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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

ORDEM DO DIA

Continuação da discussão do capitulo 8.° do orçamento do ministerio do reino (instrucção publica)

O sr. Presidente: — Tem a palavra o sr. Rodrigues de Freitas para continuar o seu discurso.

O sr. Rodrigues de Freitas: — É possivel que algumas das considerações que tive a honra de apresentar á camara na ultima sessão não parecessem intimamente ligadas ao capitulo de que estamos tratando, para que melhor se comprehenda o meu procedimento vou ler as propostas que hei de mandar para a mesa.

(Leu.)

Tenho ainda hoje de proferir algumas palavras ácerca da instrucção primaria, mas antes d'isso alludirei ao ensino das bellas artes e á necessidade de fundar museus em que se guardem objectos de valor archeologica e artistico, existentes no reino.

A deficiencia dos meus conhecimentos n'este ponto é tal, que seria da minha parte grande ousadia fazer mais do que indicar á camara alguns factos que sirvam para fundamentar a parte da minha proposta que a esse ramo de ensino se refere.

Na segunda parte de um relatorio que já tive occasião de citar este anno acha-se o bastante para que o parlamento se convença da urgente necessidade de tomar providencias efficazes contra a destruição e a perda de objectos que são preciosos não só pelo seu valor, mas tambem como testemunhos da nossa passada grandeza. Esse relatorio é o da commissão para propor a reforma do ensino artistico e a organisação do serviço dos museus, monumentos historicos e archeologia.

As palavras que vou ler são de um trabalho enviado á commissão pelo sr. José Maria Nepomuceno.

Dizia assim.

«Achando-me em uma villa do Alemtejo entrei em uma loja de venda, d'estas que vendem' tudo, desde o corte de retina até ao azeite de purgueira. Pedi charutos. Emquanto me serviam, attentei que na casa proxima havia uma grande serra de livros encadernados, pela maior parte em pergaminho. Perguntei que livros eram; responderam-me que livros de padres e vidas de santos. Informado que me venderiam os que eu quizesse visto estarem para embrulho, pouco me cansei para achar um esplendido exemplar da Vita Christi impresso em Lisboa em 1495 sem lhe faltar cousa alguma, e outro dos Autos aos apostolos, impresso por Valentim Fernandes em 1005, edição tão rará que foi completamente ignorada de fr. Fortunato de S. Boaventura que fez a sua edição sobre um codice incompleto da livraria de Alcobaça, como se vê pela edição antiga. Apartei mais uma importante Collecção de edições da infancia, da typographia portugueza, e outra de chronicas reaes e monasticas. Concertei com o locandario pagar tudo a 45 réis o arratel.

« Ajustado o preço, arma-se o vendedor da faca com que cortava o toucinho, e dispõe-se a cortar as capas dos livros. «Alto lá», lhe digo eu cora solemne abnegação. «Olhe que é contra vossê », me diz o honrado locandario, pasmado de que houvesse tanta generosidade em um forasteiro. Repelidas vezes lhe perguntei a proveniencia d'aquelles livros, e limitava-se a responder-me: São ahi de fóra. Trazidos a Lisboa, vi então que pertenciam a um convento de freiras.»

Menciona depois outros factos analogos, d'entre os quaes especificarei o que se deu no antigo convento da Madre de Deus de Xabregas. Havia ali dois notaveis quadros e varias medalhas de Lucca delia Robbia; extincto o convento, os quadros e as medalhas desappareceram, e nunca mais se acharam; tinham tambem desapparecido um precioso crucifixo de marfim, do seculo XVI, um livro illuminado, em pergaminho, que pertencera á viuva de D. João II, e um relicário feito por um artista de Guimarães, e que é, depois

da custodia do Belem, um dos mais notaveis monumentos da ourivesaria portugueza; felizmente estes objectos o outros de muito valor poderam ser readquiridos depois da muita diligencia.

