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1770 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

eu disse que com luvas ou sem luvas esses negocios foram assim arranjados, como outros.
E isto fundado nas illações que tirei, não direi rigorosamente logicas, mas justificadamente humoristicas, d'esta leviandade que aqui está.
Pede s. exa. as provas da moralidade?
Pergunta s. exa. quem é que recebeu luvas?
Se ou aqui viesse dizer que o gabinete recebia luvas, se levantasse uma asserção d'esta especie, era obrigado, pelas circumstancias proprias do meu caracter e da minha dignidade, a dizer quem era que as recebia.
Se tivesse de fazer esta accusação, com certeza não era discutindo com humour a respeito das sessões nocturnas que havia de pedir a responsabilidade do gabinete.
Agora o que eu não comprehendo é que s. exa. venha pedir a mim o que não pediu á opinião publica. (Apoiados.)
Raro tem sido o projecto importante trazido ao parlamento pelo governo, a que s. exa. preside, que a opinião não tenha envenenado com as insinuações mais vilipendiosas. E vem s. exa. pedir-me provas? Não foi s. exa. chefe do gabinete, que intentou o processo Hersent na Boa Hora? Quem foi pois que poz em duvida a dignidade do gabinete?
Pois s. exa. é o primeiro a dizer em pleno parlamento, que é a sentinella, vigilante dos seus collegas: A quem é que vigia então? É a mim ou aos seus collegas?
Escusa de dizer s. exa. que não, porque eu já estou habituado a essas negativas.
Quem ignora que s. exa. oppoz resistencia ao monopolio dos tabacos, reputando isso um acto immoral? Sou eu porventura, que venho dizer á opposição: se os senhores atacassem o meu collega ministro da fazenda, comprehendia se, mas a mim, que sou um homem honesto?!
Tambem s. exa. não se lembrará de ter dito isto? Pois disse-o aqui.
Se não sou eu que faço accusações directas ao governo, e tiro apenas simples illações de tudo isto, como posso e entendo, e vem s. exa. exigir-me provas?! Provas de que? dos actos que eu não accuso?
Eu sou bastante novo no parlamento, mas já sou velho de uma experiencia feita de quatro annos, para saber como tudo isto marcha.
Sob este ponto, permitta-me v. exa. que eu recapitule tudo quanto disse.
Eu não fiz accusações nenhumas. É preciso que s. exa. note que eu podia, e não disse que a opinião publica diz que alguns dos projectos que s. exa. offerece á nossa consideração trazem sobrescripto; mas eu não o disse, porque não estava hoje de maré para isso.
(Interrupção na direita.)
Não se magoem os illustres deputados, porque não vale a pena.
Eu podia dizer o que diz a opinião publica, mas não venho para isso hoje.
Se eu fiz algumas accusações, e estiverem no extracto da sessão, mantenho-as todas como lá estiverem; mas que se me attribuam, sem protesto da minha parte, accusações, não estou para isso.

O sr. José Luciano de Castro, a breve trecho de me pedir explicações, e eu peço á maioria e á minoria o favor de me ouvirem, para depois não haver duvidas...

O sr. José Luciano de Castro, a breve trecho, vem pedir-me as provas e as responsabilidades, a mim, que não o accusava, mas que unica e simplesmente referia o que se diz n'este reclamo publicado n'um jornal affecto ao governo! E diz s. exa. «quero as provas, porque estou aqui para zelar a moralidade do governo. Este governo é immoral? Não é; mas posso estar illudido, e então quero provas.»
Mas se s. exa. confessa que póde estar illudido, não acha regular que a opinião publica pense igualmente que s. exa. póde estar illudido?! (Apoiados.)
Tomára s. exa. que o convencessem de que está illudido. (Riso.)
Temos o terceiro ponto.
A maioria não recebe nada e a minoria tambem não.
Eu tambem não disse que a maioria recebe cousa alguma. Mas estas cousas, uma vez ditas, ficam como uma marca de ferro em brasa. Ainda agora quem o disse foi o sr. Laranjo. (Apoiados.) E nós todos, tão comica, para não dizer outra cousa, tão grotesca achámos esta affirmação, que nos referimos a ella, ainda humoristicamente, porque estamos convencidos, que a maioria não recebe graças nem receberá, pelo seu voto ao governo; recebe as por outras rasões; por conveniencia do serviço publico e por conveniencia dos interesses dos circulos.
Ora, se a maioria não recebe nada, ella que serve o governo, claro é que a minoria nada recebe igualmente, porque é opposição.
Por conseguinte, ainda por este lado é absolutamente mangue a parte do discurso do sr. Luciano de Castro tendendo, nem mais nem menos, do que a indispor-me com a maioria.
Portanto, repito, as responsabilidades, não tem s. exa. de m'as pedir a mim, porque tenha s. exa. a certeza, de que não fiz accusações nenhumas. Disse o que referia o jornal e tirei d'este jornal illações que me pareceram curiosas.
Se quizesse fazer accusações ao governo ou a alguns dos seus membros, não vinha fazel-as discutindo as sessões nocturnas, mas mandava para a mesa uma proposta de accusação ao ministro.
Não tem portanto que pedir-me provas, peça-as a quem as deve pedir, peça-as a si mesmo, que se tem encarregado de concorrer bastante, para o descredito dos seus collegas. Peça-as á opinião publica, que accusa o governo por todas as negociatas que ella diz que o governo tem feito, accuse a sua maioria, que não póde pôr cobro e obstar, a que essas negociatas se fizessem. A mim não é que s. exa. tem que se dirigir, porque não tenho nada com isso.
Se s. exa. tem muito prazer em obter triumphos rhetoricos, póde fallar ainda depois de mim, que não lhe responderei.

O sr. Presidente do Conselho de Ministros (Luciano de Castro): - Declara que folgou muito de ouvir as palavras do illustre deputado, porque via que não comprehendêra bem o pensamento de s. exa. quando fallára da primeira vez.
Julgou que o illustre deputado proferira palavras que continham insinuações aos membros do gabinete, e então entendera dever pedir explicações; agora via que s. exa. não fizera insinuações, e apenas tirara illações de um reclame, ou annuncio publicado n'um jornal.
Já dissera que não tinha responsabilidade pelo que n'esse jornal se escrevia; e agora acrescentava que pelos annuncios dos jornaes, nem a propria redacção era responsavel e só sim a administração.
Dissera s. exa. que elle, orador, se oppozera ao monopolio do tabaco, e que fizera propaganda contra os seus collegas; mas, se lhe fosse permittido, pediria ainda a apresentação das provas de tal asserção; emquanto estas não fossem apresentadas, estava no direito de dizer que a asserção era completamente destituida de fundamento.
Ninguem o podia accusar de falta de lealdade para com os seus collegas.
Quanto ao processo Hersent, elle não fôra intentado contra pessoa alguma certa, mas sim para se ver se havia culpados, e o governo, procedendo assim, cumpria o seu dever satisfazendo ás indicações da opinião e da imprensa.
Tambem o illustre deputado dissera que a opinião publica declarava que havia projectos com sobrescripto. Pedia a s. exa. que declarasse quaes eram esses projectos. Podia dizer ao sr. deputado que os não havia, nem consentia