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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

sabe perfeitamente que se lêem introduzido transformações radicaes nos exercitos da Europa.

" • E estando s. ex.ª era 1871 no ministerio, depois da guerra franco prussiana, exactamente na epocha das radicalissimas reformas militares, admira que a. ex.ª tenha hoje duvida sobre o modo do transformar o exercito.

Estas transformações começaram pelo serviço militar obrigatorio, isto é, os exercitos dantes não eram em geral de mais de 100:000 ou 200:000 homens, que era o maximo que se encontrava no campo da batalha; hoje são massas consideraveis de homens. Depois completou-se a transformação pelo armamento.

Hoje cora a artilheria esmagadora que existe em toda a parte póde dar-se ás differentes armas a menina organisação que tinham d'antes V E completamente impossivel.

O sr. ministro da guerra não se magoa de certo commigo porque deve saber que tenho para com elle a maior consideração e o maior desejo de não lhe ser desagradavel; o sr. ministro da guerra não se magoa de certo commigo se eu tomar a liberdade do lhe observar que no proprio discurso que acaba de pronunciar foi espantosamente contradictorio.

S. ex.ª começou por dizer: «Quereis reformas? Quaes reformas?

' Não ha reforma possivel no exercito.

Depois concluiu por dizer: «A reforma é essencialíssima; mas não me foi possivel apresental-a.

O seu discirno girou constantemente entre estes dois poios: a necessidade absoluta da reforma, e a zombaria d'essa mesma reforma. (Apoiados.)

Diz s. ex.ª: «Imaginam que as reformas no exercito são as reformas das barretinas ou outras similhantes?»

D'essas reformas não quero eu nem quer ninguem, segundo me parece; (Apoiados.) mas são dessas as poucas reformas que o sr. Fontes tem feito. (Apoiados.)

E depois o sr. ministro da guerra, quando se lho observa que, não cumpre as suas promessas, responde: «Não posso cumpril-as todas ao mesmo tempo; não apresentei ainda a reforma do exercito, porque não a posso fazer senão depois de reformada a lei do recrutamento, que é base essencial de uma boa organisação militar».

O sr. Manuel á.'Assumpção: — Apoiado.

O Orador: — -Primeiro que tudo devo dizer ao sr. Manuel d'Assumpção, que sublinhou as minhas palavras com 'um apoiado, que no anno passado as palavras positivas do 'sr. ministro da guerra foram: «No proximo anno apresentarei a reforma do recrutamento».

(Aparte)

Mas acaba de declarar o sr. Fontes que se a proposta do recrutamento não poder passar este anuo, apesar de todos 03 seus esforços, aguardaremos a futura sessão, e isto: quer dizer apenas que a proposta não passa este anno.

Todos nós sabemos perfeitamente quaes são os nossos habites parlamentares. Desde o momento em que o presidente do conselho diz «se, apesar dos meus esforços, a' proposta não poder passar», é claro que a proposta dormirá por largo tempo nas gavetas da commissão. (Apoiados.)

Isto é assim. Não nos estejamos a ¦ illudir uns aos outros.!

Ora, como dependo da reforma do recrutamento a reforma do exercito, veja v. ex.ª para quando o sr. ministro "da guerra adia esta reforma, a qual sabemos todos que é essencialissima e urgentissima, porque não é na vespera de um cataclismo, mesmo porque os cataclismos não se provêem, que se faz uma reforma d'estas. (Apoiados.)

S. ex.ª já disse aqui que as grandes reformas exigidas pela transformação europeu das instituições militares não se fazem senão depois do unia catastrophe.

Eu protesto 'energicamente contra similhante theoria. (Apoiados.) Não quero que se deixem chegar as catastrophes para depois se fazerem as reformas. Quero que aproveitemos as lições que nos dão os outros, e não que esperemos que uma grande desgraça caía sobre nós,.para depois com uma triste experiencia propria intentarmos qualquer transformação tardia.

Este é que é o verdadeiro patriotismo, este é que é o verdadeiro desprezo peia popularidade, que o sr. Fontes apontava ha pouco.

Era grande se caísse diante da opinião publica revoltada, mas injustamente revoltada, por ter emprehendido as reformas indispensaveis para a segurança do paiz. Então é que s. ex.ª tinha o direito de repeli ir a popularidade ou de passar por cima d'ella, porque o Jazia para deixar consignados na legislação os principios de que depende a salvação da patria. (Apoiados.) Então é que s. ex.ª podia desprezar a popularidade. (Apoiados.)

Disse s. ex.ª que a reforma do exercito não se póde fazer sem grandes despezas.

Eu estou perfeitamente de accordo com isso. E necessario fazer despezas. Para se fazer uma boa reforma do exercito é necessario gastar muitos contos do réis; mas ha uma differença, e uma differença grande; então gastava-se com utilidade e proveito, e hoje gasta-se da modo que a despeza se torna inteira e completamente inutil. (Apoiados) '...'

Disso o sr. ministro da guerra, entre os applausos da maioria, que o exercito estava hoje muito differente do que era........

Desculpe-me s. ex.ª o dizer-lhe que essa differença é para peior. (Apoiados) Digo-o com profunda magna, mas esta é a verdade, o a propria consciencia do sr. ministro lhe ha do estai' dizendo que eu tenho inteira rasão.

E sabe v. ex.ª porque o exercito está peior? Porque ha dez annos, quando ainda não havia armamento novo os soldados sabiam atirar com as armas velhas, emquanto que hoje não sabem atirar com as novas. (Apoiados.) E como queriam que o soubessem se elles não lêem escolas de tiro? (Apoiados.) Como ha de saber se o não instruem. (Apoiados)

É reconhecidíssimo este facto, e torna-se necessario pelo bem patente ao paiz, para que elle exija do sr. ministro da guerra as providencias necessarias. (Apoiados)

Os soldados chegam até a passar para a reserva sem, terem feito um tiro de bala, quando deviam ter mais exercicio do que antigamente, por isso que o manejo das armas novas é muito mais difficil do que o das antigas. (Apoiados.)

Desejava que s. ex.ª me explicasse em que consistem esses melhoramentos. Em os soldados terem armas novas melhores do que as antigas? Mas se ellas se tornam mais inuteis nas mãos d'elles do que as antigas, como já fiz ver á camara! (Apoiados.)

Disse-nos tambem o sr. ministro que tinhamos actualmente maia artilheria e mais cavallaria do que no tempo da guerra peninsular e das campanhas da liberdade. É realmente curiosa esta comparação.

E incontestavel que no tempo da guerra peninsular não Unhamos peças Krupp, mas o mesmo acontecia á França; (Apoiados.) •...... -

Em 1833 dava-se o mesmo facto, e nem de um nem de outro lado havia tambem armas Martini Henri. (Apoiados.),

E quer s. ex.ª comparar o armamento de hoje com o de 1833 o com o da guerra peninsular para d'ahi tirar um motivo de gloria! (Apoiados.)

O confronto deve fazer-se com o que as outras nações actualmente possuem, e não com o que nós Unhamos no primeiro quartel d'este seculo e em 1833. (Apoiados)

Se s. ex.ª continua a fazer comparações d'esta ordem, d'aqui a pouco é capaz de nos dizer que o nosso exercito está mais bem armado do que o estava o exercito portuguez na batalha do Aljubarrota, porque não Unhamos en-

Sessão de 10 de maio de 1879