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1692 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

mento, não deve ser, não póde ser brincadeira de creanças.
Nós todos que estamos aqui, temos barba na cara, talvez haja algum imberbe, mas não o vejo; (Riso.) o por consequencia entendo que é preciso tomar a questão agricola a sério, assim como tudo o mais que se passa dentro d'esta casa. (Apoiados.)
Já morreu um capitalista abastado, com o qual tinha relações, que dizia que a politica devia ser a cousa mais séria d'este paiz, mas que no fim de contas era a cousa menos seria que tinhamos.
Ora eu, pela minha parte, hei de reagir contra isso, e principalmente sendo deputado da nação. (Apoiados.)
Em consequencia, pois, d'estas minhas considerações, sou naturalmente levado a fazer tres perguntas muito simples ao sr. presidente do conselho e ministro do reino, perguntas que são feitas muito á boa paz.
Primeira pergunta: Está s. exa. decidido, não como individuo particular nem como pessoa, mas como chefe do gabinete e da situação politica actual, a tomar a sério as queixas, que têem havido por parte dos lavradores, desde 1882?
Segunda pergunta, e sobre esta, abro primeiro um parenthesis.
Em occasião, que eu aggredi n'esta casa, e tão fortemente quanto me era possivel o fallecido conselheiro sr. Antonio Maria de Fontes Pereira de Mello, eu disse: que antigamente, em certos e determinados casos era necessario ter valor militar, e que um individuo pegasse n'uma espada e se atirasse para a frente; mas que actualmente, (referia-me á epocha em que estava fallando), havia uma outra qualidade de valor, a que eu dava o nome de valor civico, o que consistia em terem os individuos chegados ao poder força de vontade sufficiente para resistir a syndicatos, a suggestões de amigos e para se importarem unicamente com o bem do paiz.
A minha segunda pergunta é, pois, destinada a saber se o sr. presidente do conselho está, n'essa qualidade, disposto a resistir a todas as suggestões, do qualquer natureza que sejam, de syndicatos, de moageiros ou de intermediarios.
Faço a pergunta e aguardo a resposta.
A terceira pergunta, e esta é a mais séria para mim, é a seguinte. Eu desejo saber categoricamente e á resposta ha de ficar empenhada a palavra do sr. presidente do conselho, não como individuo particular, mas como chefe da situação; desejo saber, repito, se s. exa. está decidido a não fazer da questão agricola uma questão politica, por fórma que os srs. deputados da opposição, que nos queiram auxiliar n'esta campanha agricola, tenham a certeza de que as suas observações, os seus raciocinios, não serão envolvidos em numeros e em calculos, architetados de caso pensado e que por isso se prestam a tudo, e que a discussão ha de correr de uma maneira chã, de modo que todo e qualquer camponez possa perceber o se que dizer e o que se fizer.
Quer isto dizer que eu entendo, como hontem disse aqui ao sr. ministro da fazenda, que é necessario que o governo não se deslumbre com as apparencias prosperas relativas, com a subida exagerada da cotação dos fundos publicos, e que, pelo contrario, deve andar mais terre a terre, e lembrar-se de que ha uma crise agricola grave, para a qual tambem hoje concorre a falta de saída dos vinhos, porque chegou-se, segundo as proprias indicações officiaes, a ponto de se produzir mais vinho do que o que se póde consumir no paiz e do que se póde exportar.
É necessario, por outro lado, que o governo attenda a que, perto de Lisboa, toda a região de Torres Vedras está completamente condemnada pela phylloxera, a ponto de individuos, que se achavam hontem na abastança, se encontrarem hoje quasi reduzidos á miseria!
Sr. presidente, é principalmente necessario attender a que a questão da emigração, e todos os outros factos que a acompanham, só demonstra um mal estar geral da massa da população, toda directamente ligada com a questão agricola.
Sr. presidente, n'esta altura, eu sou obrigado a fazer umas outras considerações, e occorreram-me ellas a respeito de uma apreciação, que foi publicada em um jornal, Jornal do commercio, no dia 22 do corrente, por um individuo, que, aliás, eu respeito, embora não combine com as suas idéas.
Essa apreciação já teve resposta no jornal A Epocha de hoje 23.
Sr. presidente, tem havido em Portugal uma mania de estrangeirismo, levada a abuso. A prova está em que nós nos vestimos á franceza, caminhâmos á franceza, emfim, acceita-se tudo quanto de lá vem, até o mau que de lá vem! (Riso.)
Ora eu peço ao governo que se lembre, de que por mais que faça, ou queira fazer, não póde alterar o clima que a natureza nos deu; não póde, recorrendo a essas formulas a que a sciencia agricola chegou, forçar a producção alem de um certo limite, e tem de contar tambem com a indole natural do povo portuguez.
Acrescentarei que a indole natural do povo portuguez é a de um povo geralmente soffredor e respeitador; mas tambem contando com essa indole tem-se a respeito de muita cousa caminhado entre nós, nação portugueza, n'um sentido, que eu considero mau, e ao qual me referirei mais tarde, quando tocar no segundo assumpto, para que pedi a palavra.
Eu entendo que os governos, e não faço com isto accusação ao governo actual, repito, eu entendo que os governos, quaesquer que elles sejam, são levados sempre, pelas forças das circumstancias, a viver n'um meio mais ou menos ficticio, mas, se assim é, tambem entendo que corre aos governos, quaesquer que sejam, e corre portanto ao governo, actual o dever de resistir, de reagir contra as inspirações d'esse meio, e de procurar, pelo contrario, saber quaes são as verdadeiras necessidades da nação e quaes as circumstancias, era que effectivamente está o paiz.
Tudo isto me leva, pois, a insistir com o sr. presidente do conselho, que, como á disse ha pouco, representa o chefe do gabinete e da situação politica actual, para que não se deixe arrastar tambem pelo mau estrangeirismo, que sobre agricultura domina nas regiões officiaes em Portugal, e que se lembre sempre de que estamos em Portugal, com o clima que a Providencia nos deu.
A respeito de quaesquer outras considerações, que ainda me occorreu em relação ao mais, que hontem aqui disse o sr. conselheiro Marianno Cyrillo de Carvalho a respeito dos assumptos do que tratou, ponho-as agora de parte o abstenho-me de alargar o debate sobre isso, porque ha alguns cavalheiros mais inscriptos antes da ordem do dia, que de certo desejam fallar, e eu não quero para mim uma cousa e para os outros outra.
Não quero prejudicar o uso da palavra a qualquer dos illustres deputados que estão inscriptos antes da ordem do dia, e por isso passo ao segundo ponto, por causa do qual pedi a palavra.
Este segundo ponto é espinhoso e melindroso, e por isso tambem chego á occasião de eu abrir a boca, e declaro a v. exa. o seguinte: Se alguém me quizer atacar dentro do recinto d'esta casa pelo que vou dizer, eu torno desde já a v. exa. responsavel por todo o mal que me possa acontecer e pelas consequencias que d'isso me possam advir; porque v. exa., pelo regimento, é o responsavel pela manutenção da ordem dentro d'esta casa; e entendo que, com o regimento que nós temos e com o que está consignado na carta constitucional, v. exa. tem meios mais que sufficientes para manter a ordem n'esta casa. (Apoiados.)
Fora d'esta casa a responsabilidade do que me succeder será do sr. presidente do conselho.