As freiras nem sempre comprehendem o valor historica ou artistico de um objecto; ás vezes fazem presente d'elle a quem dá uma pequena esmola para o convento. Outras vezes, taes objectos são roubados. Finalmente, é possivel que pessoas contrarias ao regimen liberal, cuidem que fazem bem desviando-os do thesouro publico, para onde teriam de ir; não se dizia outr'ora que Deus condemnava os que compravam bens dos conventos?

Diz mais o sr. Nepomuceno:

«Quantas preciosidades não encerravam os conventos de Lorvão, S. Bernardo de Portalegre, Cellas, Odivellas, Salvador, Martyres de Sacavem? Por exemplo, este ultimo, herdeiro de todos os ricos moveis do escrivão da puridade, Miguel de Moura; assim como o da Madre de Deus o foi da rainha viuva, sua fundadora. E verdade que a fazenda nacional inventariou os conventos das religiosas; mas como foram esses inventarios feitos? Sabe, sr. presidente, qual o valor que a fazenda deu ás duas preciosas portas do arco da sacristia da Madre de Deus? 150(5000 réis! O3 objectos de prata e oiro são avaliados apenas pelo poso, e as tapeçarias em geral, como alcatifas velhas. Mas ainda assim quem responde por esses objectos?

«Com a suppressão dos conventos, tem-se praticado actos do atroz vandalismo. Ainda ha pouco foi supprimido um nas abas de Lisboa, e a junta de parochia pediu as louças do culto. Foram-lhe dadas, o lá foram para a freguezia preciosas jarras da índia e do Japão, soltas n'uma carroça chegando ao seu destino no estado que é de suppor.»

Permitta-me a camara que leia ainda outro trecho:

«E vergonhoso o espectaculo que temos dado ao mundo civilisado no que loca a monumentos nacionaes.

«Deve dizer-se lá fóra: — Um paiz cuja historia e um tecido successivo de factos estrondosos, de que não só elle, como a Europa toda, tirou os maiores elementos de vida, deve estar crivado de monumentos.

«Chega aqui, debaixo d'esta impressão, um estrangeiro, procura um padrão do principio da monarchia, vao a Alcobaça, o dizem-lhe: a igreja está salva, porque está lá a freguezia, mas lêem-se vendido alguns lanços do resto do edificio. O arrematante de um perguntou ao governo o que faria dos tumulos de D. Pedro e D. Ignez de Castro. Isto é espantoso!

«E o que se tem praticado e pratica com as sepulturas dos nossos grandes homens? Os ossos de Duarte Pacheco, que estavam na ermida de S. Matheus, dada depois aos padres Camillos, lá foram para o entulho; assim os do padre Manuel Bernardes, que estavam no Espirito Santo, os de D. Francisco Manuel, o grande modelador da lingua portugueza, lá foram para as praias de Santa Catharina do Ribamar. Provavelmente já a estas horas os protestantes terão atirado para o entulho os ossos de Salvador Correia de Sá, e igual fim lerão algum dia os de Diogo Barbosa Machado, que ainda existem n'uma arruinada ermida á Carreira dos Cavallos. Possuo o fac-simile de uma campa achada no convento de Christo, em Thomar, de um cavalleiro allemão, que devia ser pintor; que importante não seria hoje esta pedra para o estudo da historia da arte em Portugal, pois todos os quadros d'aquella igreja têem o caracter de escola allemã, e quem sabe se seriam pintados pelo artista ali sepultado?»

Chamei a attenção da camara para estes factos, porque de certo nenhum membro do parlamento deseja que continuem a ser desprezadas riquezas tão importantes a que se prendem gloriosas tradições portuguezas, que constituem documentos preciosíssimos, e que poderiam servir para que o povo estudasse na linguagem da arte os feitos de alguns dos nossos mais notaveis antecessores; não continuemos a dar ao mundo civilisado o espectaculo do destruidores da

Sessão de 9 da maio de 1879