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miga formada, e retiraram-se em debandada, e o resto da força debandou tambem.»
Perguntou-se-lhe pelo batalhão de caçadores n.° 5, que era um dos corpos mais bem disciplinados, e respondeu: «Está em debandada.»
Perguntou-se-lhe pelo regimento n.° 10, que igualmente era dos melhores, e respondeu «que não sabia onde parava.»
O Imperador ficou sobresaltado e disse: «O que se ha de agora fazer? »
Eu observei que me parecia que, se o general Povoas fizesse o que entendia que lhe conviria fazer, e que consistia em mandar avançar dois esquadrões a toda a brida até á ponte do Douro para a segurarem ou para a cortarem, no estado de terror panico em que se achava a divisão tudo ficaria prisioneiro, e n'este caso não teria Sua Magestade outra cousa a fazer senão embarcar para os Açores, a fim de preparar outra expedição, ou de tratar com o Senhor Infante. E que, no caso de Sua Magestade partir, eu lhe pediria que me permittisse commandar a retaguarda.
Sua Magestade dignou-se apertar-me a mão, e partiu para Villa Nova para esperar os fugitivos.
O Senhor D. Pedro mostrou pelo seu procedimento que não teve nunca a idéa de abandonar o Porto.
Fui eu que figurei a hypothese de que, se o general Povoas fizesse o que me parecia que elle devia fazer, não entrava na cidade ninguem da expedição, e nós com a força que nós restava não nos seria possivel sustentar a luta.
Em um conselho, que Sua Magestade quiz ouvir, tinham-se, é verdade, suscitado idéas a que se não deu attenção; uma dellas era que seria conveniente que o exercito fosse para Aveiro (riso). Alguem disse tambem que seria bom irmos para Abrantes. Sua Magestade determinou ficar no Porto. No dia da entrada do Imperador na cidade do Porto, quem se apresentou foi a gente de jaqueta, a gente de casaca apresentou-se depois, e pouco a pouco.
Nos primeiros dias affluiam os homens do jaleco, com os quaes o Imperador organisou quatro batalhões, dois fixos e dois moveis. Mais tarde formaram-se tres batalhões chamados provisorios, compostos de logistas, e ainda outros corpos se organisaram.
É preciso fazer justiça. O Imperador era um principe do maior brio, e de tal coragem, que não seria possivel exceder se (muitos apoiados).
Contarei um facto de que a historia talvez não tenha noticia. Tinham-se suscitado certos desgostos contra alguns dos ministros meus collegas.
Um dia appareceram-me na secretaria da marinha dois officiaes dos mais distinctos e bemquistos do exercito. Elles eram o tenente coronel José da Fonseca, depois barão de Lordello, e o major, depois coronel, Pacheco, dizendo-me que = lavrava um desgosto muito grande no exercito, e que era precisa immediatamente uma mudança no ministerio, e que convinha que eu o fizesse saber ao Imperador =. Agradeci a prova de confiança que me davam fazendo tal communicação, e disse-lhes que — similhante commissão não podia ser aceita por mim, e que não era possivel que eu fosse lembrar a Sua Magestade a mudança dos meus collegas ficando eu. Disse-lhes mais que — poderiam ir commigo, e expor aos meus collegas o estado das cousas. Julgaram porém que o não podiam fazer. Na conversação que com elles tive, e confiando na sua discrição, observei-lhes que nos achavamos na mais critica situação por falta de recursos; que tinha havido dias de chegarmos ás quatro horas da tarde, e nós, os ministros, não sabermos se feriamos alimentos sufficientes para dar de comer á tropa no dia seguinte; que noite havia em que nos desertavam 70 soldados, sendo tambem verdade que isto era compensado com as deserções do inimigo; que nos faltavam munições do guerra e dinheiro; que o Imperador sabia tudo o que occorria, porém que o seu caracter pundonoroso o havia decidido a sustentar a causa até ao ultimo extremo; mas que era preciso não o contrariar, porque, se Sua Magestade se persuadisse do que se pretendia leva-lo a proceder contra a sua propria vontade, poderia acontecer que fizesse o mesmo que fez no Rio de Janeiro, que abdicou quando uma revolução o quiz obrigar a mudar de ministros; e acrescentei que se Sua Magestade julgasse do seu pundonor tomar uma tal resolução embarcaria na fragata ingleza Stag, que estava á sua disposição, e partiria para Inglaterra; e que no dia seguinte entrariam no Porto as tropas miguelistas, e em seguiria seriam enforcados os mais compromettidos; que no estado das cousas o Senhor D. Pedro era a unica pessoa que ainda poderia salvar a causa, e que era indispensavel não lhe dar motivo de desgosto; e que, se todo o homem se póde dispensar, ha comtudo certas occasiões em que um homem só sustenta uma causa (apoiados).
