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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

todas as linguas africanas, que são numerosas. Mas ha duas, uma na costa occidental e outra na costa oriental que são mais usadas e que elles não devem ignorar: na costa oriental o macúa, na occidental o bunda ou nebundo.

Já vê portanto a camara que não temos no ultramar numero sufficiente de seminarios convenientemente montados para dar ás colonias os missionarios de que ellas precisam, e que o collegio de Sernache pelo local onde está collocado e pela estreiteza do edificio em que está estabelecido, pela uniformidade do ensino que ministra a todos os seus alumnos, e pela falta de cadeiras de linguas coloniaes, está muito longe de poder corresponder aos seus fins. (Apoiados.)

Disse eu hontem á camara que havia de fallar, não só da falta de padres e de seminarios no ultramar, mas tambem de templos, e é este ultimo assumpto a que vou referir-me agora.

E n'este não preciso cansar-me muito, porque os testemunhos são abundantes, claríssimos e tão eloquentes, que me dispensam de lhes juntar commentarios ou sobrepor considerações. Faliam por si.

Na frente de todos elles colloco as palavras do sr. ministro da marinha na sessão da camara dos dignos pares de 12 de março ultimo.

Referindo-se ao ultramar disse o sr. Thomás Ribeiro:

«Começámos por nem ter lá igrejas, sr. presidente, e algumas que tivemos vão caindo.»

Onde podia eu achar prova mais decisiva e auctoridade mais competente? (Apoiados.)

O illustre bispo de Angola, no relatorio que mais de uma vez tenho citado á camara, diz o seguinte:

«No litoral, e não em todo elle, e pouco mais, apenas ha algumas igrejas e más, e sem utensilios precisos, e sem meios de sustentar o culto com decencia. Basta dizer que o Ambriz, povoação importante, que já tem requerido a categoria de villa, onde ha estabelecimentos commerciaes de differentes nacionalidades, alfandega, hospital, um batalhão, não tinha ha pouco escola, e ainda agora não tem igreja, e o parocho officia n'um quarto da residencia do chefe, onde o povo receia ir, pelo risco de ser esmagado pelo tecto em ruinas; no Dande, centro de muito trato commercial, no Golungo alto, que já foi sede de districto, em Ambaca, cabeça de comarca, succede o mesmo; ajuize-se o resto.»

Ajuize-se do resto, diz o illustre prelado; ajuize-se do resto, digo eu tambem.

Isto não carece de commentarios.

Mas que admira que as igrejas do ultramar estejam n'este estado, se no respectivo orçamento não ha verba alguma especial, nem para edificação, nem para concerto de templos?

Para as igrejas do reino ha uma verba rasoavel que em epocha de eleições se augmenta consideravelmente, (Apoiados) mas no ultramar parece que o governo, nem mesmo em tempo de eleições se lembra de ser devoto. (Riso. — Apoiados.)

Eu disse que no orçamento do ultramar não havia verba alguma especial para igrejas, mas não disse bem.

Effectivamente ha ali tres verbas que me parecem destinadas para concertos de igrejas, ou para fabricas parochiaes na provincia da índia.

Duas são de 120$000 réis cada uma, e a terceira de 50$000 réis; total 290$000 réis fracos.w

O orçamento diz: «consignação para a igreja de Assolná, para a igreja de Velim, e para a igreja de Linhares.»

Não comprehendo bem o sentido da palavra consignação applicada a igrejas.

Creio que o orçamento aqui, para ter côr local, foi redigido n'algum dialecto do paiz, e, comtudo, parece-me que não se perdia nada que este, como todos os documentos officiaes, fossem escriptos em bom portuguez. (Apoiados.)

Em todo o caso a verba é destinada unica e exclusivamente a tres templos, ou tres igrejas, e é insignificantíssima.

A verdade é que não ha no ultramar, nem seminarios, nem padres, nem templos, como exigem as necessidades das nossas possessões.

O sr. Sousa Machado: — Apoiado.

O Orador: — Quer v. ex.ª e a camara ver a prova cabal d'isto? Está no orçamento do ultramar.

Examinando este documento vê-se que para a administração ecclesiastica das seis provincias do ultramar, desde Cabo Verde até Macau, se destina uma verba de réis 89:333198.

Note-se que esta verba não chega a ser toda gasta, como eu hontem demonstrei á camara.

Mais de um terço da verba destinada á administração ecclesiastica na índia não se gasta, e em muitas outras possessões uma parte consideravel não se gasta tambem, porque não ha padres.

Parece-me portanto, que não exagero, calculando que d'aquella verba apenas se gastarão 60:000$000 réis com a administração ecclesiastica, em todas as nossas possessões.

E sabe a camara quanto se gasta annualmente com obras publicas em Angola, isto é só n'uma provincia? A bagatella de 66:000$000 réis. Note-se que d'esta verba não deixa provavelmente de se gastar nem um real.

De modo que para obras publicas n'uma só provincia, destinamos e gastámos mais do que em toda a administração ecclesiastica de todas as nossas colonias.

Isto é uma vergonha para Portugal. Não se me leve a mal que eu a revele alto e bom som, porque é necessario pôr um termo a este abandono com que no ultramar tem sido tratado o elemento religioso. (Apoiados.)

Não sou inimigo dos melhoramentos materiaes.

A camara faz-me a justiça de acreditar que eu quero estradas, caminhos de ferro e telegraphos electricos; quero todos os inventos da moderna civilisação, não sou inimigo do progresso. Quando porém se trata de civilisar as nossas colonias, parece me que não devemos cuidar só da materia, mas tambem alguma cousa do espirito. (Apoiados) O homem não vive só de pão.

As condições climatéricas das nossas possessões, e talvez tambem que em grande parte o atrazo de muitas d'ellas, obrigam os missionarios a grandes inclemencias e a grandes sacrificios.

. O governo da metropole aggrava todas essas inclemencias e sacrificios, condemnando os missionarios ao martyrio da fome.

O padre não vae, não póde ir missionar para os nossos dominios de alem mar, com o mesmo intuito que leva o filho do Minho para o Brazil, para fazer fortuna. Longe de mim similhante idéa. O que eu quero, o que a justiça exige é que lhe não falte o sufficiente.

A nação portugueza ao enviar um padre para o ultramar, deve dar-lhe o que elle precisa para subsistir e viver decentemente. Mais ainda, quando o missionário, por uma velhice precoce, resultante menos dos annos, do que do clima e do trabalho, trabalho improbo e pesado, se inutilisar para o ministerio parochial, de rasão é que tenha garantido o socego nos poucas dias em que tenha de viver. Sem rodeios nem circumloquios, declaro que é vergonha, o vergonha grande, mandar um padre qualquer para as colonias, não lhe dar lá os meios de vida, e quando elle, farto de trabalho, consumido pelas febres, e com a saude perdida, quer voltar para o continente, abonar-lhe apenas a bagatella de 6$000 réis mensaes. Assim é impossivel obter padres no ultramar.

O sr. Sousa Machado: — Apoiado.

O Orador: — Um dia apresentei n'esta casa uma representação dos padres de Moçambique.

Geria então a pasta da marinha o sr. Corvo. Chamando

Sessão de 15 de maio de 1879