1745
DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES IMPUTADOS
tivamente em sanskrito, do qual Lamartine diz, e creio que com rasão, ser superior ao proprio Homero.
A litteratura indiana tem monumentos superiores aos da litteratura europêa.
A índia possue uma litteratura já feita, tem uma civilisação muito1 adiantada, e exige nos seus padres grande cultura intellectual. Quando apparece lá um pobre padre, educado nos seminarios mal montados que nós temos no Oriente, esse padre não tem prestigio nem auctoridade alguma, o é posto de parto o preterido pelos padres europeus.
Os goanos suppõem o suppõem bem que os padres, educados na Europa sobrelevam aos seus patricios em illustração o cultura.
Os padres europeus que são ali em maior numero são os padres francezes e italianos; portuguezes poucos ou nenhuns.
E seria para desejar que nós mandássemos muitos preparados no collegio de Sernache do Bomjardim, e tendo recebido uma esmerada educação litteraria e theologica, de modo que podessem rivalisar com os padres francezes e italianos e até supplantal-os, se fosse possivel.
Esta é minha opinião, fundada, não em experiencia e observação propria, porque nunca estive na índia, mas nas informações dadas pelos livros e pelos documentos officiaes que tive occasião de ler.
O sr. Luiz de Lencastre: — Apoiado.
O Orador: — Folgo muito que o illustre deputado, o sr. Lencastre, que residiu largo tempo no Oriente, venha confirmar com o seu testemunho auctorisado a verdade das minhas apreciações.
Ora esses padres que devemos mandar para Goa podem ser educados no collegio de Sernache do Bomjardim com sufficientes conhecimentos litterarios o theologicos.
Não nos deve mesmo causar medo a differença do clima, porque mais facilmente resiste um europeu que vae para a Asia do que o que vae para a Africa..
Em relação aos missionarios que devemos mandar para a Africa, muda o caso completamente de figura.
Em primeiro logar, a meu parecer, os missionarios da Africa devem ser educados na Africa.
O sr. Sousa Machado: — Apoiado.
O Orador: — Educar um europeu no collegio de Sernache do Bomjardim, em um clima inteiramente differente d'aquelle em que tem do viver, e mandal-o depois para a Africa sem preparação alguma, é sujeitarmo-nos a perder em um curto espaço de tempo os muitos sacrificios, os muitos cuidados e o muito tempo que tivemos de gastar em preparar um missionário.
O sr. Sousa Machado: — Apoiado.
:0 Orador: — Note-se bem. Não quero que os missionarios que mandarmos para Africa sejam sempre indigenas; é necessario que haja missionarios indigenas e missionarios europeus.
E vou dizer a rasão d'este meu pensar.
No continente africano, o missionario tem um grande prestigio, só pelo facto de ser missionário.
Affirmam-no todos os escriptores.. E isto acontece não só em Africa, mas em todas as nossas Colónias.
A respeito de Timor, por exemplo, já o nosso collega respeitavel official de marinha, o sr. Scarnichia, me contou um facto presenceado por s. ex.ª
Havia em Timor (e desculpe-me a camara esta pequena digressão) um padre chamado Gregorio.
Eram frequentes ali as desordens, e quando o governador, se via afflicto para restabelecer a tranquillidade publica, o que não era raro, mandava chamar o padre Gregorio. Apparecia este e com elle o socego. Era o anjo da paz.
O sr. Scarnichia: — Apoiado.
O Orador: — O apoiado com que acaba do me honrar o meu illustre collega prova: exactidão d'este facto, e como este podia contar muitos outros.
Fecho a digressão e continuo no desenvolvimento das idéas que ía apresentando. Em geral, em todas as nossas possessões ultramarinas, um missionário, só pelo facto de ser missionário, tem um grande prestigio e uma grande auctoridade.
Bem sei que muitas vezes os indigenas os martyrisam o victimam, mas note-se que o preto, quando pratica estes actos é ordinariamente cedendo ás intrigas dos negreiros, porque v. ex.ª sabe perfeitamente que a escravatura diminuo o acaba pela acção dos missionarios. Os maiores inimigo; dos negreiros são os missionarios. Ninguem lhes prejudica mais os interesses. E é isso natural. Se o não fizessem faltariam aos preceitos do evangelho que diz que no céu ha um só Deus, que é pae de todos, e na terra uma familia unica, do que todos somos membros e onde todos somos irmãos.
Os missionarios contribuem efficaz e poderosamente para a extincção da escravatura, estado tão contrario á dignidade humana, como opposto ao dogma da fraternidade pregado por Jesus Christo.
O missionário é o inimigo declarado e intransigente da escravatura; o negreiro, o "flagello e o perigo maior do missionário. '.
Fóra, porém, dos negreiros, este nada receia dos homens nos sertões da Africa. É immensa a auctoridade que elle tem, é immenso o seu ascendente no espirito do negro.
O sr. Sousa Machado: — Apoiado.
O Orador: — Mas quando o missionário reune á qualidade de missionário a de europeu, a sua auctoridade e prestigio são ainda maiores.
O sr. Sousa Machado: — Apoiado.
O Orador: — No interior da Africa estão estabelecidos muitos europeus, que são geralmente respeitados pelos negros. E para não citar muitos nomes, lembrarei só o sr. Anchieta, que ha muitos annos está em Angola, vivendo no sertão, prestando serviços e serviços relevantes á patria e á sciencia, e com tal abnegação e desinteresse que bem merece ser apontado como modelo e exemplo n'esta epocha tão egoista e tão interesseira. (Apoiados.)
O sr. Anchieta está ha muitos annos no interior do continente africano, vivendo no meio dos pretos, e vivendo com elles na melhor harmonia. Nem um unico desgosto o tem affligido, a não ser, vergonha é dizel-o, da parte das auctoridades portuguezas.
O sr. Bocage: — Apoiado.
O Orador: — Estimo muito que o sr. dr. Bocage confirmo a verdade das minhas palavras.
Nenhum testemunho eu poderia obter mais competente do que o de v. ex.ª, que está hoje, como tem estado sempre desde que o sr. Anchieta deixou Lisboa, em correspondencia official e particular com este illustre naturalista, cujo nome conhecido e respeitado em toda a Europa culta, é uma honra para a sciencia e uma gloria para a patria. (Muitos apoiados.)
Dizia eu, que o europeu só pelo facto de ser branco, exerce um grande ascendente sobre o espirito do negro.
E, sendo assim, facil é de ver que os missionarios encarregados do iniciar os indigenas africanos nos rudimentos da fé, e de os desligar das crenças e praticas do fetichismo para as verdades catholicas, devem ser europeus.
O sr. Sousa Machado: — Apoiado.
O Orador: — O trabalho da iniciação é muito difficil. Arrancar o negro das superstições recebidas na infancia e enraizadas n'uma raça ha seculos, é empreza que só deverá ser tentada e poderá ser realisada pela auctoridade do missionário branco.
Porém, logo que estejam fundadas igrejas e convertidos á fé os pretos, a obra começada por europeus, poderá ser confiada sem perigo a missionarios indigenas.
O sr. Sousa Machado: — Apoiado.
Sessão de 15 de maio de 1879