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1938 DIARIO DA CAMARA DOS SENHORES DEPUTADOS

é porque essas obras se acham já n'um notavel estado de adiantamento.

Quando as circumstancias do thesouro forem mais prosperas podemos e devemos augmentar a verba para as fortificações; antes d'isso devemos caminhar cautelosamente para não caírmos no abysmo.

Lembra-me do ditado portuguez: devagar que tenho pressa.

Antes andar devagar do que parar; isso é que é mau.

Em 1861 votaram as camarás 4UO:000$000 réis para n'esse anno se gastarem nas fortificações; as obras só começaram em 1864 e em 1866 estavam gastos apenas cento o tantos contos, tendo o governo á sua disposição proximo de 300:000$000 réis para applicar áquelle destino.

Sabe v. exa. o que se fez?

Mandaram-se suspender as obras, exactamente quando rebentava a guerra entre a Prussia e a Austria, que terminou com a batalha de Sadowa.

Quando duas nações poderosas estavam em lucta, quando todas as outras nações se armavam a fim de estarem preparadas para uma eventualidade, foi exactamente que entre nós estiveram parados os trabalhos do fortificação para os quaes tinha o governo quasi 300:000$000 réis á sua disposição.

E sabe v. exa. quem era ministro da guerra n'essa occasião?

O seu fallecido chefe, o sr. Fontes Pereira de Mello.

Veja v. exa. que comparação ha, entre gastar réis 150:000$000 cada anno em fortificações, estando a Europa socegada, e mandar parar essas obras, tendo o governo 300:000$000 réis á sua disposição, e havendo uma guerra accesa entre duas nações poderosas.

Pois isto fez-se; e o mais curioso é virem os deputados que têem estas responsabilidades accusar o governo porque gasta, pouco em fortificações.

Na sessão da camara dos pares de 14 de maio de 1866 o benemerito general Sá da Bandeira accusava o governo por ter mandado parar as obras de fortificação. Depois de judiciosas considerações em que mostrou quaes os trabalhos de fortificação que se emprehendiam nos outros paizes, concluiu fazendo as seguintes perguntas ao sr. ministro da guerra:

1.ª Se o governo tencionava dar execução á lei de 11 de setembro de 1861 que determinava se fortificasse a cidade de Lisboa;

2.ª Se estando disposto o governo a dar execução a essa lei, quando tenciona mandar continuar os trabalhos que se acham suspensos;

3.ª Se no caso de não tencionar por em execução a referida lei, fazia tenção de propor ás côrtes que ella fosse derogada.

Querem v. exas. saber o que respondeu o sr. Fontes?

Que reconhecia a necessidade de prover ás fortificações das capital, mas attendendo ás finanças do estado não era possivel por então fazer essas obras.

O sr. marquez de Sá volta á carga, declarando que o governo tinha meios á sua disposição votados pelas côrtes, a fim do dar seguimento a estas obras; porém por mais que instasse nada conseguiu.

Vê portanto o sr. Baracho que houve uma epocha em que o seu partido não se preoccupou com a defeza da capital nem com a defeza do paiz, emquanto que agora trata-se de ambas as cousas.

O sr. Baracho: - N'esse tempo não pertencia eu ao partido regenerador, porque não tinha ainda nascido para a politica.

O Orador: - Em todo o caso nós temos a responsabilidade dos actos do nosso partido, embora tenhamos vindo mais tardo, e não temos remedio senão compartilhal-os.

Eu desejo muito que se attenda á defeza do paiz, mas o governo vae fazendo n'esse sentido o que póde conforme os recursos do thesouro.

Não temos ainda um plano detalhado d'essa defeza, não obstante varios ministros da guerra terem tentado a resolução d'esse intrincado problema.

V. exa. sabe que em 1880 foi nomeada uma grande commissão composta de officiaes dos mais distinctos de todas as armas para apresentar um plano detalhado da defeza do reino.

Em 1881 foi reorganisada essa commissão, que teve bastantes sessões, a que presidiu o sr. Fontes então director geral da arma de engenheria.

N'essas sessões discutia-se muito o que é bom.

Uns queriam que se resistisse ao inimigo na fronteira; outros, que se preparassem campos entrincheirados; outros, que nos concentrassemos apenas em Lisboa, convenientemente fortificada, abandonando o resto do paiz, inclusivamente o Porto.

Ainda assim, parece que se assentou no estabelecimento de varios campos entrincheirados para offerecer a resistencia ao inimigo o mais distante possivel.

Assim ficou assente entre todos, que se estabelecesse um campo entrincheirado nas proximidades de Celorico, Guarda, etc., outro em Tancos, comprehendido entre o Tejo, Zezere, Nabão o estrada n.° 51, outro nas proximidades de Evora, Extremoz, etc.

O corpo de estado maior foi encarregado de mandar pelos seus officiaes levantar as plantas detalhadas dos terrenos, para depois se discutir quaes as obras a effectuar.

N'essa commissão se discutiu largamente a conveniencia do serviço militar obrigatorio, que o sr. Fontes declarava achar boa essa theoria, mas que elle não o decretava.

A commissão teve umas poucas de sessões e estava com vontade de trabalhar, porque sabia que todo o exercito estava com os olhos n'ella.

Em 1882 assumiu a pasta da guerra o sr. Fontes, que era o presidente da commissão, e desde essa epocha nunca mais ella se reuniu.

Ha pouco o sr. visconde de S. Januario dissolveu esta commissão e nomeou outra, e eu faço votos para que seja mais feliz do que as suas antecessoras, e se desempenhe da sua missão, como o paiz e o exercito desejam.

Por esta breve resenha vê o meu illustre amigo o sr. Baracho que varias tentativas se têem feito, e todas infructiferas, para termos um plano detalhado da defeza do paiz, de modo que saibamos com a devida antecedencia o que se ha do fazer no momento do perigo, onde ha de haver muita confusão, muita duvida e muita hesitação.

Este problema parece do tal maneira difficil que ha trinta e seis annos se trabalha em o resolver, e ainda nem sequer está posto em equação.

O que se faz quando o inimigo nos invadir?

Não se sabe, e todos conhecem que esta duvida não póde continuar a subsistir.

Partindo mesmo da hypothese, que tinhamos o exercito convenientemente organisado, o que não póde é deixar de ser de antemão resolvido o modo como esse exercito ha de operar, o local onde ha de esperar o inimigo, etc., etc.

Por isso eu faço votos para que a commissão recentemente nomeada corresponda ao que o paiz espera do seu patriotismo. Vamos a outro ponto.

Disse o sr. Baracho que a escola pratica de artilheria usa de processos rotineiros, pois que os projecteis ainda são carregados todos com polvora ordinaria, não se tendo entre nós feito uma unica experiencia com os modernos explosivos.

É effectivamente uma verdade o que disse o illustre deputado, porém s. exa. deve saber que essas experiencias são modernissimas, que experiencias d'essa ordem são sempre muito despendiosas, e se nós as fossemos emprehender tinha de se gastar muito dinheiro.

Deixemos as nações grandes fazer essas experiencias, e depois se ellas derem resultado, noa as aproveitaremos.