamento os seus representantes numa das mais graves conjuncções da sua vida politica e social, para satisfazer a interesses particulares nem pessoaes; para fomentar ambições de segurar ou de conquistar o poder; senão para continuar a obra da moralidade e da economia, para responder aos votos e aos desejos da nação, manifestados em janeiro; para cerrar a porta ás restaurações imprudentes do passado.