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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

do tem sido e 6 ainda muito inferior o está muito áquem das necessidades reaes das colonias.

O abandono em que as deixámos durante largos annos ha sido tolerado pela Europa, porque esta tem tido a America para onde mandar o excedente da sua população e os productos que lhe sobejam do seu consumo. As circumstancias, porém, mudaram e mudaram consideravelmente.

A grande republica dos Estados Unidos tomou um desenvolvimento tal, que hoje chega a supplantar na Europa a propria Inglaterra. Não importa, exporta, e os seus productos industriaes e agricolas invadem os mercados europeus, e a perfeição d'aquelles e a barateza de ambos dão-lhe já reconhecida superioridade.

Depois o excedente da população ingleza que ía para a America, trata hoje de convergir para outro ponto, e procura estabelecer-se na Africa, porque na America encontra ultimamente uma concorrencia que não póde vencer, que é a concorrencia dos chins, os quaes consomem menos, e produzem mais do que os filhos da nossa altiva e fiel alliada.

Até agora a Inglaterra quasi não precisava da Africa, hoje tudo lhe aconselha a que olhe para esta parte do mundo com séria attenção. E se Portugal não tratar, como lhe cumpre, do engrandecimento das colonias e do promover o seu desenvolvimento, receio muito que, nós os portuguezes que ali temos mais terreno, mas que de menos força dispomos, sejamos expropriados, por utilidade da 'civilisaçào, do que tantos esforços e tão heroicos sacrificios custou aos nossos maiores.

Portanto dizia eu, e repito, que todo o tempo que consumirmos com a questão do ultramar não é tempo perdido; todos os esforços que empenharmos, pondo de parte qualquer dissidencia politica, para promover o engrandecimento, o progresso e a civilisaçào nas possessões que os nossos avós descobriram no continente africano e na Asia, todos esses esforços serão bem vindos e bem empregados.

O assumpto, porém, para que eu deseja chamar a attenção da camara n'este momento é o estado deploravel da administração ecclesiastica no ultramar. '

E declaro que pelos defeitos que se encontram n'este e nos outros ramos da administração colonial, não quero irrogar censuras sómente a este ministerio, mas a todas as situações e a todos os governos, porque todos os partidos e todos os gabinetes que se têem succedido no poder desde 1834 até hoje, têem culpas no cartorio. (Apoiados.)

É necessario que sejamos, antes de tudo, justos. N'esta questão não me lembro que pertenço a um partido; lembro-me primeiro que tudo e acima de tudo que sou portuguez.

Eu disse que circumscrevia as, minhas observações ao estado da administração ecclesiastica, que é verdadeiramente deploravel no ultramar.

Como hontem tive occasião de ponderar, e hoje repito, o fallar de padres, n'este logar, é realmente tarefa ingrata. De experiencia sei que em geral os poderes publicos d'esta terra, não morrem de amores pelo clero, antes com apparencias benevolas lhe são grandemente hostis.

São os factos que se incumbem de provar esta affirmativa. ¦ _

Ainda no principio d'esta sessão legislativa o sr. ministro da fazenda veiu a esta camara propor o augmento de 10 por cento no imposto predial sobre os bens que constituem o patrimonio ecclesiastico e sobre as propriedades da igreja, ainda não desamortisadas.

Creio bem que este projecto está destinado a soffrer morte ignominiosa, que é a morte do esquecimento nos archivos da commissão. Não passa, mas a vontade do governo era clara. O pensamento que o inspirou era evidentemente de hostilidade ao clero, hostilidade aberta e não disfarçada, hostilidade que nem recuou diante do principio da justiça e do preceito da carta, que exige sim, que todos contribuam na proporção dos seus haveres para os encargos do

estado, mas que no mesmo tempo prohibe que se invente uma excepção odiosa contra a classe clerical, que não têem menos direitos do que as outras classes, e á qual se pretendia vexar e opprimir sem rasão, extorquindo aos membros d'ella uma contribuição superior aquella que pagam os outros cidadãos portuguezes.

Esta camara tambem, que se digna de ouvir-me com tanta attenção, attenção que eu não mereço e que muito me penhora, tambem cede um pouco á influencia do meio em que vive, e deixa-se levar mais de uma vez pela corrente das idéas que vogam nas regiões officiaes.

Quantas Vezes v. ex.ª, sr. presidente, não tem ouvido n'essa cadeira onde está sentado, palavras de desfavor para o clero portugez, ao qual eu me ufano de pertencer? 1 Quantas vozes?! E seja-mo permittido dizel-o de passagem, lamento -que isso tenha acontecido n'esta assembléa. (Apoiados.) As palavras aqui proferidas, ouve-as toda a nação. A influencia que ellas exercem é larga e é profunda. (Apoiados.)

Nós, que somos já fracos pela nossa pequenez, mais fracos nos tornamos, se porventura queremos estabelecer antagonismos e rivalidades entre as differentes classes sociaes.

Nós só podemos ser grandes se vivermos unidos todos. (Apoiados.) Mas se o professor vier a esta casa e disser mal do padre, o mathematico do jurisconsulto, o lavrador do empregado publico, o industrial do capitalista, e o medico mal de todos; (Riso)-que lucros advirão á patria de tanta maledicência? Que cohesão poderá haver nas forças d’esta terra nos dias aziagos para vencer o perigo commum, que ameace subverter-nos a todos?

Na sociedade, todas as classes' são uteis; (Apoiados.) todas são prestadias, todas têem o seu logar. (Apoiados.)

Cada uma d'ellas deve trabalhar zelosamente dentro da esphera da actividade que lhe é propria. (Apoiados.) E aquella que prestar á sociedade os serviços que puder, dentro dos limites dos seus recursos, deve considerar-se benemerita da patria e merecer inquestionavelmente as bençãos publicas. (Apoiados.)

Hontem disse, que nas nossas provincias ultramarinas, não havia padres em numero sufficiente, para satisfazer as necessidades espirituaes das nossas vastas possessões. Citei documentos o apontei factos.

Hoje vou ainda lembrar um que assenta em documentos officiaes e que confirma as minhas affirmativas.

A provincia de Moçambique, no dizer do sr. Bulhões, que é auctoridade n'estes assumptos, mede 300 leguas de comprido desde o Cabo Delgado até á bahia de Lourenço Marques, e 200 na sua maior largura desde a embocadura do Zambeze á do Zumbo.

Pois com toda esta extensão o orçamento apenas lhe dá treze padres.

Repare a camara que o effectivo parochial é sempre muito inferior ao orçado, e veja que abundancia de padres não ha em Moçambique.

Este facto e outros que apontei, assim como as considerações que adduzi, parece-me que devem ter demonstrado á camara exuberantemente que no ultramar não ha padres sufficientes.

O sr. Sousa Machado: — Apoiado.

O Orador: — Mas faltam tambem seminarios onde se preparem convenientemente alumnos bastantes para exercerem o ministerio parochial no ultramar.

Para demonstrar esta verdade percorrerei, ainda que rapidamente, todas as nossas provincias ultramarinas, começando em Macau e acabando em Cabo Verde, sem me esquecer de fallar do collegio das missões ultramarinas estabelecido em Sernache do Bomjardim.

Comecemos por Macau. Em Macau ha um seminario muito frequentado. Diz o sr. Corvo que em 1872-1873 tinha 160 alumnos.

Ora, uni seminario com 160 alumnos deve preparar an-