O Imperador nunca pensou em abandonar a causa
Julguei conveniente fazer esta rectificação de factos que occorreram n'aquella epocha, em que ácerca d'elles era preciso guardar o maior segredo, porque de contrario saber-se-iam logo no quartel general dos miguelistas.
Vozes: — Votos, votos.
O sr. Presidente: — Em vista da manifestação da camara vae votar-se.
O sr. Freitas e Oliveira: — Vae votar-se? Quem requereu para se julgar a materia discutida?
O sr. Presidente: — A camara por meio de uma manifestação.
Vozes de todos os lados da camara: — Votos, votos.
Julgou-se discutida a materia.
Leu-se na mesa a seguinte proposta mandada pela commissão.
Proposta
Proponho por parte da commissão que o artigo IV do projecto seja substituido pelo artigo 1.° da proposta do governo. = Lobo d'Avila:
Lido na mesa o artigo 1° da proposta do governo, foi este approvado.
Entrou em discussão o artigo 2°
O sr. Freitas e Oliveira: — Tenho sempre grande escrupulo em entreter a camara com as minhas palavras, e este escrupulo é tão sincero e impera por tal fórma sobre mim, que nunca me occupo duas vezes na tribuna do mesmo assumpto.
E se agora o faço não é para importunar a camara com as minhas considerações, mas para a deleitar com as judiciosas reflexões de um cavalheiro muito respeitado por esta assembléa, e que hoje faz parte do ministerio.
Na sessão de 11 de julho d'este anno, ha trinta e sete dias, ha cinco semanas e meia, ha um mez e poucos dias, o sr. Carlos Bento da Silva dizia o seguinte, para que peço a attenção da camara:
«E agora devo dizer ao illustre ministro da guerra, que o paiz que tiver um exercito bem organisado e animado de sentimentos nobres e patrioticos, tem todas as garantias necessarias para, na actual existencia do direito publico, não temer quaesquer aggressões, mas para isso é necessario ter recursos.
«O marechal Niel principiou por fallar em finanças como introducção á sua organisação militar, principiou por dizer que o primeiro passo é ter dinheiro.
«E foi por onde principiaram os prussianos. Os prussianos, antes de fazerem uso das espingardas de agulha, antes de se cobrirem de gloria no campo de batalha de Sadowa, tiveram um thesouro, cousa que horrorisaria todos os economistas politicos.
«Mas se é um mal ter dinheiro enthesourado, no que póde haver duvida (riso), eu, nas nossas circumstancias especiaes, apesar de ser alguma cousa economista, não me horroriso tanto com isso».
Portanto offereço como resposta ás considerações, aliás muito judiciosas, que eu muito respeito e que ouvi com a maior attenção, do nobre ministro da guerra, as opiniões do seu collega o nobre ministro da fazenda.
Posto á votação o artigo 2.º foi approvado, e seguidamente o 3° e o 4.°
O sr. Presidente: — A ordem do dia para ámanhã é a mesma que vinha para hoje.
Está levantada a sessão.
Passava das quatro horas da tarde.