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SESSÃO N.º 88 DE 15 DE JUNHO DE 1900 5

essa grande explosão de odios contra os estrangeiros sempre latente.

Estão mal artilhadas as nossas fortalezas, carece o porto de Macau de meios de defeza suficientes, é modestissima a força naval de que ali podemos dispor, e até a guarnição da cidade é minguada, e insufficientissima.

Ora, o primeiro dever da metropole e garantir a segurança das suas colonias.

É uma obrigação indeclinavel da nossa soberania.

Já ha muito tempo, que a imprensa local reclamava do poder central algumas providencias para pôr a cidade ao abrigo de um golpe de mão, que de um para outro momento se podia tentar. O que teve logar o anno passado em Cantão, quando os estabelecimentos estrangeiros foram atacados pela populaça, é aviso bem eloquente do que um dia podaria acontecer em Macau.

O odio que a populaça chineza professa pelos estrangeiros, bem comprovado por factos historicos, que todos conhecem, póde um dia pôr em risco a segurança da cidade da Macau.

Infelizmente as circumstancias não têem permittido dotar a cidade com todos os melhoramentos, que sob o ponto de vista da sua fortificação, seriam para desejar. Mas visto que o orçamento da provincia de Macau, que é uma das Taras joias da coroa portugueza que nada custam á metropole, tem tido saldos favoraveis, cifrando-se por centenas de contos de réis o dinheiro que d'aquella origem tem entrado nos cofres da metropole, estou convencido que o illustre ministro da marinha, o mais breve possivel, providenciará para que as fortalezas d'aquella cidade sejam devidamente artilhadas, visto que o podem ser sem sacrificio da metropole.

Eu sei que o sr. governador de Macau se tem occupado bastante d'este assumpto. Estou persuadido que n'um espaço mais ou menos curto, e dentro dos limites do possivel, se procurará dotar a cidade com os meios de defeza necessarios para a pôr ao abrigo de um golpe de mão da populaça chineza, o que não é muito difficil, como a historia demonstra. A tomada do forte do Passaleão (?), que não é muito antiga, attesta o brio dos nossos soldados e a consciencia dos proprios macaistas de que defendendo Macau defendem o solo da patria.

Artilhando as actuaes fortalezas devidamente, construindo algumas novas fortificações, das quaes duas ou tres na ilha da Lapa, guarnecendo a cidade com um contingente effectivo de 500 ou 600 homens, mantendo ali dois navios de estação e um ou dois torpedeiros, que poderiam servir para caçar ou pelo menos vigiar, os juncos piratas, ficaria a cidade ao abrigo de qualquer golpe de mão.

O segundo ponto, para que chamo a attenção do governo, é o que diz respeito á nossa representação diplomatica e á orientação da politica externa portugueza no extremo Oriente, ou mais propriamente na China. A este respeito confio muito nas qualidades de previdencia e intelligencia do sr. ministro dos negocios estrangeiros, e por isso é apenas no cumprimento do meu dever de deputado uso da palavra para chamar a attenção de s. exa., a de que dentro do possivel, porque só com o possivel devemos contar, envide, como eu espero que ha de envidar, todos os esforços para conseguir o maior numero de vantagens para a nossa colonia de Macau.

Já o anno passado tive occasião de me referir duas vezes n'esta casa ao modo como se exercia a nossa representação diplomatica na China.

Até hoje a nossa representação diplomatica no extremo Oriente tem estado confiada ao governador de Macau, nosso representante em nada menos do que em tres cortes, o Sião, a China e o Japão. Da exposição d'este simples facto é facil deduzir, que o governador de Macau, por muita que seja a sua boa vontade, não tem o tempo necessario para tratar dos negocios diplomaticos, nem elles se podem tratar a centenas de leguas sem ter em Pekim quem sirva de intermediario perante o Tsung-li-Yamen.

Desde 1887 nenhum representante nosso foi a Pekin, e todavia era na capital da China que mais necessidade aavia de exercer a nossa representação diplomatica, porque Macau, sob o ponto de vista commercial, depende dos regulamentos alfandegarios chinezes e estas questões só podem tratar-se em Pekin.

As circumstancias que nos ultimos annos se têem dado com todos os governos, e eu não faço accusações a nenhum d'elles porque em questões d'esta natureza a politica é posta de parte, o eu venho apenas narrar factos, - têem 'eito com que só tenha mantido esta situação. Julgo, porem, que no momento actual importa modifical-a de forma a tornar a nossa representação diplomatica junto da China mais efficaz do que tem sido até hoje, o que se póde fazer sem augmento de despeza.

Como v. exa. sabe, sr. presidente, a politica europêa na China, nos ultimos annos, tem entrado n'uma phase nova. O tratado de Nankim de 1842 iniciou a abertura da China ao commercio estrangeiro; durante muito tempo foi a Inglaterra que mais largamente aproveitou esta concessão; veiu depois a Russia e a seguir a França, mas em 1894 entrou em scena uma nova potencia, o Japão. Teve logar a guerra que todos conhecem e ácerca da qual não preciso, portanto, fazer nenhumas considerações, e entre a China e o Japão celebrou-se a final o tratado de Shunonosaki.

Esse tratado collocou a politica europêa na China n'uma nova situaão, e d'elle derivou, pela intervenção que as potencias tinham tomado em favor da China durante a guerra, e pelo estado de inferioridade em que a collocara a derrota, que algumas nações, e nomeadamente a Russia, a França e a Allemanha, e mais tarde a Inglaterra e os Estados Unidos, aproveitando as circumstancias em que a guerra collocara a China, viessem pedir-lhe grande numero de concessões, que foram obtidas.

A concessão de portos livres que elevou o seu numero até 43 ou 45, a abertura das vias de navegação fluvial ao commercio do Occidente, a concessão de territorios, de construcção de caminhos de ferro, de exploração de minas e estabelecimentos industriaes, abriram verdadeiramente a China ao commercio e á influencia das nações civilisadas. Quasi todos os grandes paizes do Occidente obtiveram vantagens de grande importancia. Só a Italia nada obteve por ter chegado tarde. Quanto a Portugal faltaram-lhe n'este momento as mais elementares condições para obter qualquer cousa. Nem sequer teve em Pekin um representante diplomatico, que obtivesse algumas vantagens para a nossa antiga e leal colonia de Macau.

Todos estes factos demonstram claramente, que se creou uma nova era para a politica europêa na China, que pareceu por um momento querer emfim abrir-se ás relações commerciaes das nações do occidente.

Nasceu e fortaleceu-se na China um partido liberal que pretendeu fazer d'ella um segundo Japão, desenvolvendo-lhe o gosto pelos costumes occidentaes, procurando introduzir-lhe os melhoramentos e beneficies da civilisação europêa.

Houve depois uma revolta, verdadeira reacção contra a influencia Occidental; os chefes do partido liberal foram trucidados, e a Imperatriz-mãe, tomando de novo as rédeas do governo, lançou o grande Imperio do Meio no caminho que talvez deva produzir a sua desmembração.

Em vista d'esta reacção fortissima começou a notar-se nas sociedades secretas que pullulam na China e que por assim dizer são as unicas instituições politicas verdadeiramente organisadas do grande Imperio, um certo movimento de reacção, que animado pelo governo imperial se traduziu em breve n'uma grande animadversão contra os estrangeiros, n'uma grande mota de morte contra os occidentaes.