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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

O Orador: — O prestigio d’estes será sufficiente para conservar os neophitos na sua nova religião.

Este systema rasoavel é seguido pelos estrangeiros.

rio Cairo ha um estabelecimento de missões e em Argel ha outro. Do primeiro saem missionarios para o Soudão Oriental, do segundo para o Sahará ou Soudão Occidental.

São todos educados, porém, ou quasi todos, em Africa para se acostumarem ao clima, que é o peior inimigo dos europeus no continente africano.

Muitos dos missionarios são indigenas Estes resistem mais ao tempo, não estranhara o clima, vivem no meio que lhe é proprio.

Eu desejava tambem que os nossos missionarios, quer indigenas, quer europeus, que se destinam para a África, fossem educados na Africa para assim se costumarem ao clima.'

E sendo adoptado este meu alvitre, poder-se-ia escolher para fundar o collegio de missões africanas uma das ilhas de Cabo Verde, ou melhor ainda, uma das terras menos insalubres de Angola, não digo" do litoral, que em geral é mau, mas no interior, onde ha pontos em que o clima é menos áspero. '

Já fallei a este respeito com um dos nossos collegas, que muito respeito, e que é muito conhecedor das cousas de Africa, e por este me foi indicado um ponto sobre o qual tomei depois informações mais minuciosas e que reconheci ser effectivamente muito asado para um estabelecimento de missionarios. Refiro-me a Huilla no districto de Mossamedes. ' •

Mas a educação dos missionarios africanos deve de ser Inteiramente differente da dos que nós mandamos para a índia.

O missionário africano deve antes de tudo saber latim, que é a lingua do breviario, do missal, da theologia o da igreja.

E quando digo que deve saber latim, não exijo que o saiba como o sr. Sampaio.. (Riso.)

Não é necessario que, elle conservo de memoria e aprecie devidamente as odes de Horácio, as satyras de Juvenal, os conceitos sentenciosos de Tácito e os versos inspirados de Virgilio. Não. Basta que saiba o latim sufficiente para se desempenhar dignamente das funcções, do seu ministerio.

Deve tambem saber a lingua dos povos onde vae missionar para se fazer entender e entender aquelles a quem tem de se dirigir, e com os quaes tem de viver e tratar. Alem d'isso deve saber historia e geographia elementar, estudo indispensavel a todo o homem, principios elementares de theologia dogmática e noções muito desenvolvidas de moral christã, porque o missionário é mestre da religião. Das outras cadeiras de theologia, e das disciplinas subsidiarias talvez possa dispensar as noções profundas o a sciencia' eminente, cuja falta seria digna de reparo em padres, que se achassem ou tivessem de exercer o seu ministerio n'outro meio, ou occupassem grau elevado na hierarchia ecclesiastica. Mas em compensação o missionário africano deve saber principios de sciencias naturaes, de mathematica, de agricultura, de hygiene e até de medicina. Todas estas noções serão proveitosas para elle e para os povos onde' vae missionar, e augmentando o prestigio do missionário, tornarão mais efficaz a sua missão.

O sr. Sousa Machado: — Apoiado. ' O Orador: — Isto posto, sem violencia se póde concluir que o collegio de Sernache póde servir pára missionarios para a índia, mas não para missionarios para a Africa, porque estes devem ser educados na Africa e não em Portugal, e receber educação religiosa, litteraria e scientifica muito differente da dos que vão para a índia.

Sr. presidente, ainda tenho outro reparo a fazer. No collegio de Sernache ainda não ha cadeiras do linguas coloniaes, e é preciso que os missionarios as saibam, e melhor será que as aprendam no seminario, e que d'este sáiam

promptos para começarem logo a exercer com proveito o seu difficil ministerio.

Sei que era Sernache do Bomjardim já se estabeleceu este anno uma cadeira, em que se ensina um dialecto da índia o concani, mas faltam cadeiras"de outras linguas coloniaes, e seja-me permittido dizer de passagem, que o ensino do concani é precisamente o monos util para o missionário, e que este melhor podia dispensar.

No que respeita a colonisaçâo, desprezámos, como em muitas outras cousas, exemplos que nos dão nações mais adiantadas, mais cultas e mais civilisadas do que nós, q creio que d'este desprezo só nos póde advir, e já adveiu, mal e muito mal.

A Hollanda só nomeia para as suas colonias da Oceania empregados que conheçam a lingua que ali se falia, a lingua malaya. Os inglezes exigem nos funccionarios que mandam para as suas possessões da Asia o conhecimento, do marata ou hindustani, e quando não encontra individuos habilitados com o conhecimento de qualquer d'estes dialectos, impõe-lhes a obrigação de aprender um d'elles dentro 'de tres annos, sob pena de cessar a nomeação.

i Este systema dos hollandezes e inglezes é muito rasoavel. Em minha opinião todos os empregados do ultramar, tirando os empregados superiores; porque emfim sendo a nomeação d'esses por tres annos não1 valo a pena obrigal-os a estudar as linguas coloniaes, deviam saber o dialecto ou a lingua dos povos para onde" são mandados»

De outra maneira, ficam sujeitos a muitas fraudes, embustes e enganos a que os levamos interpretes. (Apoiados.)

A Hollanda e a Inglaterra tanto reconheceram a utilidade das linguas colonicas, que estabeleceram nas metropoles cursos em que estas se ensinam.

Nós tambem ternos uma cadeira de sãoskrito. e só isso, mas o conhecimento d'esta lingua hão é dos que produz mais vantagens praticas immediatas para a administração colonial....

Mas quer o governo se convença quer não da necessidade dos empregados que manda para as. nossas possessões saberem os dialectos o linguas coloniaes, do que se deve convencer é que os missionarios não podem prescindir do conhecimento de uns e de outras'. Pois se elles têem do. tratar diariamente com os indigenas, transmittir-lhes os seus pensamentos e receberem as idéas dos povos com quem convivem, como é possivel que ignorem a sua lingua?

Por isso n'um collegio bem organisado de missões ultra-marinas, devia ensinar-se chim aos missionários' do Macau, malayo aos de Timor; (Apoiados.) marata ou hindustani aos da índia.

E, digo marata ou hindustani porque na índia ha tres dialectos, estes dois e ò concani. O primeiro é a lingua litteraria do paiz, na qual ha os monumentos escriptos mais preciosos da índia; o segundo é o mais geralmente usado, é para a índia como o francez é para a Europa; o terceiro, simplesmente fallado, e fallado só na costa, não está bem formulado, tem um uso muito restricto o tende mais a desapparecer do que a aperfeiçoar-se.

Entendo eu portanto, que os 'missionários mandados para a India devem conhecer o hindustani ou o marata e talvez antes aquelle do que este. O concani é o menos util e está longe de ser necessario.

Isto pelo que respeita á Asia e Oceania. Na Africa ha uma quantidade immensa de linguas quasi todas na infancia, sem formas fixas e determinadas, o que tendem a desapparecer. E certo porém, que o desapparecimento de uma lingua só póde realisar-se successivamente pelo decorrer dos annos e talvez dos seculos, e emquanto essas linguas existirem é conveniente que os missionarios que vão levar a palavra de Deus as conheçam para serem entendidos pelos indigenas. Seria absurdo exigir aos missionarios o conhecimento de