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DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

Ao contrario os parochos do ultramar têem vencimentos muito mais, mesquinhos do que os do continente.

O sr. Sousa Machado: — Apoiado.

O Orador: — E note acamara:que apesar de n'estes ultimos tempos se terem augmentado os ordenados dos professores de instrucçâo primaria do ultramar, ainda assim grande numero de cadeiras estão vagas!

Ora quando os professores do ultramar escaceiam, tendo uma remuneração ião superior aquella que recebem os do continente, imagine-se o que acontecerá com os parochos.

O sr. Sousa Machado: — Apoiado.

O Orador: — Mas ainda ha outros funccionarios, cujas remuneração comparada com a congrua dos parochos é mais extravagante.

O sacristão do, governador da índia tem 70$000 réis, em quanto parochos ha n'esta mesma provincia, como já disse, que lêem 71$000 réis.

Os sacristães de Damão e Diu têem,.pelo orçamento, 64$000 réis, isto é,. mais do que um grande numero de parochos de Cabo Verde.

Ainda na índia ha amanuenses com 250$000 réis, porteiros de secretaria com 300$000 réis, e continuos com réis 123$000..De maneira que na índia um porteiro recebe mais de quatro vezes aquillo que recebe um parocho!

Em todos os estados da índia, comprehendendo Diu e Damão, ha apenas oito parochos que tenham congrua superior aos ordenados dos continuos das secretarias.

Mais ainda. Na índia, os parochos, em geral, recebem vencimentos inferiores ao primeiro sargento da companhia de saude! Este tem 173$850 réis, em quanto grande numero de parochos, como já ponderei á camara, recebem apenas 71$000 réis.

Á congrua d'estes até é inferior á remuneração orçamental dos officiaes de diligencias, pois que estes recebem 123$000 réis..

E se algum parocho tem a infelicidade de adoecer, ou de se impossibilitar, então fica perfeitamente desgraçado.

Na índia não se lembram os parochos de resignar os seus beneficios; ao menos no orçamento não vem verba algum no capitulo de administração ecclesiastica para os sustentar.

Só no orçamento da provincia de Angola apparecem duas verbas para parochos resignatarios, uma de 80$000 réis, outra de 106$666 réis. Aqui está a largueza, a bizarria, a generosidade com que galardoamos os serviços dos parochos do Ultramar que se impossibilitam no exercicio do seu ministerio.

Agora quer a camara saber qual é a avareza estreita e apertada com que aposentamos, reformámos e jubilamos differentes funccionarios no ultramar? Eu lh'o vou dizer, porque é instructivo e edificante. Refiro-me aos estados da índia.

Na índia um facultativo reformado recebe 2:248$250 réis. Um pharmaceutico 1:479$000 réis. Um ajudante jubilado de professor, de desenho (note-se que não é um professor, é um ajudante) 756$00O réis. Um professor de instrucçâo primaria 353$000 réis. Um porteiro de contadoria aposentado 204$000 réis. E ha escripturarios aposentados, que recebem de 244$800 réis a 442$000 réis.

Não preciso dizer mais nada. Basta a leitura d'estes algarismos para' mostrar á camara a injustiça monstruosa de que é victima o nosso clero do ultramar! (Apoiados.)

Abandonámos o nosso clero do ultramar e não fizemos bem. Pelo menos não seguimos os exemplos que estranhos nos dão, e estranhos auctorisados pela sua illustração e adiantamento.

O sr. Sousa Machado: — Apoiado.

O Orador: — Estamos muito longe de imitar o procedimento da Inglaterra e da França.

Como eu hontem disse á camara, o pontifico mandou missionarios em 1865 para Angola: esses missionarios estabeleceram-se em S. Paulo de Loanda, no Ambriz e em Mossamedes. O papa queria tambem mandal-os para o Congo e as auctoridades portuguezas não os admittiram e dentro em pouco trataram de expulsar os que estavam na provincia de Angola.

Pois, sr. presidente, ao: passo que assim procedemos, nós, que somos nação catholica, a Inglaterra protestante manda e sustenta na Serra Leoa missionarios catholicos, filhos do institutos romanos.

Acamara sabe que. ha um estabelecimento importante de missionarios na. Serra Leoa, colonia ingleza fundada em 1787 com os negros' emancipados da America do norte. Para esse estabelecimento foram primitivamente sete missionarios, os quaes não tardaram em cahir todos victimas das febres.

Depois foram indo outros successivamente e hoje existem lá seis. A Inglaterra é protestante e subsidia largamente os missionarios e faz bem em os subsidiar, porque os fructos que elles têem dado são abundantes e bem sazonados.

Basta dizer que n'esta. colonia, onde ha 300 a 400 catholicos, ha tres escolas, um. asylo para orphãos e um hospital; o que tudo é obra dos padres, para que nós olhamos com tanto desdém.

!E note-se que em todos os pontos da Africa, onde ha missionarios se nota grande differença na cultura do povo, porque os missionarios, religiosos têem sido algumas vezes missionarios da sciencia e são quasi sempre missionarios da civilisação.

. Até, na Senegambia ha uma imprensa fundada por missionarios onde têem sido impressas differentes obras, como grammaticas, diccionarios, etc. dos differentes dialectos destes paizes.

.Mas, não é só na Serra Leoa, que a Inglaterra tem missionarios; tem os na Africa central, nas regiões dos Lagos, juntos do lago Nyassa ou Marari, e nas margens septentrionaes do lago Alberto.

E a Inglaterra liga aos trabalhos d'estes missionarios tal importancia, que não duvida destinar para as despezas d'elles a enorme somma de 25.000:000 de francos.

Como a Inglaterra procede a França.

Na região dos lagos ha tambem missionarios francezes enviados pelo arcebispo de Argel, e estabelecidos nas margens do rio Loulaba.

Ainda ha pouco os jornaes francezes publicaram uma carta na qual em phrases sentidas, o arcebispo de Argel noticiava á viuva Pascal a morte de seu filho Joaquim, superior da missão do lago Tanganica.

Joaquim Pascal fóra victima das febres. Os missionarios na Africa, não tem só a soffrer da fereza dos homens. Muitas vezes succumbem na proveitosa, mas humilde obra em que andam empenhados, victimas do clima, e colhem a morte como premio unico no mundo das suas fadigas e dos seus trabalhos.

Não é só na Africa que a França subsidia missionarios. Em 1850 o governo francez, e note-se que era um governo republicano, quiz estabelecer uma penitenciaria agricola na Guyenna, e mandou para lá frades.

Foram oito os primeiros enviados, e a grandeza dos serviços por elles prestados corre parelhas com a dos sacrificios e inclemencias por que passaram esses homen3 cheios de resignação e de fé.

A aspereza do clima é extraordinaria. A avaliar-se pelas descripções que d'este paiz fazem os escriptores, a nossa Guiné, comparada com a Guyenna, fica a perder de vista no que respeita a más condições hygienicas.

Para conservar a vida, os pobres padres têem de luctar, e luctar sempre com os chiques, pequenos insectos que se introduzem dentro da pelle, causando dores horriveis; com os macqua, moscas que se introduzem nas fossas nasaes, dando lugar á formação de pequenos vermes, que começam a devorar o homem, antes d'elle ser cadaver; com as grandes e frequentes ophthalmias; com a febre amarella, que. não se esquece de visitar aquellas paragens, etc. Apesar de tudo a penitenciaria agricola lá existe dirigida por mis-

Sessão de 15 de maio de 1879