O texto apresentado é obtido de forma automática, não levando em conta elementos gráficos e podendo conter erros. Se encontrar algum erro, por favor informe os serviços através da página de contactos.
Não foi possivel carregar a página pretendida. Reportar Erro

1750

DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

sionarios que foram para lá mandados pelo governo republicano de França, e que ainda hoje o governo tambem republicano ajuda, protege e sustenta.

E que vemos nos Estados Unidos?

O que faz essa nação tão grande pelo arrojo dos seus commettimentos, pelo adiantado da sua civilisaçào, e que todos os dias dá lições ao mundo, assombrando-o com o, seu incessante progredir, progredir, que é a um tempo a admiração e a inveja do velho continente europeu? (Apoiados.)

A grande republica americana trabalha sempre, não cessa no seu lidar constante, e todos os dias trata de alargar o augmentar os seus estados.

Bosques frondosos, onde ainda ha pouco, não se ouvia nem o som do machado, nem a voz do homem, onde reinava silencio profundo, apenas interrompido a espaços pelo rugido das feras e pelo canto das aves, desapparecem como por encanto, para dar logar a povoações novas. (Vozes: — Muito bem.)

Mas os americanos, quando tratam de fundar uma povoação, a primeira cousa em que pensam, o que fazem antes de tudo, é levantar um templo, e ao lado do templo uma escola. Tanto aquelle povo reconhece a importancia da religião.

Se quizermos tratar da colonisaçâo da Africa e promover o engrandecimento das nossas colonias, não devemos desprezar o elemento religioso.

Nem todos porém, infelizmente entre nós, pensam que é necessario e conveniente seguir os exemplos, que a este respeito nos dão as nações cultas.

. Não pretendo affirmar que todos os homens illustrados do nosso paiz, o que pensam seriamente nas colonias, sejam da opinião que se devem esquecer as necessidades do culto e clero ultramarino.

Peço licença á camara para contar um facto que ainda ha pouco tempo succedeu commigo, e cuja authenticidade posso garantir.

Um dia encontrei-me por acaso com o meu antigo amigo, a quem estimo muito, o sr. Rodrigo Affonso Pequito. Conversei largamente com elle a respeito do estado presente das nossas colonias e quanto urgia prover de remedio ao abandono em que se encontravam.

No meio, porém, da nossa conversação, ou pratica, lembrei-me eu de atalhar dizendo: mas Portugal não quer padres!

Com grande surpreza minha replicou o sr. Pequito, dizendo: «não querem padres?! Eu quero-os, quero muitos, quero-os em grande quantidade, convenientemente educados e sufficientemente illustrados.

«Quando se fundou a sociedade de geographia em Lisboa, continuou o sr. Pequito, um do3 nossos consócios, logo em uma das primeiras sessões fallou da necessidade, de instituições monasticas, e conventuaes para a civilisaçào da Africa, e similhante alvitre foi muito mal acolhido pela sociedade. Filhos da geração nova, e educados nas idéa3 liberaes, que muitos julgam ser oppostas ás catholicas, ou conciliarem-se pouco com ellas, nós ouvimos com horror, ou pelo menos com pouco agrado, opinião tão singular;

«Mas passaram dias, decorreram semanas, volveram mezes e nós estudámos, reflectimos e amadurecemos a idéa que a principio não fóra bem ponderada, e afinal hoje no espirito, não direi de todos os socios da sociedade de geographia de Lisboa, mas n'um grande numero d'elles está o convencimento profundo de que os frades são indispensaveis para a civilisaçào africana.»

Estou auctorisado a contar este facto; de outra maneira não o relataria aqui. E elle vem em reforço das considerações que apresentei, e assevera que é impossivel tratar seriamente da civilisação das nossas possessões, continuando o elemento religioso a ser tratado pelos poderes publicos d'este paiz com incuria e desleixo, para não dizer com desprezo, como tem sido tratado até agora.

