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1928 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

Todos se lembram do conflicto que esteve imminente entre a Hespanha e Allemanha, por causa da questão das ilhas Carolinas, e todos sabem que foi a attitude inergica e digna do povo hespanhol que evitou que a Allemanha ficasse de posso d'aquellas ilhas.

N'aquelle momento de effervescencia não faltou quem dissesse que a Allemanha tinha procedido d'aquelle modo em virtude de combinações com Affonso XII e com o governo Hespanhol.

N'essa occasião eu estava fazendo serviço na praça de Peniche, tinha abandonado a imprensa, mas uma ou outra vez, para não perder o costume, escrevia algum artigo para um ou outro jornal que me dava a honra de pedir a minha fraca collaboração.

Muitos emigrados hespanhoes, dos que tinham feito a revolta de Badajoz, estavam deportados n'aquella praça.

Aquelles emigrados recebiam jornaes do seu paiz.

Um d'elles mostrou-me um jornal hespanhol, que trazia um periodo notavel, periodo que transcrevi no Jornal de Torres Vedras e que vou ler á camara para mostrar o risco em que esteve Portugal.

Escreveu este jornal o seguinte, e peço á camara que attenda no que vou ler para ver, que ha pouco tempo es tivemos em risco de ser absorvidos pela Hespanha. O Progresso jornal do paiz vizinho, foi processado e suspensa a sua publicação por desvendar o mysterio em que andava envolta esta tyrannia.

Segundo o mesmo jornal, a Allemanha foi apoderar se das Carolinas com o consentimento tacito da Hespanha, sob conditione de que esta nação se apoderaria de Portugal, fornecendo a Allemanha se fosse necessario 20:000 homens para se realisar esta empreza.

Feita a unificação de Portugal com a Hespanha, Affonso XII seria proclamado imperador da Iberia e as possessões portuguesas da Asia passariam para o poder da Allemanha.

Macau e Timor seriam o premio d'esta torpeza!!

D. Luiz I passava a governar a Roumelia e Roumania, etc., para o indemnisar da perda de Portugal.

O que é facto, é que o emigrado que me deu o jornal, não obstante estar desesperado com o seu governo, mostrava a mais viva satisfação, e contentamento suppondo que ía já realisar-se o que o periodico annunciava.

Ainda mais, depois d'este artigo, a efervescencia em Hespanha declinou.

Mas, verdade ou não verdade, todos nós, creio eu, presentimos que n'uma occasião de conflicto europeu a nossa independencia é posta em jogo.

V. exas. sabem que todos os partidos em Hespanha cubicam a posse de Portugal. N'este ponto não ha divergencias, o até quando se falla n'isto terminam as que possam haver, e todos se põem de accordo.

Ainda hoje os jornaes da noite publicam em telegramma o extracto das palavras proferidas esta tarde na sessão do congresso hespanhol pelo ministro dos negocios estrangeiros o sr. Moret, na parte referente ao tratado do commercio com Portugal. O sr. Moret declarou que as relações commerciaes com Portugal íam ser collocadas no terreno das represalias.

Por tudo isto se vê que devemos ter o exercito preparado para qualquer eventualidade, porque se estivermos desprevenidos, não é n'um momento que o podemos collocar em circumstancias de resistir.

Portanto, devemos cooperar todos para melhorar o exercito, porque elle é a salvaguarda das instituições e o penhor seguro da independencia da patria.

As nações pequenas, que têem o seu exercito bem preparado, podam resistir por bastante tempo e fazer deter um exercito invasor de muito maiores proporções.

Assim podem dar tempo de ser soccorridas pelas suas respectivas alliadas, que certamente nada farão se succumbirem logo ás primeiras investidas.

Se o nosso exercito estiver bem organisado, se tiver a força que deve ter, podemos resistir muito tempo e durante elle Deus sabe o que poderá sobrevir.

O exercito deve ser a nação armada; deve todo o paiz convencer-se que elle é a salvaguarda da nossa independencia.

Mas, infelizmente, uma grande parte dos que não são militares, cooperam para que o exercito não seja o que deve ser, e não chegue ao nivel a que deve chegar.

Emquanto as diversas classes sociaes não se convencerem de que o exercito é indispensavel á nação, e não cooperarem todas para lhe dar força e prestigio, elle não poderá satisfazer ao seu fim. No momento dado, será sacrificado ingloriamente e com elle a patria, que durante tanto tempo o desprezou.

eferiram-se os illustres deputados, a quem tenho a honra de responder, á lei do recrutamento e aos poucos soldados que tem o nosso exercito.

Isto não é novo.

Os varios oradores que em 1885 combateram n'esta e na outra casa do parlamento o bill de indemnidade, disseram exactamente o mesmo que agora dizem os illustres deputados, e previram, o que não era difficil, o que agora está acontecendo.

Quer a camara ver o que em 1885 disse o nosso mallogrado amigo o sr. Thomás Bastos?

«Não nos illudamos, as remissões, com mercancia ou sem ella, são, na phrase do sr. Fontes, em 1873, a negação da ordem, a negação da organisação do exercito, o a negação da existencia do proprio exercito.»

Dizia mais o orador:

«Commentou, depois, s. exa. esta opinião, e eu vou fazer tambem meu o seu commentario, se s. exa. m'o permitte, apenas mudando o tempo dos verbos e os algarismos; e direi que, quando a camara votar 12:000 homens de contingente, o governo não poderá apurar nem 6:000. Quando se disser ao governo que promova os meios de termos um exercito verdadeiramente organisado, á altura das circumstancias do paiz, um exercito compativel com as posses da população, o governo por mais que queira não o poderá conseguir.»

Parece-me que não era possivel prever melhor o futuro.

Sr. presidente, parece-me ter provado que as accusações que agora fazem os illustres deputados, vão todas reflectir-se no seu antigo chefe, porque tudo quanto está acontecendo foi previsto por nós.

Mas ha mais.

Dizia ainda o mesmo orador:

«S. exa., (referindo-se ao sr. Fontes) ou o ministro da guerra que lhe succeder, ha de vir aqui, em virtude das reclamações constantes dos officiaes que querem cumprir o seu dever, em nome das necessidades da guarnição do paiz, pedir ás camaras que lhe votem meios de supprir os 270:000$000 réis das remissões, porque de outro modo não tem soldados. Disse o sr. relator que as remissões deviam dar 400:000$000 réis. Isto só póde provar que o governo terá dinheiro para gastar, e os corpos não terão soldados para servir.!

Que mais querem os illustres deputados?

Quem tem a culpa do exercito não ter soldados?

Será porventura o illustre visconde de S. Januario?

A resposta é escusada porque foi dada em 1885.

O sr. Thomás Bastos ainda disse:

«A minha opinião é que com tal organisação não podemos ter mobilisação e creio ter agora demonstrado que em taes bases tambem não podemos ter exercito nem para a paz nem para a guerra.»

Acertou.

Mas o que eu admiro, é ouvir agora os illustres deputados lançarem a culpa do que está succedendo ao sr. visconde de S. Januario.

Se eu estivesse no logar de s. exa. vinha aqui confessar