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2212 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

avant tout le monde. Monsieur le professeur, vevillez offrir le bras á madame de Bismarck.
Não pareça á camara que isto não tem significação; que o diga o nobre ministro dos estrangeiros, que é diplomata, ainda que modestamente affirme que o é apenas por dever do cargo. S. exa. foi sempre um distincto homem do mundo, como se diz na alta sociedade; e que o assevere o sr. Carlos du Bocage, que viu em Berlim como ali é difficil o accesso na sociedade, aonde o talento ainda, infelizmente, não abre as portas e as recamaras dos salões aristocráticos.
A questão colonial não é hoje senão uma hypothese da resolução da questão social. As questões politicas fizeram o seu tempo. (Apoiados.) A questão social differe das questões politicas porque estas eram isoladas e diversas, e a questão social é a mesma em toda a parte, cosmopolita, e de igual intensidade. (Muitos apoiados.)
E, terminando este ponto, permitta-me a camara que volte ao volume de L'Année Politique de 1880 e que lhe leia um pequeno período que se refere a um projecto de lei que o principe de Bismarck apresentou ao reichstag: «Emfim, n'um projecto de lei sobre cabotagem, o governo queria que a cabotagem fosse interdita aos navios estrangeiros, salvo auctorisação do imperador; o reichstag rejeitou esta disposição, auctorisando a cabotagem em regra geral, a menos de interdicção especial pelo imperador.»
Sobre cabotagem na Europa o chanceller tem estas idéas.
Creia a camara, que, se o principe de Bismarck fosse estadista de um paiz possuidor de antigas colónias, elle não presidiria á humanitaria e livre conferencia de Berlim.
Sr. presidente, eu podia fazer a largos traços a historia da nossa administração colonial; dizer o que fizemos primitivamente, como enfeudamos as terras descobertas, como as constituimos em capitanias ou em estados e como a revolução liberal de 1834 as encontrou.
Não quero cansar a attenção da camara, nem importa fazer agora largas divagações históricas. Importa chegar ao nosso tempo, deixando accentuado que os homens que implantaram entre nós o systema constitucional, se encontraram o paiz económicamente arruinado, e administrativamente desorganisado, encontraram igualmente, profundamente abatidas as nossas colónias, e quebrada com a independencia do Brazil, a nossa tradição colonial. A Africa, ha muito tempo, deposito de escravos, era desprezivel. Da India já se não curava. (Apoiados.)
Esses homens dos primeiros annos da nossa vida constitucional preocupavam-se com a metropole e das colónias nada queriam saber. Esta maneira de ver fez escola. Mousinho da Silveira nunca incluiu nos seus planos da reorganisação e regeneração da pátria nada que dissesse respeito ás colonias. D'aqui veio o desprendimento geral das nossas tradições marítimas e o amortecimento do espirito nacional em relação ás questões coloniaes. (Apoiados.)
Apenas o marquez de Sá da Bandeira, como excepção, tem um pensamento e um sentimento colonial; e desde o seu primeiro ministerio, desde que em 1836 preside ao governo, elle inicia uma campanha que faz durante toda a vida.
N'esse governo foi ministro da marinha Vieira de Castro, e no relatorio que apresentou ao parlamento a 14 de fevereiro escreveu o seguinte:
«Sem a abolição da escravatura inutil será legislar.»
Profunda verdade, sem duvida, a que felizmente está dando rasão a nova maneira de ser das nossas colonias, e a transformação porque o trabalho ali está passando.
Mas o facto é que durante essa larga campanha, emprehendida por Sá da Bandeira, durante a qual o nobre marquez firmou uma serie de leis até á de 1869, a ultima que elle referendou e na qual fixou o termo final da escravatura para o dia 29 de abril de 1878, o paiz manteve-se sempre desprendido e alheio das questões africanas. (Apoiados.) E, no emtanto, não succedia assim nas outras nações, principalmente desde que um simples missionario, dotado de uma heroica tenacidade e de uma paciencia verdadeiramente evangelica, David Livingstone, a quem já alguem chamou o Christo de Africa, desembarcou em 1841 no Cabo.
Aprendêra elle, durante a sua travessia da Europa ao Brazil e do Brazil ao Cabo, a fazer observações com o capitão Donaldson, que commandava o navio em que ia, e a essas lições deveu a sciencia as descobertas que desde então produziram o movimento africanista.
Primeiro as descobertas na Africa despertaram um grande interesse geographico e naturalista. Depois esse interesse ampliou-se e tornou-se um grande interesse social. Passara pelo governo em Portugal o espirito elevado e esclarecido de Rebello da Silva, a elle se deve a remodelação das nossas leis organicas do ultramar, e as primeiras tentativas da organisação da instrucção e das obras publicas.
Eu não quero fazer agora a critica da tendencia do liberalismo em levar para a Africa a copia das nossas leis, e em legislar uniformemente para todas as colonias; basta fazer a justiça devida a Rebello da Silva, que na sua passagem rápida pelo ministerio da marinha, quando ainda se conservava adormecida a opinião publica portugueza sobre estes assumptos, trabalhou com sinceridade de intenções, e com o patriotismo que sabia sentir aquelle coração! (Apoiados.)
A meu ver, porém, o primeiro ministro que na gerencia da pasta dos negocios do ultramar tem um verdadeiro plano vasto e largo, capaz de poder resolver toda a complicada e extensa questão colonial portugueza attrahindo e concentrando as nossas attenções para onde ellas mais particularmente devem convergir, foi o sr. Andrade Corvo.
E, não se molestem os meus correligionarios politicos com esta justiça que eu profundamente sinto, e muito folgo de fazer no parlamento portuguez a um meu illustre adversario politico e a um amigo particular que desde creança respeito.
Como partido, o partido progressista quasi que não tem tido tempo de assentar e desenvolver os seus planos de administração no poder; como responsabilidades do nosso abatimento colonial não lhe cabem nenhumas.
Espero demonstrar cabalmente isto que avanço.
Qual era, pois, o plano colonial do sr. Andrade Corvo?
Fomento no ultramar e alliança ingleza.
Vozes: - Deu a hora.
O Orador: - Ouço dizer que deu a hora, sr. presidente e como tenho ainda mais algumas considerações a fazer, e alem disso me sinto fatigado, peço a v. exa. que me reserve a palavra para a sessão seguinte.
(O orador foi cumprimentado.}
Leu-se na mesa a seguinte

Moção de ordem

A camara approva a convenção entre Portugal e a associação internacional, de 14 de fevereiro do corrente anno, e bem assim o acto geral da conferencia de Berlim de 26 do mesmo mez e anno; lamenta que o governo portuguez tivesse celebrado o tratado de 26 de fevereiro de 1884, e convida o governo a expor ao parlamento a sua política colonial. = Vicente Pinheiro.
Foi admittida, ficando em discussão com o projecto.

O sr. Presidente: - A ordem da noite para a sessão de hoje é a continuação da discussão do projecto de reforma do municipio de Lisboa; e a ordem do dia para ámanhã é a continuação da que estava dada, e mais os projectos n.ºs 54 e 125.
Está levantada a sessão.
Eram cinco horas da tarde.

Redactor = S. Rego.