Já que fallei na sociedade de geographia de Lisboa, permitta-me v. ex.ª que eu n'esta occasião e n'este logar a felicite, na pessoa do sr. dr. Bocage, pelos muitos e relevantes serviços que ella, nascida ha dois dias, tem já prestado á patria, á sciencia e á civilisação. (Apoiados.)

O nobre empenho e zêlo com que esta sociedade tem auxiliado e promovido as expedições scientificas e geographicas no interior de Africa são dignos de todo o elogio, assim como tambem é digno de todo o elogio o denodo, desembaraço e sciencia com que vindicou para o nome portuguez a honra e gloria que na prioridade das descobertas geographicas da Africa central inquestionavelmente nos pertencem, que a historia nos dá de um modo que não póde ser contestado seriamente, e que estranhos e invejosos nos pretendiam usurpar. (Apoiados.)

Eu felicito na pessoa do sr. dr. Bocage a sociedade de H geographia, sobretudo pela sua origem excepcional.

Todos nós sabemos, e isto não é offensa para ninguem, que somos essencialmente indolentes; uma nação de preguiçosos e de eternos menores. Afflijimo-nos com a idéa de que chegue a epocha da nossa emancipação; não prescindimos de tutella; esperámos tudo do governo. Até já tem acontecido n'esta boa terra de Portugal uma esquisitisse extraordinaria. Nas epochas eleitoraes alguns circulos têem-se lembrado de requerer ao governo que lhes indique os candidatos. (Riso.)

A iniciativa particular entre nós é uma cousa rara, muito rara.

Ha no mundo dois povos que são grandes; e essa grandeza provém-lhes especialmente da iniciativa rasgada e ousada dos seus filhos.

Ha dois povos no mundo verdadeiramente grandes, a Inglaterra e os Estados-Unidos, e esses povos devem a sua grandeza, a sua prosperidade, e o seu explendor sobre tudo á grande actividade, á grande iniciativa particular dos seus habitantes. (Apoiados.)

Nós esperamos tudo do governo.

Como excepção a esta regra commum, appareceram nos ultimos tempos dois factos importantissimos: o methodo de João de Deus, ou antes a propaganda dada ao methodo de João de Deus e a sociedade de geographia.

Penso eu que o governo não tem ajudado de um modo conveniente o primeiro d'estes melhoramentos, que, no meu humilde entender, é verdadeiramente gigantes, porque o methodo de João de Deus é sequestrar á ignorancia a geração nova, as creanças nascidas em Portugal, que até agora -na sua grande maioria eram analphabetas. (Apoiados.) E a ignorância' é a escravidão.

Ser ignorante é ter fechados os olhos do espirito, e eu quero a luz para todos. Ser ignorante é ser dependente, e eu quero que a liberdade não seja privilegio de alguns, mas patrimonio de todos. (Apoiados.)

E por isto que eu digo que o methodo de João de Deus é um melhoramento gigantes do nosso seculo, o lamento que o governo não tenha correspondido ao empenho com que a iniciativa particular trata de o propagar e estabelecer no paiz.

Sei que ha n'esta casa uma proposta para que esse methodo seja ensinado officialmente nas escolas. Eu mesmo tive a honra de a assignar.

Ignoro qual destino a. espera, mas faça votos para que seja approvada. (Apoiados.)

Mais feliz do que a propaganda do methodo de João de Deus foi a sociedade de geographia de Lisboa, porque forçoso é dizer que o governo tem correspondido aos pedidos e ás solicitações que esta sociedade lhe ha feito. (Apoiados.)

Creio bem, e n'isto não vae o mais pequeno desejo de censurar o governo, que este tem ajudado a sociedade de geographia com empenho, menos attendendo á excellencia do fim a que ella se propõe do que ao valimento de alguns dos membros d'esta prestadia associação.

Creio bem que, se outras fossem as pessoas que na so-